Author: maristela
•Quarta-feira, Novembro 11, 2009
Desde 2006 não passava pela Feira do Livro. Digamos que as últimas experiências por lá foram exaustivas - durante 3 anos, como coordenadora de comunicação da Secretaria de Estado da Cultura eu e meia dúzia de gente de boa vontade demos plantão, 15 dia sou mais, sem folga, no estande oficial. O que era pra ser bom, virava pesadelo, pura obrigação. Uma que outra coisa boa, como ver amigos queridos. Mas muita pentelhação, acima de tudo, principalmente por estar representando o Governo, que cagava pra gente o tempo todo - Rigotto jamais se deu o trabalho de passar no estande onde, a bem da verdade, Roque Jacoby, em que pese exigir uma sala para "despachar de lá", poucas vezes apareceu.
Antes, eu vivi a Feira de modo mais gostoso, como repórter do Caderno Especial que o Jornal do Comércio publicava e Maria Wagner editava, nos anos de 97, 98 e acho 99. Muito gostoso, maior parte do tempo. Tirando uma péssima passagem com o então prefeito Olívio Dutra, já mamado diante de um copo de purinha, num dos bares da feira, grosseiro por natureza, dissimulado quando a assessora de imprensa, amiga querida, cuidou de amansar o bicho. Que nojo!
Este ano, passei por lá correndo, domingo, com Manu (as fotos dos guindastes são dela), para pegar um livro que ela estava esperando.
Andei pela feira com vontade de ser transparente, evitando encontrar até amigos. Hora ruim para dar explicações, especialmente sobre a cara murcha que exibo.
Mas a Feira é linda e não é meu mau humor que vai estragar esta festa.
A nota triste foi ver o xerife, aquele cara forte e ativo, que toca o sino a cada abertura de feira, há décadas, vitimado acho que por algum AVC, andando pelas aléias com aquele ar de quase ausente que ostentam os que não mais são totalmente donos de si. A ele, meu carinho. Sem fotos,porque prefiro que lembrem de sua imagem real, saudável.
Cliquem na foto desta senhora linda que apanhei no bar da feira e olhem o restante.


feira do livro 2009
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Author: maristela
•Sexta-feira, Novembro 06, 2009


Estava, ainda agora, organizando em uma pasta destas ordinárias, de plástico, documentos de trabalho de meu pai e de minha mãe. Dele, além da Carteira Profissional emitida em 1949, para A.J. Renner, os muitos carnês através dos quais descontou, durante décadas, para a previdência social. Dela, afora a carteira de trabalho, igualmente de capa dura, marron, estão duas Cadernetas de Contribuição do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários, finado IAPI. A mais antiga, “inaugurada” em abril de 1994, na Companhia de Calçados Ltda.

E ali estão, nas duas carteiras, em fotos, os dois, jovens então, com suas melhores roupas, olhando sérios para a máquina fotográfica. Waldemar e Luci. Fiquei manuseando um bom tempo estes registros que resumem horas e horas de jornadas extenuantes num papel acetinado já pardo e manchado, tentando fazer as contas para saber quanto valeriam, hoje, o CR$ 3.72 por hora que minha mãe ganhava em 1951, um ano antes de eu vir ao mundo e ela abandonar, em definitivo, sua vida de trabalhadora empregada formalmente. Ainda tentou, para o Renner que fazia apenas sapato naquela época, continuar em casa, ganhando uns caraminguás para ajudar nas despesas. Mas a forma, apoiada no estômago para trançar as tiras que compunham os sapatos em trecê, resultou em dor e uma lesão. Parou. Ficou como mãe e esposa, administradora do lar.

