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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Final de tarde, na minha janela


Estou cercada de edifícios, como a maioria dos moradores das chamadas grandes cidades. Minha sorte é que todos os grandes que me cercam, estão longe de minha janela da sala, o que me dá uma certa vantagem na vida: tenho meu pedação de céu e árvores velhas, inclusive frutíferas, que sobraram da sanha imobiliária neste alto do morro.
Há pouco, coloquei meu computador na sala, para fugir do calor absurdo do meu pequeno escritório, cuja minúscula janela pega todo o calorão da parede de sustentação de encosta embora até divise algumas plantas e um imenso figueirão que mais ameaça do que faz sombra no edifício. Então, curto o vento abençoado que bate na minha cara enquanto teclo estas linhas em que busco ver coisas boas e bonitas que sirvam como um possível contraponto a meus sentimentos destes últimos dias.
Tenho sorte nesta encarnação, com amigos novos e antigos que não me esquecem, apesar de minhas retiradas para meu mundo interior, colegas generosos que me estendem a mão, filhos (e nora) extraordinários que seguram meus efeitos montanha-russa e pai e mãe que me mostram, diariamente, que fui premiada em nascer deles. Mas, ultimamente, a coisa anda braba no quesito saúde deles. E eu, que chuto o balde com tanta facilidade em tantos outros quesitos da vida, ando grudada nas paredes, me segurando no ar, tamanho o medo de que se quebre esta frágil linha que separa a vida daquele mistério que a sucede, cedo ou tarde.
Tenho amigas valentes, que enfrentam doenças com uma galhardia, uma dignidade tão grandes, que me envergonho de minha covardia e de meus mimimis cada vez que meu pai parece cruzar a tal linha, para retornar em seguida. Me detesto por ficar assim, parecendo uma folha amarela e seca indo ao sabor da brisa mais forreca, quase imobilizada, assustada como cachorro em caíque, em vez de encarar as coisas como ela são. A finitude de tudo, inclusive – até mesmo do plástico mais resistente que, um dia, vai se misturar à terra, como nossos ancestrais milenares que hoje são petróleo.
Pior é ainda tentar fazer graça, numa hora dessas, em que me falta foco e direção. A televisão ligada joga notícias novas e antigas, imagens de João Goulart em preto e branco, de carnaval avacalhado por bagunceiros, de indicados ao Oscar, da menina loirinha e risonha que adultos e jovens sem limites assassinaram numa beira de praia. Do meu mirante, vejo gente fechando as janelas, encerrando o dia. Aquele carro que ficou quatro dias azucrinando, no estacionamento ao lado, com o alarme disparado, sumiu. A vida de final de fevereiro vai andando, a reunião pela manhã me recolocou na rotina do trabalho, minha mãe amou os bem-casados novinhos que levei no almoço, e meu pai pediu mais suco de uva, elogiando: “mas tá bom, isso aqui”. Ele tem dito muito esta frase, para comida, bebida, qualquer imagem que o agrade. Torço tanto para que ele fique presente, dizendo que gosta da vida. Mas, em seguida, ele vai embora, pra esse território miserável da mente que teima em se alargar. E eu fico aqui, tentando escrever e achar meu jeito de continuar vivendo sem desespero.

A demência de meu pai


Um garoto. Garotão. Bonito. Nem simpático nem antipático – indiferente, à primeira vista.
Se mostra cansado, meio que desaba na cadeira enquanto pergunta: “em que posso ajudar vocês?”  Enquanto meu pai o olha, naquele alheamento que não se sabe direito nunca se está atento ou viajando para outros lugares mentais, pego a pasta com todo o histórico médico do velho desde 2005, quando teve seus 8 AVCs. Vou falando. Pegando resultados de exames, tomografia.
Vejo que o garoto está inquieto. Mas mostra interesse. Exibo a lista de medicamentos que a  cardiologias indicou e acrescento que ela também deu amostras grátis de um antidepressivo chamado Serenata e o moço, rápido, me diz: “Serenata, o que é? Só conheço bombom”. Fico firme. Na verdade, não reclamo da ironia muito mais porque estou cansada do que por segurar a raiva. Telefono para minha mãe e com ela pego o princípio ativo do remédio, ao mesmo tempo em que me desculpo com o neurologista tão jovem por ter falhado em não ter à mão, na pasta tão completa, ao menos a bula do remédio. Me sinto uma imbecil.
Ele, então, diagnostica: “o que teu pai tem é bla bla bla bla bla demência. E falou, falou, falou e eu só conseguia lembrar desta palavra. Demência! E meu pai ali, com aquele olhar vago, estranho. O que estaria pensando?
Espero o rapaz terminar de falar e olho firme para ele. “Demência não é loucura, né doutor?”, e faço sinal para meu pai, que continua silencioso e imóvel, ao meu lado. Então, o médico, especialista na cabeça dos mortais, discorre com naturalidade sobre “a demência não é loucura, em absoluto, é uma espécie de cansaço do cérebro”. 
E recomenda: “o senhor tem de ler, caminhar, fazer fisioterapia, palavras cruzadas”. E o pai ali, só diz pra ele. “Eu tô conformado, doutor”.  E ouve como resposta, daquele lindo menino que há pouco havia dito que recebe 15 pessoas pó dia com os problemas do meu pai: “eu também estou conformado, eu agora queria estar em outro lugar, mas estou aqui”.
Não. Ele não estava sendo grosseiro. Estava sendo objetivo e frio. Até elogiou meu pai: “o senhor é um sobrevivente”.
Saímos dali, corredor afora, meu pai caminhando como um bêbado, assobiando para disfarçar seu desapontamento com a vida, tentando me agradar como se me dissesse “tá tudo bem”, embora diariamente diga que não quer levantar da cama porque quer morrer.
Sim. Meu pai tem demência. Essas coisas que a gente sabe, intui, até fala en passant. Mas como dói ouvir tão claramente. E saber que tem de ir levando. Se conformar. Cuidar. Amar. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Depois da bandeira de Cuba, Battisti no Piratini



