Não lembro bem o ano, mas sei que foi entre 1971 e 1974, quando eu estava na Fabico, e diploma era um papel respeitado para jornalistas, mesmo que, nas redações, houvesse centenas de provisionados que a gente aprenderia a respeitar tambem.Só sei que o tacão das botas era de aço temperado, assim como o pessoal da guerrilha ainda achava que pegar em armas era a solução. Sei também que tínhamos professores declaradamente de “esquerda”, enfurecidos, que só não eram mais explícitos em seu discurso em sala de aula porque havia, entre os alunos, olheiros das chamadas forças de segurança (nem de inteligência eram porque, claro, não havia razão para tal designação) que se faziam de bons e amáveis colegas mas estavam agindo e contribuindo para aumentar a lista de sumidos.
Todo mundo sabia que o cara que sentava naquela mesa perto da janela tinha sido levado para algum porão ou botado o pé no navio, mas a gente preferia cantar Você Abusou no Bar do Português a ser mais um na lista. E, claro, se sonhava com o “já raiou a liberdade no horizonte do Brasil”. Enquanto isso, se ia vivendo, achando trabalho, tentando aprender que comunicação era um exercício de sobrevivência e de jogo de cintura e que, um dia, todos seriam reconhecidos, que um salvador da pátria amada ia nos redimir de todo o medo, de toda a tristeza, de toda a incerteza de então.
A vida passou. Veio a democracia, de novo, e, para alegria e felicidade geral dos que ainda acreditavam no livrinho vermelho do Mao e no socialismo que igualaria todos os homens, Lula subiu ao podium. Não com champanhe, mas com um bom Romanée Conti, relembremos. E a galera votante acreditou, piamente, que tudo estaria resolvido com esta coroação da paulatina ascenção petista ao trono do poder brasileiro. Enfim, raiava a democracia nativa autêntica, parida nas bases sociais, capaz de criar um sistema igualitário que eliminaria todo o histórico regime de castas nunca assumido desta denominada República.
E que coisa linda, vejam só, daqui a pouco estaremos fazendo parte do seletésimo grupo dos mais ricos, que orgulho! Graças ao estadista Lula. E tudo real, sem um vestígio de pobreza, de carência, respeito total a jovens e velhos. Somos felizes! Em especial os aposentados. Opa! Mas que surpresa. Sob a lulocracia se cometem arbitrariedades com os aposentados! Sim! A ponto de, sem um aviso por ofício, carta ou mail, bloquearem, simplesmente, o ironicamente apelidado benefício de um pobre trabalhador.
Funciona assim a maldade: o incauto aposentado sabe que, determinado dia, em sua continha bancária, estará depositado o tal dinheirinho, nada que se equipare a aposentadoria de um juiz, mas é com esse dinheiro que ele vai alimentar a família, inclusive ajudar pais idosos. Com base nisso, o otário organiza o pagamento de suas contas e, quando dá, até programa um gasto extra. Mas passa o dia do depósito, passa mais um e o trouxa então liga para o número 135, do Ministério da Previdência Social, cheio de esperanças. E fica sabendo, então, que seu pagamento foi bloqueado. O motivo não é revelado. “Tem de entrar em contato com o INSS da sua cidade”.
Detalhe: INSS
Só que, na hora de ver o que houve com seu caso, recebe uma explicação vaga, que ele já ouvira pelo 135: “bloqueio.” No impresso que o funcionário lhe alcança, está escrito ainda: “Tomar ciência ofício de defesa”. E nada adianta querer saber mais. Nada mais obtém. Bota o rabo no meio das pernas e como um viralatas pulguento, sai tonto à rua. Passa um dia inteiro de angústia, buscando respostas que não surgem. E decide-se, enfim, por ir atrás de um advogado especialista em direito previdenciário.
Fica sabendo que para entrar com mandado de segurança que garanta o depósito imediato tem de obter, no posto do INSS, uma declaração formal de bloqueio. Mas precisa esperar 48 horas para tomar esta medida. E sabe-se lá se vão dar a tal declaração. Enquanto isso, que se vire atrás de dinheiro emprestado para honrar seus compromissos.
Nunca, no tempo do militarismo inclusive, houve tal desrespeito com o cidadão.
Enquanto isso, no Planalto, a canalhagem se diverte. Aí, vem aquela sensação de que se nasceu no país errado e que, no taco a taco, levando em conta sujeira, doença, miséria e corrupção, a Índia, pelo menos, é mais interessante. Pensando bem, até o Haiti deve ser melhor que esta terra de ninguém, de fascistas travestidos de democratas e liberais.