Meu pai, igualmente, deixaria a fábrica (onde hoje é o DC Navegantes) para, na raça, botar negócio próprio, a sapataria que ficou por quase 40 anos na Praça da Bandeira, diante do campinho de futebol na vila do IAPI. Descontou, certo de que teria uma aposentadoria nababesca, sobre vários salários, disciplinadamente. Acreditou no governo, coitado. Acreditou que as leis trabalhistas e sociais existem para proteger o trabalhador na velhice. Deu com os burros n´água, assim como minha mãe que nunca aceitou que ele seguisse pagando para ela porque achava que era dinheiro posto fora, que ambos viveriam muito bem com o que viria mais tarde. Hoje, mal ganham 1 mil reais e sei, dirão muitos, são privilegiados diante da maioria.

Só que meu pai não pôde se dar ao luxo de viver só da aposentadoria, concedida em 1982. Nem quis. Seguiu batendo prego, cheirando cola e comendo pó de lixadeira até 2006, quando voltou a ter derrames e a baixar hospital. Faz pouco, minha mãe vendeu toda a sapataria – do pé-de-moleque aos retalhos de couro. Toda uma vida de sacrifícios torrada por uma ninharia, para um colega que aprendeu muito do ofício de consertar calçados com seo Waldemar.

Guardei, deste inventário, cinco formas de ferro, de diferentes tamanhos, que encaixavam numa haste afixada na banqueta em que ele trabalhava e que serviam para enfiar os sapatos e arrumá-los. Durante minha meninice, participei, diariamente, da lida na sapataria de madeira, pintada de verde, ajudando a fazer grude para colar os papeluchos com nome do “freguês” e valor do serviço em cada sapato que, quando muito velho e feio, meu pai chamava “cascudo”.

Penso em tudo isso enquanto me dói o corpo inteiro, pela tensão nele despejada faz pouco, ao saber que, em definitivo estou sendo punida pelo Estado, este ente falsamente paterno, por um crime que não cometi. Perdi minha aposentadoria, não tenho mais o que fazer a não ser solicitar outra. A lei, no Brasil, é assim: o funcionário público e um despachante foram safados. Mas quem se ferra é a idiota que pagou a um profissional bem indicado para encaminhar a papelada e fugir da burocracia infernal que Marcelo Soares, em seu blog da MTV, ao me apoiar, tão bem exibe.

Como é previsto no caso, vou devolver o que recebi desde 2005 para os chamados cofres públicos. Para que uma massa de políticos corruptos possa ter direito a levar amigos e parentes em viagens ao Exterior, a morar, comer e beber regiamente. Para que Lula, que cinicamente se abastece num passado de pobreza, continue fazendo de conta que é um homem bondoso e justo enquanto agarra o osso do poder com unhas e dentes. Para que se cumpra, enfim, a lei. Que é absolutamente desigual e mais cega que a justiça.

foto

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Author: maristela
•Quinta-feira, Novembro 05, 2009