É pleno verão e minha vontade é de não só morar na Escandinávia como ter nascido por lá: passar frio desde pequenininha, que maravilha! Não bastasse a panela de pressão em que Porto Alegre se transformou (ou terei eu vivido até então sem me dar conta de que sempre foi tão miseravelmente quente por aqui?), eis que o governador eleito (não com meu voto) do meu Rio Grande do sul recebeu, no Palácio Piratini, o assassino italiano Cesare Battisti. Sim, um novo mundo foi possível para este sujeito de ar cínico, sorriso de idiota com os dentes gastos e separados a esconder sua verdadeira persona, que ele cultiva sob o ralo cabelo pintado à moda cafetão de quinta categoria e pose de superioridade.
Com camiseta de grife, ar boçal que se pretende casual e ameaçando que vai se “reerguer” trabalhando junto às favelas, o gringo que boa parte dos coleguinhas de imprensa local chamou de “ativista” em vez de terrorista queele foi, pisou, sem medo de ser feliz, o chão icônico de todos os gaúchos - a sede do governo. Ali, foi efusivamente saudado por seu libertador Simon Bolivar particular, com quem depois também almoçou num restaurante quase chique do Moinhos de Vento. Todos muito, muito felizes, comme Il faut no mundo do podre poder. Nada mais natural para quem integra um grupo quem hasteou a bandeira de Cuba na sacada do casarão do alto da Praça da Matriz e convidou representante das Farc para evento na cidade.  Indignação boba, essa minha!
Mas não posso deixar de sentir um engulho muito grande nessa hora, nessa Porto Alegre, nesse verão. É como se minha cidade natal tivesse mergulhado num desvão do tempo, e voltado à época daquela grande merda do livro vermelho de Mao e dos gulags, espólios e mortes da turma de Stálin. E há quem ainda sonhe com este mundo em que ninguém é dono de nada embora seja propriedade do Estado.
Por causa deste calor e do episódio Tarso - Battisti, lembrei que, há uns anos, conheci um casal que salió de Cuba para abrir um bar – claro que temático – em Porto Alegre.  E o bar foi um sucesso. Os dois eram gente simpática: ela, porto-alegrense, filha de comunistas, amava contar que foi para a ilha jovenzinha e lá conheceu o futuro marido, um homem forte, de risada solta, que usava, atrás do balcão, o chapelão e o charuto no canto da boca e preparava um aperitivo delicioso (e caríssimo) que teria sido criado pela turma de Fidel em Sierra Maestra durante la revolución. Uma colega e amiga querida, que fazia parte da turma que prestigiava o lugar, tão engambelada quanto eu, emprestou um CD de canções espanholas para a señora. Meses depois, constrangida, pediu o CD de volta. Recebeu? Nem ele nem o maridão lembravam mais de nada. Decepção, tsc tsc tsc! E a cartilha de igualdade socialista? Bueno...
Até que, uma noite, a mesma e falante señora, comentou, desolada, que precisava de mais grana, e descreveu a beleza do grande terreno de que era proprietária, aqui em Porto Alegre, mas estava esperando que valorizasse mais para dele se desfazer. Aí, me convenci de que comunista capitalista e especulador imobiliário era demais pra minha boa vontade. Desisti da dupla, do bar, das boas comidinhas cubanas e de contribuir para a bolsa de valores da dupla.
De fato, o calor está me atormentando. Nem boas lembranças me deixa ter nestes dias em que enxovalharam a história da minha terra dando guarida a um cafajeste travestido de “ativista” político. Tristes dias!



quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Quase delicadamente

Estou aqui, escarafunchando os fundilhos da memória para ver se arranco alguma lembrança extraordinariamente marcante de algum ano novo nestes meus quase 60 anos de vida. Não consigo. Nem uma grande virada. Tampouco qualquer fatalidade para me fazer ter arrepios diante da data. Uma linha de tempo contínua, a deste tema. Nem sei se isso é bom ou ruim.
Hoje, enquanto levava Occhi e Dodô para sua caminhada matinal, vi que o movimento de carros estava menor, que a loja de objetos de decoração da esquina estava fechada e que o salão de beleza estava vazio. Pensei: “entramos na modalidade espera para 2012”. E acho que é isso que sempre foi e é, para mim, a troca do calendário.
Entre o Natal que se jura cristão e esta festa assumidamente pagã, fica, para mim, um corredor de tempo e de expectativas em que tudo parece estar suspenso, mesmo que andando na sua dita normalidade. Já trabalhei muitos Natais e muitos Anos Novos mas a sensação foi sempre a mesma: os dias que se sucedem  entre as datas é quase um hiato que a gente vai preenchendo com fatos que teimam em brotar sobre o que se acumulou e as coisas que achamos que vão acontecer no que está por vir.
Houve época, sim, em que desejei muito ter um Ano Novo de revista Cruzeiro anos 60: toda de branco,  coque banana com franjinha, salto alto, chique, taça flute borbulhante na mão, sorriso imenso, cheirosa e cheia de esperanças! Com lentilhas dentro da carteira, calcinha nova na cor do Santo do ano entrante, olhos faiscantes de tanta felicidade, pronta para a vida nova! Mas isso já tem muito tempo e o cheiro do papel e da tinta da revista Cruzeiro só existem na minha mania de lembrar ! Acostumei aos atropelos da cozinha que mal domino, a esperar a “grande chegada “ vendo a festa pela televisão, a brindar meio que na obrigação porque, de repente, nada era o que as imagens mentais que eu teimava em alimentar me prometiam.
Engraçado. Em minha casa paterna, o Ano Novo parecia ter mais importância do que o Natal, data em que jamais erguemos um pinheiro ou montamos um presépio – isso só fui fazer depois de ter  meus rebentos. Minha mãe se esmerava para fazer lentilhas gostosas e nunca nos faltou um espumante para o tim tim em taças de cristal, daquelas de boca larga. Duas, que sobraram,  ainda guardo, como relíquia. Também muitas vezes celebramos em grandes grupos, porque a família é imensa e gostava muito de se reunir, e cantávamos, claro “Adeus ano velho, feliz ano novo, que tudo se realize...”
Com o que, nada tenho a reclamar das tais festividades, sem ostentação, claro,  mas igualmente sem miséria, graças aos deuses. Atualmente, fica difícil reunir todo mundo, inclusive os filhos que, exercendo seu direito, optam por viajar ou se juntar aos familiares de suas respectivas metades da maçã. Eu, mais uma vez, vou para perto de meus velhos, curtir suas presenças enquanto ainda há tempo. Isso é, na real, a felicidade sem exageros, sem ruídos excessivos, sem excepcionalidedes: romper um novo ano, esta abstração que tentamos tornar real, com os nossos pilares.  Venha, então, 2012. E outros mais. “Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

E que assim seja!