Ah. Antes que perguntem de quem se trata: eu sou a vítima. Mas vou brigar bravamente pelo que me é de direito. Aguardem.
Como milhões devem ter feito, eu fiquei na frente da tv vendo o memorial para o Michael Jackson. Sim, eu mesma. A cascadura que no post abaixo fez questão de repisar o episódio mais comprometedor da vida do sujeito.
Fiquei até essa hora decidindo se postava ou não sobre a morte de Michael Jackson. Li tanta piada infame no twitter que me deu enjoo e achei que ia ser mais um texto sem a menor importância para nada. Mas vou deixar de ser orgulhosa, que de nada adianta, e vou sim falar do moço de quem lembro, acima de tudo, numa fase de minha vida em que tinha um filho de seis anos e uma filha de um aninho e acabara de perder minha casa própria, depois de perder o emprego pelo fechamento da Folha da Tarde onde eu tinha sido sub-chefe de reportagem geral quando chegou o tufão da falência, com seus pagamentos em vale e eu tive um princípio de aborto.

Historinha: no final dos anos 90, um recém-feito amigo (empresário bem-sucedido, de pensamento bem cartesiano como sói acontecer com engenheiros como ele) terminou a amizade comigo me acusando de corporativista insensível. Tudo porque, numa troca de mails, ele, interessadíssimo que estava em se tornar escritor e colaborador de veículos de comunicação, me contou que uma amiga publicitária lhe havia “passado” uma pauta que ela havia recebido “para ele aprender como se fazia matéria.” O que, obviamente, bateu na minha dignidade profissional, resultando num longo e ferino desabafo em que eu falava da falta de ética da moça e, por tabela, de quem aceitava tal “presente”. Anos após, o empresário editou seu primeiro livro, virou colaborador de alguns veículos e até pouco tempo chegamos a trocar algumas mensagens, na boa.
Sempre vou lembrar disso. Para mim, a moral da história que ficava implícita naquela revelação era “eu posso fazer o que qualquer jornalista pode e não preciso ralar em faculdades mais ou menos boas para estar numa revista, num jornal, em TV, rádio ou internet”. E é verdade. – para quem acha que jornalismo é tão somente “saber escrever” não há a menor necessidade de cursar uma faculdade que habilite legalmente para a área. E, usando a figura comparativa que um dos doutos ministros do STF citou para espinafrar ainda mais com a “catiguria”: para ser chef de cuisine o essencial é ter talento para cozinhar. O resto – saber como cortar legumes, qual faca é mais adequada para determinado ingrediente etc – pode ou não ser aprendido em cursos, superiores ou não.
O jornalista, este ser que, na maior parte das vezes, se acha acima dos demais mortais e que, amiúde, adora transmitir seu pobre e malfeito programa de televisão de restaurantes e bares para comer e beber de graça (ele e mais uma tropa que carrega junto), pois esta criatura em geral mal-paga (e aquela outra expressão a mais, que vem antes desta, também) consegue ser invejada a ponto de terminarem com seu amado diploma. Sim, eu sei que não é o diploma que se acabou, “apenas” a obrigatoriedade dele para o sujeito ficar de 10 a 12 horas numa redação fazendo pautas, de olho em 300 mails diários e fuçando em sites e blogs para não levar furo. O que, na minha época, era diferente: em vez de perder a visão na frente do computador, se ia ficando surdo de ouvir, de meia em meia hora, os noticiários das rádios de Rio e São Paulo em ondas curtas, com toda a chiadeira. E depois ainda degravar tudo, para resenhar.
Mas os prazeres do jornalismo não ficam só nisso. Há quem dedique sua vida a controlar um batalhão de repórteres, de todos os níveis de experiência e qualidade, na busca de cumprimento de suas quatro ou cinco pautas diárias, depois na conferência das informações que chegam da rua. Detalhe bom de lembrar sobre o glamour da profissão: em alguns veículos, ainda hoje repórter vai de ônibus atrás de notícia! E tem de voltar a tempo para a redação. De preferência, sem ranço, com humor estável.
Sem contar as pautas de fotos, de infográficos, a diagramação, a pentelhação dos telefonemas da direção para fazer as chamadas matérias 500, aquelas que interessam a amigos da casa, patrocinadores, futuros anunciantes ou algo do tipo. Sem contar as reuniões insuportáveis para analisar o que nunca é realmente analisado, mudar o que nunca vai ser de fato mudado, colocar na roda aquela reportagem sensacional que um simples mail do andar de cima derruba porque, sabe, fulano joga golfe com o namorado da filha “do homem” e estamos conversados.