Este blog tem servido, acima de tudo, para meu parco e desinteressante memorialismo. Assim sendo, aqui cabem todas as maristelas, das piores às melhores. E hoje é a maristela trouxa e revoltada que se manifesta neste cavalo de religião virtual. Para falar de um assunto que já ocupou outros posts e que agora toma uma forma definitiva e absolutamente contra mim.
Longe de mim querer ser a conselheira acácia de plantão e sugerir atitudes a quem quer que seja. Pena eu não ter sugerido bom senso e desconfiança para mim mesma e ter evitado o que veio a ocorrer agora. No entanto, relato e jogo minha raiva, minha inconformidade, meu nojo total de pessoas abjetas e até de leis bizarras que punem inocentes despreparados e desesperados e ainda por cima crentes como eu fui. E, mais grave, continuo sendo.
Pois bem. O Ministério da Previdência terminou com minha aposentadoria. Ela é fruto de fraude, concluiram os doutos auditores que, com certeza, fazem vistas grossas ou incompetentes para o que não conseguem pegar. Digamos que caí na malha fina ou, quem sabe, fui denunciada por algum ex-colega mau caráter que sabia mais do que eu, ou por alguém que procurava incriminações, como nos tempos do gulag da União Soviética, já que tenho feito deste e de outros espaços um griteiro constante contra PT, Lula e sua gang. E NÃO VOU ME CALAR NUNCA.
Lamento que eu tenha dado meu fundo de garantia para colocar em dia "buracos" de pagamento de INSS ocasionados por necessários afastamentos do mundo do trabalho e que o falecido sr. Gilberto Dresch, despachante que a jornalista Cláudia Rejane do Carmo me indicou, tenha sido um canalha e provavelmente rachado este dinheiro com outro cafajeste que trabalhava no INSS e este tenha inventado períodos de trabalho que não tive. Foram 9 mil reais que se escoaram pelo ralo e ainda me criaram esta situação absurda.
Sim. Vou devolver, tostão por tostão, tudo o que recebi do INSS com esta aposentadoria cuja carta de concessão me chegou em 2005, dentro de uma legalidade que eu acreditava real. Não era. Vou fazer outro processo de aposentadoria. Agora, finalmente, estou em mãos do dr. Paulo André Solano, que sabe o que faz e é tão elegante a ponto de nem ter querido falar em proventos neste momento de extrema dor moral e física para mim.
Não dormi ontem, um segundo sequer. Fui para a reunião com o dr. Paulo André com o coração nas mãos. O prazo que eu tinha para recorrer foi perdido porque quem cuidava do meu caso simplesmente demorou 15 dias para passar todo o processo de defesa para ele, fazendo com que, desta forma, eu automaticamente não tenha a menor chance de continuar recebendo proventos pelo menos até conseguir encaminhar novo pedido de benefício e o ressarcimento deste estado bandido que só sabe tirar, nunca ser justo.
Estou enxovalhada, triste, indignada, e inútil. Questiono, agora, relações de amizade que julgava sólidas e que nem mesmo um aceno de solidariedade me deram. A estes "amigos", nem meu desprezo dou, apenas minha desilusão e meu abandono. Tudo me fere. Até o pedido de calma de minha mãe. Meu ódio é maior que tudo e não me venham com falsidade religiosa do tipo "ah, mas Deus sabe o que faz". Quem quiser me dar este tipo de mensagem, se abstenha. Não preciso de tapinha no ombro.
Agradeço aqui, de peito aberto, a quem tem poder nas mãos e me ajudou, ao menos encaminhando meu problema ao gabinete do Ministério da Previdência: o senador Sérgio Zambiasi. Ninguém mais se dignou a me mandar um "vai a merda". Nem Ibsen Pinheiro, para quem fiz campanha, nem Pedro Simon, pelas mãos de quem, num momento de crendice, me filiei ao PMDB. Não sou ninguém, mas rezem para jamais precisar de mim. Do PMDB, estou me desfiliando esta semana, até porque jamais me enviou sequer uma correspondência reconhecendo meu gesto de boa vontade - sim, porque um partido deve se orgulhar de ter Maristela Bairros e não o contrário.
Até entendo. Ibsen deve ter muitas preocupações familiares e não vai tirar de seu tempo para dar uma resposta, nem via assessoria, para uma ex-colega. Simon, bem como seus amigos que eu julgava serem meus também, nem sabe quem eu sou. NOTEM BEM. A ninguém pedi que me livrasse de qualquer problema. Apenas que me ajudasse a entender o que estava havendo. NEM ISSO FIZERAM.