Fazia tempo que eu não rezava. Nem é crise de fé. É desleixo mesmo. Coisa vergonhosa, eu sei. Tenho uma vizinha que acorda às cinco da manhã para ler a Bíblia, rezar e inclusive pedir pelos amigos, conhecidos, familiares, até por gente que ela mal conhece. E ela está longe de ser uma louca fanática: é uma mulher inteligente, professora, tradutora e intérprete, trabalha duramente, cuida de filho e de um pai velhinho que recentemente ficou viúvo.
Fui criada no Espiritismo, estudando as obras básicas, freqüentando mais de uma vez por semana a Sociedade Espírita Bezerra de Menezes que era uma casa simples mas sólida, instalada na Zona Norte de Porto Alegre e hoje é um imenso edifício com várias outras sedes em torno. Na minha época, o salão quadrado era de piso de taboão e as cadeiras de madeira tinham assento móvel  (e como a gente cuidava pra não fazer barulho ao levantar e baixar o assento, porque todo mundo olhava feio!), e os bons modos de então exigiam que homens se sentassem à direita e mulheres e crianças, à esquerda. Uma porta de folha dupla dava acesso a este salão que sempre foi, pra mim, mágico.
Um homem magro, alto, quase careca, óculos de aro eternamente sobre o nariz, um casacão preto que ia até o chão e, retirado da cabeça a cada vez que ele punha os pés no salão, um indefectível boné de maquis, comandava o comportamento geral. Seo Carlos! Administrava mal o idioma, coitado, mas adorava falar bastante e gesticular, e bater a campainha para exigir silêncio absoluto quando a palestra estava para começar. Nem um zumbido de mosca se ouvia. Só a voz do velho Carlos, um doce homem que exercia sua autoridade para simplesmente nos apaziguar e preparar para aquele momento em que se buscava justo um pouco de sossego e misericórdia em nossas vidas.
Passei décadas bebendo, encantada, as palestras feitas naquele velho salão que cheirava a óleo de peroba. Havia o Seo Ernesto, que intimamente em casa a gente chamava de “Alemão”, com seu sotaque forte, a cara grande, o queixo quadrado, um olhar que atingia fundo até a última fileira. Tinha também o Coronel Olmiro, enérgico, voz de trovão, uma capacidade fantástica de pegar qualquer tema aberto ao acaso no Evangelho sobre a mesa e nos deixar embasbacados e totalmente convencidos de que havia punição para o mal e recompensa para o bem. E havia Seo Caetano, que, eu saberia muito mais tarde, foi o italiano solteirão que, depois de deixar a vida de bebedeiras e jogatina que levava no Club dos Caçadores (cabaré que faz parte da história de Porto Alegre) resolveu comprar um terreno e mandar erguer aquele prédio da rua Nova York, primeira sede própria da sociedade fundada em 1917 por velhos e novos espíritas, entre eles muitos jornalistas de A Federação cujos nomes li, encantada, quando resolvi escrever o livro contanto a história do “Bezerra”, como sempre chamamos  a casa.
Seo Caetano era baixinho, usava chapéu panamá, ternos de linho claros e bem cortados e uma bengala. Um dia, me dei contad de que aquele pequeno curativo que ele trazia sobre o olho direito, começou a crescer, até que virou um tapa-olho. O câncer o levou embora. De modo discreto como sempre ele mesmo foi. Discreto,  mas indelével.
Hoje, não vou mais ao “Bezerra”, que começou a ficar grande e impessoal demais para uma pobre religiosa da roça como eu, que queria silêncio, carinho e amizades como as que tive por lá durante meus verdes anos e boa parte da maturidade. Talvez por ter perdido esta conexão, aos poucos fui escoando pelo ralo minha vontade de enxergar além desta vida material que se desmancha em no máximo 100 anos. E com certeza foi a ausência das palavras que reverberavam pela boca dos oradores, na velha sede, que me deixou órfã de boas orações. Mas hoje, quando abri os olhos, pela manhã, espontaneamente rezei:  por um bom dia com paz e coragem, por forças para minha mãe continuar firme, por uma melhora na saúde de meu pai, por meus filhos acima de tudo e por meus afetos.  Pedi assim, sem grandes pretensões, como quem mergulha na vida depois de horas na incerteza do sono. Pedi a este Deus em que eu já acreditei tanto que, ao menos neste Natal, a gente mereça este pouco  pedido, que na verdade é muito. Quem sabe alguém ouviu? Seo Carlos, Seo Ernesto, Coronel Olmiro, Seo Caetano – vocês podem ser emissários do meu pedido?
Que Assim Seja! 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