Coisa simples, isso de ser jornalista. Está aí a razão para todo mundo achar que pode e quer ser um. Afinal, escrever não é privilégio de jornalista. Ponto.
Lembrei agora de outra historinha bobinha, bobinha: trabalhava eu no Correio do Povo e o diagramador resolveu fazer um título desafiador que exigia oito linhas de no máximo seis toques cada uma. E a gente fez! Em menos de 15 minutos, porque o fechamento já estava estourando, diagramador e paginador cobrando, as rotativas esperando para botar na rua mais uma edição brilhante que teria de chegar ao assinante mais remoto até às 5 da manhã. Tudo para, ao meio-dia, como dizia meu querido Tuio Becker, nossas manchetes, as fotos escolhidas a capricho, o texto revisado (sempre deixando escapar um maldito erro) estar embrulhando peixe no mercado público. Ah, mas isso foi no tempo em que se embrulhava peixe em jornal. Agora, estamos livres. Ninguém mais tem de se preocupar com mais nada.
Se pode até lançar um slogan: “Jornalista! Toda família, um dia vai ter o seu”. E como diz o brilhante André Barrionuevo em seu deboche bem-vindo: “agora, pra ser burro, não é preciso estudar”.
Texto feito originalmente para Coletiva.net e para o Boletim.
PS: como recebi um mail de uma amável professora paulista dizendo não ter entendido minha posição, acho que errei a mão e a ironia saiu pela culatra.
Coloco aqui a resposta que dei a ela:
Oi, Helena

Pois muito bem. Estou em novo endereço há duas semanas. Subi o morro! Agora moro mais pertinho do céu e, possivelmente, do buraco da camada de ozônio e das nuvens de gás carbônico também. Acho salutar este movimento de deixar a tal zona de conforto e procurar uma nova zona de conforto, é claro, porque não vou querer, a estas alturas da vida, experimentar a vida de monge. Até tenho uma colega que deixou o filho único (ok, já criado) e até computador para trás e foi viver numa prainha da Bahia. Dizem que está felicíssima. Bronzeada, ao menos, sei que está. E pelo menos pode tomar seus pilequinhos sossegada, sem se preocupar com degraus de bar e os conhecidos em volta, cobrando e rindo, como acontecia por aqui.
Porém, todavia, contudo, o que eu queria contar é da minha nova vida numa área que conheci quando era menina e que, naqueles tempos dantanho, não contava, na maioria das ruas, nem mesmo com calçamento. Lembro de tardes de domingo em que, enquanto minha mãe colocava as conversas em dia ou na casa de minha avó Zeca ou na de minha tia Eda, na baixada deste mesmo morro, eu e minhas primas Maria José, Maria, às vezes Salete, empreendíamos nossa caminhada lomba acima para visitar amigas delas. De uma até lembro o nome: Gedy. Onde andará? Era loira, tinha um nariz grande, uma gargalhada inimitável e imensas unhas vermelhas que me enchiam os olhos.
Eu me sentia muito importante, sendo novinha em meio a mocinhas cheias de suspiros e segredos, naqueles encontros em que o assunto principal, claro, era namoros, ilusões, desilusões, muito riso, algum choro. O cenário era, em sua grande parte, formado por chalés simples de madeira, pintados de cores alegres, pátios com muita margarida, copo de leite, saudade, cravo e cravina e aquelas lindas e cheirosas violetas comuns, que a gente colhia para fazer buquê e levar para a professora.
Hoje, o Mont Serrat virou bairro muito chique, com prédios imponentes em seus bizarros estilos neoclássicos, tudo muito igual, com piscinas, quadras de basquete, parquinho e toda esta parafernália para quem pode pagar e em geral nem sabe onde fica a churrasqueira porque, claro, almoça fora em bons restaurantes. Não. Não é má vontade nem com dinheiro muito menos com status. Sem grana, quem move a máquina da existência?
Em que pese o incômodo que me dá o mau gosto da maior parte destas construções com garagens para 3 carros, 4 dormitórios etc e tal, me dói mais é ver, em meio a dois megaprédios sobre pilotis uma velha casinha de madeira cuja terra do pátio parece lambida de tão limpa e alisada. Esta casinha é simbólica para mim e minhas lembranças. Perguntei a um vizinho quem ali morava. Me contou que era de uma velha senhora que há muitas décadas é empregada doméstica que mora no emprego e que, diariamente, vem cedinho até aquela que foi sua morada para varrer, tirar todas as folhices, e limpar as paredes e janelas de madeira de uma dignidade que muito prédio de vidro blindado não tem. Me encanta passar, diariamente, diante desta pequena casa que me parece ter vários cômodos, pois tem mais de uma porta em sua lateral. Diante de suas duas janelas que se abrem em par, há quatro pés de bananeira que, juro por Deus, parecem ser lustrados diariamente. No caminho que leva até os fundos do terreno, o jardim é delimitado por várias garrafas pet fincadas na terra que, à noite, brilham como luminárias no escuro do lugar.