Zambiasi o fez e me encaminhou a Paulo Zumpano. Me considerou como ser humano.
Agora, me resta curtir este fim de ano de pesadelo. Não me falta apoio de filhos, ex-marido, pais e alguns familiares e, claro, poucos e queridos amigos. De fome, não morrerei. Tampouco vou deixar que matem em mim minha fúria contra a injustiça e a canalhice.
Vivemos um momento absurdo neste país, em que um presidente desqualificado faz alianças com qualquer um para segurar o poder, em que uma bandida ex-guerrilheira se arvora em candidata, em que um ministro da Justiça dá guarida a um assassino. E tudo num conto de fadas que é regado a falsidades, a corrupção deslavada sem conserto.
CONTINUAREI A BERRAR CONTRA TUDO ISSO. Podem me tirar coisas materiais, mas não vão me calar. ESTÃO ME VERGANDO. MAS NÃO VÃO ME QUEBRAR.
NEM COM ESTA TORTURA MORAL DE QUE ESTOU SENDO VÍTIMA.
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Author: maristela
•Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Estava, há pouco, lavando louça enquanto aguardava o atendente da Oi me informar sobre os planos da operadora, havia recém ligado a lavadora de roupa e estendido um edredon na janela e, assim, de repente, me veio a imagem de minha avó Vicina. Límpida, como se a estivesse vendo.
O cabelo cortado curtinho, saindo do banho, com seus vestidinhos humildes, sempre de tecido de algodão com um floreado miudinho, cores sóbrias, um chinelo de lã - inverno ou verão - aquele cheiro de sabonete e talco no ar. Talco! Como ela gostava de talco.
Vejo-a assim, vindo do banheiro construído em anexo numa das várias casas de madeira em que a vi morando. Rindo, aquele riso baixinho e continuado, o sorriso que trazia ao rosto, em geral fechado, de bugra, a maior simpatia que já vi no mundo.
Universina. Cada vez me vejo mais parecida com ela- redondinha, baixota, quase sem cintura, uma marca que legou a todas as filhas nesta família de 11 criaturas criadas a sacrifício, carinho e rigor.
Dela ainda guardo, sucessivos replantios após, uma gibóia gigante que tinha no jardim da casinha pintada de verde e que, nos meus vasos mixurucas, nunca chegou a ser grande como era lá. E, tesouro maior, um bule de porcelana inglesa, marron com guirlandas florais, quase perfeito, não fora o bico que, lascado, deve ter caído e foi colado sem qualquer requinte. Infelizmente, os tapetes de retalhos costurados em cima de um saco de aniagem se foram. Não tive o bom senso de guardar um que fosse.
Vó Vicina gostava de cantarolar quadrinhas e, quando não estava muito melódica, recitava para a gente rir e, claro, aplaudir. Sentada na cadeira velha de balanço, ela intercalava conversas animadas com imediatos momentos de sono profundo que nos faziam silenciar imediatamente, rir de lado e fazer de conta que esta narcolepsia era nada quando ela retornava do seu mundo de sonho e retomava a prosa como se nunca tivesse interrompido.
Fui negligente com a mãe de meu pai. Por razões da vida, tive mais convívio e afinidade com o lado materno da família e confesso que muitas vezes ia emburrada para visitar vó Vicina e todos os primos e tios que moravam em volta desta abelha-rainha. Mas eu gostava dela, sim. Sem muito abraço, sem muita declaração de amor. Mas gostava.
Minha mãe diz que devo ter herdado dela a vocação para o jornalismo. Ironia, claro: tanto por ver o jornalismo como fundamentalmente bisbilhotice e por criticar minha avó por não poder ouvir um barulho, conversa ou movimento diferente fora de casa que já se punha à janela, olhos atentos, perguntando ao primeiro que passasse o que tinha ocorrido.
Universina Rodrigues Bairros. Quantos anos já faz que desistiu de viver, depois de penar tanto por ver irem embora o seu véio, João, e, pior, a filha caçula, tia Sonilda, morta de complicações de parto, e tia Noemi, que a gente chamava de Mosa, que tinha doce voz e lindos olhos de gato.
Saudade da minha vozinha Vicina! Espero que ela não tenha me esquecido.