As trevas, de alto a baixo


Faltou luz. Esta semana, foi a segunda vez aqui em volta – na primeira, um caminhão bateu, de ré, num poste com transformador. Detalhe: dentro do posto de gasolina. O motorista puxou o freio de mão e saiu da cabine. Hoje, nem sei a razão do black out. Talvez o temporal. E como tem dado temporal por este país!  Sinal dos deuses: mitologicamente (segundo minha mitologia pessoal), a chuva lava os males, os trovões limpam o astral e os raios queimam as maldades. 
Estamos precisando de muito disso, com certeza. Está faltando luz não só na rede elétrica, mas principalmente na rede mental das criaturas. Num país em que todo um ministério apodrece mês a mês e a titular do governo faz um café da manhã com os coleguinhas e ainda diz que no seu mandato não tem lugar pra corrupção, a luz está faltando mesmo. Ainda mais quando uma pesquisa aponta que a ex-guerrilheira que chegou ao topo do poder no meu amado Brasil está aprovada pessoalmente por uma boa parte da população. É a treva total, pior que na Idade Média da peste bubônica.
Sem falar na tal oposição, que não sai da zona de conforto ou porque tem rabo preso não desamarrado ou realmente porque jogou a toalha por absoluta incompetência. Tá dominado, tudo dominado. Falta luz em especial em boa parte das redações de rádios, jornais, TVs e sites, nas faculdades de comunicação social, e nos sindicatos, aliás setor em que encheu os bolsos, de forma digamos nada sutil um tal de Luiz Fernando Emediato, ex-escritor e hoje dono da editora que pariu o livro escroto de um tal Amaury Jr que eu chamo de “o outro” e é pior que o botocado da TV. Falta luz. Aliás, dona Luci, minha sábia e rigorosa mãe, viu uma entrevista deste cara na Record e me disse: “Não confiei nesse sujeito só pelo jeito de ele olhar, ele não olha no olho, ele é um mentiroso”. 
A treva vai do maior ao menos poderoso. Como o caso da maldita enfermeira que torturou e matou a pauladas e pontapés um cachorrinho indefeso, e fez isso na frente de uma criança de seus dois anos de idade. Passei mal quando vi o vídeo que rolou pelo Youtube. Passei mal quando soube que faz mais de um mês que esta bandida foi ouvida “informalmente” numa delegacia de Goiás e simplesmente mandada para casa. É a escuridão total: a brutalidade cometida na frente de uma criança contra um animal que agonizou até a morte diante da frieza da assassina. Não tem energia de Belo Monte e Itaipu que chegue a tempo pra uma alma destas.
É trevoso da mesma forma ver um trem ficar parado mais de 40 minutos numa linha carioca,  apinhado de gente, e um burocrata dos infernos aparecer duas horas depois para falar com a maior calma que foi um problema, que aconteceu. Que importa, afinal, aquela gente? É considerada gado, aquela gente pobre, fedorenta, desdentada, descabelada, que vive fazendo crediário e passando cheque pré porque acredita no que dizem os poderosos, então, para os “lá de cima”, essa gente não merece preocupação daqueles  que elege em troca de promessas e tostões pra uma cachacinha a mais! É ou não é? Eles não aprendem, por isso, ficam dentro de um trem, sem ar, no escuro. E azar deles. Falta luz.
Então, agora que voltou a energia por aqui e que cometo mais esta conversa meio sem nexo, quase na véspera de mais um Natal, fico com vontade de desligar computador, todas as luzes da casa, pegar os meus amados cachorros e sair rua afora. Sem destino. Sem bilhete de volta. Minha pouca luz está em curto também. Espero que ainda haja conserto.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Vergonha de ser jornalista. Ou a a assessoria vergonhosa


Existe algo de muito melancólico numa profissão como o jornalismo quando a gente vê alguém que se diz jornalista usando a sua condição de mulher de um político envolvido até o último fio de cabelo em denúncia de corrupção para assinar um texto ao estilo sertanojo em defesa do próprio maridão. Foi o que fez a mulher de Carlos Lupi, o mentiroso que Dilma teima em manter no cargo para não dar o braço a torcer (como se pudesse) à revista Veja que vem desnudando, uma a uma, as safadezas do poder que se grudou como craca no Planalto.
Ângela Rocha, que se diz especialista em políticas públicas, seja lá o que realmente isso for, cujo trabalho como jornalista desconheço (tentei encontrar algo na internet, mas nem a Tribuna da Imprensa, onde ela diz ter estagiado, apresenta qualquer coisa que ela tenha produzido), num tocante exemplo de fidelidade matrimonial, fez um looooooooooooooongo texto defendendo o marido. E não poupou a apelação de citar os filhos e neto para seu mimimi.  Numa patética versão de Anne Sinclair, mulher de Dominique Strauss-Kahn, que bancou o ex-diretor do FMI diante de todas suas baixarias reveladas, a colega Ângela desce ladeira abaixo cometendo bobagens como chamar o marido indiretamente de cachorro pequeno ao dizer “o Lupi não é vítima de nada. (...) Ele sabe que é simplesmente o alvo menor que precisa ser abatido para que seja atingido um alvo maior. É briga de cachorro grande”.
Mais adiante, magoada com amigos que provavelmente se afastaram do casal, comete mais uma burrada: “A coisa é tão bem montada que até a gente começa a duvidar de nós mesmos”. Ao estilo atire-no-mensageiro, a esposa fiel afirma que “Nossa imprensa julga, condena e manda para o pelotão de fuzilamento” e quer porque quer convencer quem a lê que o cônjuge, coitado, é um estourado do tipo ingênuo, vítima de pergunta capciosa da imprensa malvada. Cega de paixão, enxerga as fotos de Lupi no avião do dono da ONG (suspeita de falcatrua também) como armação. E por aí vai o constrangedor depoimento de dona Ângela.
Pior que isso, no entanto, e ainda mais vergonhoso para a profissão de jornalista e para o cargo de assessor de imprensa, é a atitude de outro desconhecido bem empregado que se assina Max Monjardim cuja única qualidade anunciada pelo eternamente rancoroso Paulo Henrique Amorim é ser filho de um assessor de imprensa do finado Leonel Brizola chamado Oswaldo Maneschi (ou Osvaldo Maneschy, aparecem as duas grafias na internet) e que é o atual secretário nacional de comunicação do PDT. Pois Max, o afoito, enviou não só o texto da mulher do chefe para o blog de PAH como junto postou um “bilhetinho” em que diz “Mas a nossa avaliação é que guerra é guerra, e como tal, precisamos todos utilizar as ferramentas (e porque não armas) que temos.” E  prossegue o garoto afoito,  embalado por sua amizade com o criador do PIG:  “Acordos políticos e funções nomeadas, recuperam-se. Mas a vida e a família, como diria o velho Maneschão, combativo companheiro, o buraco é mais embaixo.” Maneschão, esclareça-se, é seu pápis e, pelo que se vê, ídolo!
Só queria saber uma coisinha: não é antiético um assessor de instituição pública distribuir material “jornalístico” produzido para a instituição para um partido político, no caso, o PDT, do qual o pai é empregado? Ou agora tudo está tão misturado que Max, o menino, trabalha em pacote recebendo do Ministério (e do nosso bolso) para atender também o PDT? Aliás, o coleguinha herdeiro das relações paternas também é o responsável pela revista do Ministério, que exalta os feitos de Lupi e que expõe, em seu editorial os nomes de Dilma e outros políticos no poder. No meu tempo, isso era propaganda paga com grana da população e era ilegal. Mudou?