Engraçado é que, antes de encontrar este apartamento, eu vinha, intuitivamente, talvez por saudades de minha meninice com as primas e suas amigas, caminhar por estas ruas bonitas, neste alto de morro. E ficava olhando as casas de madeira que ainda resistem, algumas com verdadeiras favelas, seis casas enfileiradas uma atrás da outra, com roupas estendidas em varal erguido com taquara, pátio embarrado, sempre um ou outro encostado na porta, fumando, pensando na vida encostado em soleiras mal cuidadas.
De modo que fico tentando aprender com estes contrastes entre dinheiro sobrando e quase total falta dele, entre pomposos prédios com gente de nariz em pé e chalés velhos cuidados por mãos cheias de afeto. Está sendo um bom aprendizado esta mudança. Principalmente por buscar coisas do baú e permitir vê-las à luz do dia, de uma nova vivência.
Não consegui ainda fotografar o chalezinho caprichado. Por enquanto, fica esta foto linda que peguei neste site

Estava demorando, mas veio a crítica dos franceses ao jeito digamos descontraído e afoito demais com que as autoridades brasileiras estão regurgitando informações sobre o mistério do sumiço do vôo 447 da Air France. Eu sabia, eu sabia! Quando vi o anúncio de que Nelson Jobim ia assumir a explicação dos trabalhos investigativos, juro pela minha alma que pensei: ái, meus deuses, aí vem pavonice e conversa demais!
É impressionante como as assessorias de comunicação de caras como Jobim e parceiros com ou sem farda, nestas horas de absoluta necessidade de contenção e prudência deixam o chefe dizer o que quer e mandar ladeira abaixo toda uma possível coerência e lisura no trato com a opinião pública.
Certo, a gente que já vivenciou ou vivencia esta zona de perigo constante que é a assessoria de comunicação social chamada “oficial” sabe o quanto é difícil ser respeitado por alguém que, baseado num punhado de votos, acha que sabe tudo e que jornalista bom é jornalista obediente. Em minha curta (felizmente) experiência na área, assisti a coisas de arrepiar e quando me atrevia a comentar a posição de sabujice de muitos colegas, quase sempre era sutilmente aconselhada a me recolher à minha insignificância. Afinal, se fulano havia chegado ao “poder”, é porque ele sabia tudo, de cura da unha encravada a marquetíngue. Assessor de imprensa? Ah, só pra mandar uma notinha ou fazer uma fotinho, porque o chefe, afinal, tem linha direta com os que mandam meeeeeeesmo nas mídias.
Pois temos assistido a um desfile de absoluta falta de gestão de crise no que toca a esclarecer o distinto público sobre este vaivém de barco, avião e helicóptero em busca de vestígios do vôo, este vai tudo pra Fernando de Noronha, depois não vai, vai pra Recife. E a história da mancha de óleo no mar? Primeiro, era do avião sumido. Agora, não é mais. Também “explicaram” que primeiro os navios iam e voltavam sem parar nem recolher nada porque estavam procurando sobreviventes ou corpos. Depois, passou a valer fazer as duas coisas – procurar gente e restos da aeronave. Quanto aos destroço, também eram do 447, poucas horas depois não eram mais, porém estão sendo recolhidos igualmente. Para serem descartados, como foi “esclarecido”!
Em meio a toda esta desinformação, a gente vê jornalistas tatibitando nas coletivas, fazendo perguntas sem o menor saco, sem a menor pesquisa, a câmera flagrando gente se levantando rindo feliz da vida no final dos desesclarecimentos, sem a menor compostura, como se fosse o anúncio de um baile de debutantes. Quequiéisso, cumpanhêros?
E os especialistas de plantão na programação, respondendo besteiras à altura das perguntas idiotas? Pior: se antes a internet era o terreno que redimia a porcaria feita pelas mídias ditas tradicionais, com a vantagem do imediatismo de som e imagem, agora é uma pasmaceira de dar nojo! Fico com pena mesmo é dos familiares que estão sendo “acolhidos” para receber “todas” as informações e na verdade ficam apenas fuçando na rede e ouvindo as inconsistências que lhes trazem os porta-vozes das autoridades.