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Author: maristela
•Sexta-feira, Outubro 23, 2009


Ali pelas quatro da manhã desta sexta-feira terminei de ler o livro que minha filha me deu de aniversário faz uma semana. Um livro que vi várias vezes nas livrarias e fiquei com aquele sentimento dual ao ver o subtítulo “a busca de uma mulher por todas as coisas da vida ...”, que me deu aquele enjôo prenunciador de auto-ajuda, e o selo “mais de 4 milhões de exemplares vendidos”, que me deu aquela inveja inevitável de quem sabe que não é necessariamente qualidade que vende. Mesmo assim, quando ganhei o registro de peregrinação sofisticada de Elizabeth Gilbert fiquei feliz. Principalmente porque ando relendo, como já contei, uma pilha de títulos da minha biblioteca por não ter nada novo para vasculhar.

Então, terminei Comer, Rezar, Comer, que foi lançado para os brothers and sisters em 2006, já está sendo filmado com Julia Roberts como a viajante cheia de grana e ó, céus, esvaziada de perspectivas sentimentais (isso me incomoda, arre, coisa muito fake!) e já tem um day after com a saga que conta o que houve depois do happy end da história da branquela Gilbert. O livro é legal, tem aquele tom de confidência intercalado por muita chupada de livro de turismo (que a gente não é tatu e saca, mesmo que bem refeito e repintado em cada linha de informação sobre história e monumentos dos lugares visitados) e impulsiona o leitor a ir adiante sem querer parar. Afinal, quem não gosta de dar uma fresteada nos problemas alheios, ainda mais se quem passa por eles é do tipo muiiiiito bem-sucedida e poderosa?

“Cheio de óbvios ululantes, o livro ainda tem, entre os absurdos imperdoáveis, um “darei-lhe” que ainda me coça o cérebro, na página 74, sendo que a frase é tão ruim quanto o erro que quatro (sim, quatro) revisores deixaram escapar:” darei-lhe um vale de sol e um vale de chuva”. Nem Paulo Coelho faria pior, vamos combinar. As duas primeiras partes, na Itália, em que la Gilbert só quis saber de comer, e na Índia, em que o melhor de tudo é um tal Richard do Texas (tem até foto no site dela, mas é duro de acreditar que o personagem não é um pastiche de vários e não um cara real) que proporciona frases tão boas quanto as das séries americanas como Friends e Two and a Half Man. Quando chega a parte final, porém, que se passa em Bali, a maionese desanda pra valer e dá para ir pulando de cinco em cinco páginas que não faz a menor diferença. Incluindo a descoberta de José Nunes, um brasileiro, que ela chama de Felipe no livro (que besteira, todo mundo sabe agora quem é o cara) e que diz que é do sul do Brasil!? Hmmmmm! Vendedor de pedras preciosas, será o moço da região ali de Lajeado?

Pois é neste final que la Gilbert pisa na bola. Ao se defender da possibilidade de voltar a casar-se, ela desafina ao pisotear as pessoas que optam por não ter uma atividade frenética. Quer dizer: aqueles que, como ela, batem perna por aí para ganhar fama, grana e poder. Madama é cruel: “... quando vejo uma cena dessas (NA: ela se refere a estrangeiros que buscam lugares como Bali e ficam, felizes em não fazer nada) sinto-me um pouco como Dorothy nos campos de papoula de Oz. Cuidado! Não adormeça nesta campina narcótica ou você pode passar o resto da vida cochilando aqui!” Ou seja: arrogantemente, ela pode fuçar a vida de muita gente para vender mais livros, trocando perna por ruas italianas, templos indianos e arrozais balineses; mas quem quer apenas viver sua vida, merece desprezo.

Tenho uma amiga querida que diz que não pode se aposentar porque se conhece, sabe que vai ficar em casa comendo doces, vendo filmes no canal a cabo e em DVD, que vai cultivar a preguiça. Como se isso fosse condenável. Dona Gilbert: eu acho maravilhoso levantar pela manhã sem ter preocupação em ir calçando um sapato no quarto e outro ao entrar no carro, ter de enfrentar trânsito do inferno e estacionamento pago em ouro ou ônibus fedido, depois chefes que começam elogiando e dando carta branca para se fazer o que for preciso e, em dois meses, fazem cruz com os dedos quando você passa em direção ao elevador. Sem contar aqueles colegas que não tomam banho e depois de usufruir de várias e várias caronas empestando o seu carro, se voltam contra você se mancomunando com colegas cujo maior talento é sabotar o trabalho alheio. Por estas e por outras, continuo brigando com o INSS, dona Gilbert, que quer me ferrar mas com certeza, vai sair bem ferrado. Aí, então, eu é que vou sair por aí, gozando meu dinheiro justo, mas sem a menor obrigação de virar best-seller.