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Estranho e Hipócrita Brasil!


Começo a escrever enquanto um cheiro de miojo com molho de frango entra pela janela do meu micro birô, ao mesmo tempo em que disparo respostas de mails, abasteço redes sociais de meus clientes, confirmo entrevistas de escritores que estão na doce babel que é a Feira do Livro, penso se almoço ou não, que devo dar comida pros cães, que tenho de botar roupas para lavar e estender, ouço noticiário na TV ligada na sala, percorro o Google em clipagem, entro e saio mil vezes de portais de jornais, revistas, rádios, TVs e penso na matéria que li esta semana na Galileu sobre os malefícios de fazer várias coisas ao mesmo tempo.  E quase rio, pra não chorar, considerando que, se eu fizer uma tarefa por vez, nem um dia com 48 horas será suficiente!
Ah, as teorias sobre o mundo ideal, o viver ideal, tudo bonitinho, ajeitadinho, sem um fio de cabelo fora do lugar. O paraíso de boa parte dos psicólogos e psiquiatras que, em vão, tentam nos enquadrar nos moldes que carregam para seus consultórios,  eles que, coitados, semanalmente também precisam peregrinar para os consultórios de seus próprios psicólogos e psiquiatras para calibrar a cuca. Moto continuo!
Ando cada vez mais irritada com estas coisas do politicamente correto, da hipocrisia elevada ao cubo, todo mundo tentando se magnânimo com os defeitos alheios  daqueles que estão longe, mas que não suportam um pentelho de qualquer familiar caído no tapete do banheiro de casa. Me pasmo com a ginástica que a maior parte dos colegas destes brasis está fazendo para tentar se equilibrar no cordãozinho frágil da “postura justa” quando o assunto é o câncer de Lula. Tenho visto, ouvido e lido cada falsidade que nem todos os sacos de vômito de um jumbo serão suficientes pra armazenar todo o meu nojo.
Nas redes sociais, em especial no Face, esta festa dos mascarados é ainda mais ruidosa: gente que jamais precisou botar o mimoso pezinho em um ambulatório ou emergência do SUS se descabela para provar que é uma maldade não só a provocação do “Lula vai pro SUS” mas acima de tudo as reclamações contra o ma-ra-vi-lho-so sistema de saúde pública brasileiro.  Nunca antes na história deste país um tumor foi tão apaixonadamente discutido. Nem o do mitificado vice José de Alencar, mimadíssimo pela mídia por sua “bondosa” mineirice no trato que buscava encobrir os humanos defeitos (políticos inclusive), nem o câncer de Dilma, nem o de Gianecchini, nada veio a furo com tanta intensidade quanto o tumor do “cara”.
E o que mais me chama atenção é que as críticas, os diferentes níveis de raiva, maldade, praguejamentos inclusive, contra Lula brotaram imediatos, sem qualquer tipo de articulação.  Eu acompanhei a divulgação da notícia enquanto estava navegando nas redes e, segundos após, começaram a pipocar os recadinhos de “Lula vai pro SUS”, e, claro, na mesma hora, o choro e o ranger de dentes das viúvas.
A fúria era justificada pelos “contras” com o argumento de se ousar brincar com uma doença como essa (que minha avó chamava de “coisa ruim”, tamanho o medo medieval que, pelo jeito, ainda impera) mas, obviamente, se o doente fosse um imperialista americano tipo Bush, claro que daria pra se dizer o que quisesse. Foi o festival do dedo em riste na cara de quem, usando de “crueldade, desumanidade, insensibilidade”, se atrevia a confrontar Lula com suas incoerências, como o seu discurso em que, sacanamente, diante do populacho mesmerizado, dizia que o posto de saúde era tão bom que estava louco pra se internar. Mas é lógico que o malho seria livre caso o tumor estivesse na garganta de, por exemplo, algum jornalista da Globo. 
A rotina do SUS é, pra mim, como todos os que me lêem sabem, bem conhecida. Tenho narrado aqui e onde posso escrever publicamente a saga de meu pai em sua luta contra o câncer de próstata percorrendo os caminhos da assistência pública à saúde. Minhas brigas, bem como meus eventuais elogios a esta realidade médica e hospitalar que temos, são claras e coerentes.  E as acho justas. Por isso não tenho como deixar de me manifestar sobre o circo do câncer de Lula e seus bichinhos amestrados.  Não me incomodam os autênticos partidários defensores do doente, cujo papel é mesmo prantear o paizinho doente.  Me dão ( e não escrevo dão-me de propósito!!!!!) urticária os que, de repente, viraram humanitários e magnânimos por puro oportunismo ou medo. Eca!
Estranho, este Brasil. Muito estranho.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Um comentário enviado para Reinaldo Azevedo