Por isso, não me surpreende que Monsieur Pierre Sparaco, expert da Academia do Ar e do Espaço e jornalista especializado em aeronáutica tenha descido a lenha, no Fígaro, nas autoridades brasileiras que, segundo ele, “estão gerindo mal a situação, o ministro da Defesa, em especial, faz declarações demais sobre o assunto, há uma tendência a querer explicar demais a situação, a comentá-la demais. “ Querem mais? Ele fala mais: “há um risco sério de confusão, sobretudo para as famílias das vítimas. Não é deste jeito que as autoridades deveriam agir”. Nos dedos, de régua, sem Celso Amorim que dê jeito – como se desse!
Então, a gente tem direito de perguntar: ministro Jobim e assessoria, leram o que disse messiê Sparacô? Gerir crise, nessa hora, não é só enfiar familiares em hotel fino injetando-lhes, de hora em hora, informação sem sentido, tampouco dar entrevistas para provar que o governo é transparente e nada esconde sem ter nada a dizer de real, que importe. Democracia de informação é divulgar coisa consistente, verdadeira, com credibilidade, sem dar esta sensação horrorosa de embromação que só aumenta a dor de quem não sabe e talvez jamais saiba o que aconteceu de fato com seu familiar ou seu amigo entre o Rio e Paris, naquele trecho que quem fez este trajeto sabe que dá pavor só de pensar que se está preso numa caixa de metal, solto acima das nuvens ou no meio delas e sobre um vazio que aquele mapinha nas costas do banco transforma num minifilme de terror.
Infelizmente, continuamos repetindo o samba do crioulo doido do jornalismo pós-moderno. Vivemos, mais uma vez, o desencontro das informações, a coreografia das vaidades e dos egos e o despreparo quando não preguiça e ou má vontade de grande parte dos jornalistas envolvidos numa cobertura deste porte que deveria conter, acima de tudo, senso de humanidade e desejo deser útil e correto.
Texto publicado em Coletiva.net
Ilustração do blog Encres et Plumes

Então, Zé Rodrix se foi, assim, de repente, sem um sinalzinho que colocasse a família, os amigos, os fãs de sobreaviso. Quem disse que a morte tem de avisar sua chegada? Quantas vezes ela até engana, faz que vem mas não aparece? Afinal, tem tanta gente vivendo seu tempo de bônus por aí, gente que se agradece aos céus por ter ficado, outras que se fica pensando sobre os mistérios do além e do aquém para merecerem estar vivas.
Andei passeando pelo youtube e fiquei triste por ver que tem muita coisa atual do Zé mas pouca memória da época em que ele marcou a vida de adolescentes num Brasil sem esperança, sem saber para onde ia. Como a gente vai esquecer aquele sujeito de voz rascante, cabelo crespo avoado, óculos, debochado e ao mesmo tempo romântico para parir algo como a eterna Casa do Campo? Envelheci ou foi ontem que vi este cara nos festivais de mpb? E aquele comprido e feio Guarabyra cantando Apareceu a Margarida. E Wilson Simonal, antes de ser desgraçado pela esquerda sempre afoita e dona da verdade cantando Sá Marina, Tributo a Martin Luther King e uma coisa linda chamada Silêncio, que nem a letra se acha na internet, ou ainda Correnteza, do Tibério Gaspar e Antônio Adolfo?
E aí me lembro de Marcos e Paulo Sérgio Valle, de Viola Enluarada, de gente lotando teatros para aplaudir e vaiar, brincando de levar a sério disputas que preenchiam a alma vazia de futuro, universitários que meteram a boca
Faz tempo que Elis, num lance de estupidez absoluta, misturou cocaína com birita e nos deixou na mão, tendo de nos contentar em ouvir velhos vinis, cds e espiar o youtube para suspirar com Atrás da Porta.
Viro e reviro as listas dos novos talentos, em especial dos compositores, em busca de espírito, de sopro vital, e só não fico mais triste porque existe um Marcelo Quintanilha lembrando que existe vida inteligente além dos solavancos de Ivete Sangalo e Cláudia Leite. Na verdade, acho que procuro o que se foi, o que não se perdeu mas que vai se esvaindo com a gente, que vai indo também, nesta semgracice da música pasteurizada e modinha que invade tudo e todos.
Nem vou falar mais, porque estou amarga da silva com esta partida de Zé Rodrix. Outras virão, a gente sabe. Há que ficar firme e ir cantando o que gente como ele deixou, passando adiante o que a pressa e o sem sabor deixa de lado.
(Publicado em Coletiva.net)