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Author: maristela
•Terça-feira, Outubro 20, 2009

Então, está lá.
No blog do Luis Bento, direto de Lisboa, meu primeiro texto erótico.
Vejam bem! Quase sessentona, nunca havia enveredado por este caminho.
Se foi bom, meu bem? Pra mim, foi.

bento vai pra dentro - conto erótico - continuação by maristela bairros

Meu texto e, abaixo, em vermelho, o texto de Luis Bento que provocou tudo isso.

Dissera “fico” com tamanha determinação que o coração ficou aos pulos. E agora¿ Como faria para levar esta loucura toda em frente¿ Uma transa é, afinal, uma transa. Puro prazer. Nada a ver com problemas, conseqüências, culpas. Ainda sentia o gosto de toda ela em sua boca, as mordiscadas no lóbulo, o dedo atrevido que o deixara até meio incomodado mas que, depois, o fizera repensar conceitos.

O corpo inteiro sofria uma espécie de espasmo interior, ao ritmo da veia jugular. Medo¿ Com certeza, sim. Junto com a tesão que não passava.

Ela ouvira “fico” entre o satisfeita e o incomodada. Satisfeita por confirmar o poder de comando que tanto amava. Incomodada porque não tinha interesse em ir adiante com aquela coisa que não era nem mesmo uma relação. Só uma transa. Lembrou, então, da banheira cheia de champanhe que havia exigido de Leon, capricho caro que ele havia bancado. A sensação de ser possuída e de possuir envolvida pelo cheiro do álcool, pelo sabor da bebida misturada com o sabor de fluidos. Esse cara não parecia ser do tipo. Ao contrário.

Quando sentiu que ela o pegava pelas costas, puxando-o pela cintura tramando a perna em volta de seu quadril, esqueceu do medo. Deixou que ela o guiasse, rindo baixinho, estendendo as mãos para trás, buscando- lhe a cabeça, as orelhas, os cabelos, por sobre o ombro, o hálito quente e com cheiro acre, mas estimulante. Fechou os olhos, por um instante se imaginou a caça e não o caçador. Pensamento que por tanto tempo expulsara mas, com ela, admitia. O movimento ritmado dela, úmida, como se estivesse implorando, num jogo de masoquismo, as unhas cravadas em seu peito, parecendo mais um animal que brigava para não cair dali, a vontade crescendo, duro, duro, duro como um adolescente de 18 anos.

Não queria estar com ele, não queria pensar que queria estar com ele, mas precisava dele mais uma vez, ou duas, ou três. Ele a obedecia, todo o corpo dele a obedecia, ao menor toque dos mamilos em suas costas, ele reagia todo alerta, ela sentia aquele tremor quase imperceptível, ela sabia que ele ficaria pronto sempre que ela quisesse. Montada nele, como um bicho, sem qualquer elegância, sugando seu pescoço, seu ombro, parecendo em desespero, queria espantar qualquer outra vontade que não fosse a de gozar fundo e sem intervalos. Nem Leon nem os outros, nem aquele velho nojento que a alimentava e para quem ela dava de olhos sempre fechados, nada era melhor, naquela hora, que aquele cara que nem conhecia. Rápida, sem falar nada, mordeu-lhe forte a nádega. Ele gemeu. E se virou.