Reinaldo. Sou uma "conviva" do câncer, faz anos, não na própria pele, mas como se fosse, já que meu pai, hoje com 83 anos, é portador de um tumor maligno de próstata. Ou seja: o velho, conhecido e temido câncer, que minha avó, de tanto medo, não nos permitia dizer o nome - chamava de "coisa ruim". Faz 15 dias, meu velho, que tem ainda cardiopatia, hipertensão, alzheimer e parkinson, além de sequelas de 7 ou 8 AVCs (perdemos a conta!), precisou fazer uma orquiectomia, nome bonito para castração, já que a quimio que ele vinha fazendo há anos, de três em três meses, já não conseguia vencer a alta do PSA. Como ele é um (dos 11) filho de um tropeiro do interior gaúcho, adora usar expressões hiperbólicas como "não tá morto quem peleia", embora, todos os dias, chore como criança quando não consegue se erguer da cama ou quando acontece de não segurar a vontade de ir ao banheiro.
Pois meu pai é paciente SUS. Sapateiro desde menino, descontou de seu parco dinheiro com a disciplina do pobre persistente e, claro, nunca teve sobra para ter um plano de saúde particular. Volta e meia, a pressão dispara, o coração idem, a dor aperta e lá vamos nós, para a emergência do SUS da Santa Casa, hospital hoje riquíssimo, que já foi hospital "da Misericórdia" e que hoje, depois das 19h, não tem mais nem faxineira para limpar vômito, urina ou fezes de quem, por alguma destas desgraças do organismo debilitado, se desaperta no corredor, na maca, diante de todos. Pelo SUS, é claro, porque nos setores de convênio/particular, tudo é limpíssimo, bem decorado, confortável.
Meu pai é um velho humilde. Tanto que, cada vez que voltamos da emergência ou das consultas muitas vezes com médicos grosseiros, que nem levantam os olhos para ver quem está diante deles, o seo Waldemar, meu pai, diz: "então, vamos embora. bacana, este doutor, né?". Grato, sim, pela migalha jogada às vezes com nojo pelos que são a comissão de frente do nosso sistema único de saúde, que, obviamente, quem tem grana e poder, não vai usar.
Não creio que meu pai tenha câncer por uma maldade de Deus, uma vingança do Todo Poderoso por algum deslize que ele tenha cometido, um olho por olho executado pelo Pai de todas as coisas vivas. E acredito que, mesmo quem comete as piores maldades, tem sim o direito da ajuda, do sentimento mínimo de piedade. Nem sempre, claro, dá para ter simpatia ou genuíno sentimento de solidariedade a um Kadafi, a Hitler, a Nero, a quem violenta uma criança, a um traficante que queima um inocente numa pilha de pneus. Nem Jesus teria complacência com estes - não esqueçamos de que ele expulsou a chicotadas os chamados vendilhões do templo.
Pois digo tudo isso, num texto em que nem paro para pensar se está tudo certinho, das ideias à pontuação, movida pelo sentimento, para tentar mais que explicar (quem sou eu para tal?) a reação de milhões diante do câncer de Lula dizendo que é a hora de ele procurar o SUS.
Maldade? Ideologia? Falta de humanidade? Talvez tudo isso e mais. Ou talvez, como no meu caso, pura indignaçao diante da mitificação absurda de um homem mortal, falível e, acima de tudo, desesperado por poder, que se colocou no alto de um pedestal que outros milhões seguram e que, agora, se viu confrontado com aquilo que realmente todos somos: iguais perante a saúde e perante a doença.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Reencarna, Steve Jobs!