O que aconteceria agora, quando voltasse¿ Poderia ficar ali semana inteira. Um dia, iria voltar. E enfrentar o olhar morno de Agnes. Abafou o pensamento segurando os dois pés daquela louca, erguendo-os no ar, acima de sua cabeça, olhando-a com o interesse de um predador. Ela queria. De qualquer maneira, ela queria. Ela empinava a barriga para cima, tentando se impor à sua boca, ele recuava, a abaixava, submetia sua vontade, seu poder, não falava, apenas respirava, a cabeça latejando, o sexo doendo, ele castigando, até desabar dentro dela, sem piedade, sem carinho, sem sentimento. Até ouvir ela soltar como que um rangido longo. Não era um som de gozo. Era diferente. Ele gostou ainda mais.

Assim, presa pelos pés, sugando as mãos, desgrenhada, se debatendo, o ventre subindo e descendo inutilmente diante dele, provocação, submissão, revolta, ela pensava em quanto estava no comando, em quanto era boa nisso. E só pensar já lhe bastava para o prazer vir como um jorro quente. Sem ligar para a dor em cada pedaço da pele, a madeira, as felpas, corpo esfolado. Marcas. Queria, mas não aceitava. Tentou arrastar a cabeça dele, para sentir de novo a língua áspera. Ele recuou. Ela gostou. Uma surra às avessas, pensou. Mas ele vem, eu consigo. Eu mando. Eu quero. De repente, o solavanco, o rosto dele tão perto agora, num esgar, deformado, assustador, mau. E tão bom , tão bom, tão bom.

Tentavam em vão parar, encerrar, se permitir. Mas agora era tarde. Não eram eles que mandavam. Eram seus corpos. Como desligados deles mesmos. Se governavam, comandavam, não aceitavam ordens. Simplesmente ondulavam, e tremiam, e se agitavam com fúria. Davam um tempo, amansavam-se, docilmente, até recomeçar, olhos buscando um o outro, bocas sem tempo para um beijo que fosse, garras em vez de mãos, sons assustadores, ardência doída, ausência de vida, quase morte. Rostos vazios, se abraçaram automaticamente. Se aninharam um no outro. Ele teve vontade de beijar os olhos dela. Ela teve vontade de acarinhar os cabelos dele. Como se fosse um amor de outros tempos. Mas só conseguiram ficar ali, exauridos, sem se falar, sem se olhar mais.

Apenas esperando.

Metera-se a caminho do Porto rolando em velocidade excessiva no atapetado do asfalto. Mais do que a compra da casa foram os traços finos e elegantes, que lhe divisara nos bytes da net percorrida a fio e insistência, que o levavam em busca daquele olhar forte e perturbador que, aos quarenta o mantinha em suspenso, preso daqueles quarenta debruados a quilates prenhes duma sensualidade acanhada..
Chegara cinco minutos antes da hora marcada aos escritórios da imobiliária. Dera com ela sentada na secretária de saia e casaco pretos, camisa adivinhando formas na sua transparência, uns sapatos de salto agulha, lábios rasgados e finos, nariz direito, cabelos longos, soltos num volume selvagem e aquele olhar felino onde, de imediato desejara perder-se no verde das suas sete vidas. Aproximou-se com um cumprimento de mão leve sentindo-lhe o aveludado e o tremor expontâneo. Olhos nos olhos, balbuciaram cumprimentos a rodos e sorrisos a destempero. Finalmente, ela retirara a mão, compondo o casaco deixando a descoberto parte da alvura redonda e firme de um seio desamparado e atractivo. Sentira-lhe o suspiro inflando de impaciencia e excitação. A química não se confinava aos tubos de ensaio das aulas de liceu. A reacção em cadeia dera-se ali mesmo, em catadupas de odor, olhares e respiração em códigos trocados no esboçar de sílabas alinhavadas a silêncio.