Honestamente, Steve Jobs eu curto assim por tabela, porque não tive a honra de comprar nem uma de suas engenhocas, ainda estou com meu Windows, meu celular sem câmera fotográfica, e sem pressa de entrar para o grupo dos Applemaníacos.  Eu me incluo mais na turma dos que admiram o cara por sua inteligência acima da média e também por seu jeitão mais pra Greta Garbo do que pra Marilyn Monroe (esta, com certeza um avatar do Bill Gates) e o mito que alimentou de que era “difícil” no trato, um chato cheio de manias e de eterno mau humor.
Grande coisa! Quem me dera ter cruzado com “difíceis” talentosos como Jobs em minha vida! Pelo menos, eu me conformaria em estar engolindo fogo por uma causa nobre, criativa, daquelas que alavancam a vida humana. Pior é ter de partilhar horas e horas com “difíceis” medíocres, daqueles que se sentem no direito de ter pití sem merecer sequer o direito de revirar os olhinhos em sinal de descontentamento.
Mas eu falava de Jobs, e destas criaturas que surgem em tão diferentes meios sociais, econômicos e culturais, com uma missão muito clara que, não importa o tamanho do sacrifício ou das barreiras, terminam cumprindo. Como espírita convicta (mas fora do tal movimento dos espíritas)  acredito que estas grandes almas (não necessariamente boazinhas e mansos) terminam voltando a diferentes mundos para ajudar os ignaros a aprender mais rapidamente e assim mover os mundos para cima. Poupam, assim, Deus de ter que suportar diuturnamente pela eternidade a burrice dos filhos, sua lentidão, atraso e má-vontade.
Fiz, esta semana, um exercício: tentar sacar quem foi Steve Jobs em outras vidas. Sim, porque espírita pra valer tem de acreditar nisso! Já vivemos muitas vidas, ora como homem, ora como mulher (por favor, sem ilações com as origens do homossexualismo, debate em que não entro!), enquanto outras correntes espiritualistas afirmam que cada um de nós já foi bicho, planta e mineral, outra polêmica em que não meto – e continuo a matar baratas!
Pelos conhecimentos de Jobs nas ciências exatas, deve ter pertencido a alguma extirpe ancestral ligada aos números, talvez até dos atlantes. Como também era filósofo (e quem disse isso, sabiamente, foi meu amigo Amauri Mello), deve ter sido de alguma escola socrática. Depois, pode ter nascido na Renascença, em algum movimento estético e cultural, já que sua visão plástica na Apple é evidente.  Na revolução industrial, lá estava ele, tirando o povo da manufatura pra botar todo mundo a tocar máquinas. E veio vindo, o Steve, juntando conhecimentos e, claro, vaidades, por que não? Era bom e sabia disso!
Dizem que antes de reencarnar há 50 e poucos anos, nos Estados Unidos, disposto a se aperfeiçoar pra agradar ao Senhor, e já sabendo que ia ser entregue pelos pais de sangue (e aí não me meto, são brigas de família de muitos milênios!) para adoção, ofereceram a ele a chance de, numa ainda maior prova de humildade, nascer de família miserável numa cidadezinha do Nordeste. Mas, Steve pensou bem, e lembrou daquele outro sujeito que conhecera na sala de espera, que estava espumando de brabo porque teria de voltar a viver desta vez no Brasil. E era um caso mais complicado que o dele, pois o tal sujeito tinha a ficha cheia de malfeito, além de ser arrogante, reativo e vidas e vidas inteiras ter feito parte dos alunos que usavam chapéu de burro na escola, embora a esperteza fosse sempre imensa, sempre metido em política.
Foi aí que Steve achou melhor abraçar a causa tecnológica na terrinha do Tio Sam e deixar a provinha pro outro que, afinal, tinha se comprometido em ser finalmente honesto, justo e bom e não mais um enganador, um demagogo aproveitador.  Pois é. Steve Jobs cumpriu a palavra. Viveu pouco, mas foi realmente “o cara”. O outro, que veio pro Nordeste, na primeira oportunidade cortou o dedo mindinho pra poder ficar recebendo uma graninha sem trabalhar. Também ganhou, do tal Todo Poderoso, um grande poder, sua chance de ser um líder exemplar, mas preferiu fazer, de novo, todas as porcarias que vem fazendo século após século.
Então, companheiro Steve Jobs, aproveita e descansa aí, mas volta logo! De preferência, no Brasil. A gente tá precisando muito!