De mãos dadas, voaram numa vertigem estancada à porta da moradia com a placa “VENDE-SE”. Mal entraram no hall, ele não se conteve e, pegando-lhe no pulso, fê-la rodopiar até ficar de frente para si, acto contínuo, empurrou-a contra a parede nua, prendendo-lhe os pulsos. Por entre pastas, papeis e documentos espalhados nas lajes, esmagou os seus lábios finos e rasgados com um beijo longo e quente, ao mesmo tempo que comprimia o seu corpo , meneando-se de forma a sentir-lhe o sexo. Generoso e faminto, o corpo dela oferceu-se ao movimento libidinoso deixando-se prender, desta feita, pela face, nas suas mãos nodosas e másculas. Ávidos, os lábios não encontravam o fim num beijo cada vez mais longo, quente e húmido que abriam, agora, passagem a uma língua exploradora que encontrara companhia e se deixara enlaçar num turbilhão de fluidos e desejo. Ela mordiscava-lhe agora os lábios repuxando-os de olhos fitos nos dele. Matreira, a mão masculina desceu com um vagar anunciado , de forma possessiva e penetrante, em direcção ao sexo dela comprimindo-o e acariciando-o. Ela retirou-lhe a mão e obrigou-o a enlaçá-la pela cintura. Teimoso, por entre beijos afoitos e distraídos acariciou-lhe o ventre passeando com mão até aos seios roçando, ao de leve, um dos mamilos. A um tempo subiram as escadas em direcção ao quarto num compasso de ânsia. Abraçou-a pelas costas tirando-lhe o casaco à força de beijos e caricias no pescoço. A mão direita dele, teimosamente acariciava, de novo, o sexo dela e de novo rechassada com suavidade. Foi a vez dela. Virou-se cobrindo o seu peito de lábios excessivos por centímetro quadrado de pele. Ele, rendido e perdido nas vagas daquela maré de olhar verde e felino, empurrou-a para cima da cama e deixando cair todo o peso do seu corpo num desfalecimento embevecido, puxou-lhe as abas da camisa fazendo saltar os botões, passando a mão direita, num gesto de destreza, pelo fecho do soutien. Os seios, agora desnudados e com a pele arrepiada surgiam, alvos e puros, oferecendo-se generosamente aos seus lábios. Não se fizera rogado.Iniciara uma doce tortura com a sua língua deixando um rasto húmido de desejo ante o seu tórax que se arqueava e arrepiava, a língua dançava sobre os mamilos túrgidos, duros e ansiosos, do beijo e da sucção. Começou por mordiscá-los rodando os maxilares o que provocou um frémito pelo seu corpo. Sugou-os, sentia-lhe o arfar, a respiração pesada e as suas unhas cravadas no cabelo. Desceu então, lentamente, em direcção ao ventre, novamente deixando um sulco brilhante e quente. Puxou-lhe a saia,alçou-lhe as pernas apoiando-as nos seus ombros. Puxou-lhe, com uma lentifdão lasciva e calculda, os slips enquanto lhe beijava a face visível das pernas junto aos seus lábios. Iniciou então um percurso exploratório em sentido ascendente. Sem lhe retirar os sapatos de salto alto, beijou-lhe os dedos dos pés demorando-se um pouco, depois o peito do pé onde a sua língua fez novas acrobacias. Ajoelhou-se diante dela e egeu-lhe as pernas ao nivel dos joelhos. A língua subiu arrastadamente pela zona interior das pernas em direcção às sua coxas. Ela fincava-lha as unhas no cabelo puxando-lhe a cabeça em direcção ao sexo. Em menos de nada os seus dedos afastavam as pregas do sexo que se oferecia generoso e húmido ao seu olhar faminto e ao seu desejo. Penetrou- com a língua, demoradamente, sentiu-lhe o estertor as coxas que o apertaram repentinamente e o gemido rouco que vinha lá de longe do mais fundo do seu prazer. Ela puxou-o pelos ombros exigiu-lhe o beijo sentindo o odor e o travo agridoce do seu sexo. Demoraram-se num beijo apaixonado, e então ela girou o corpo e ficou sobre ele. Prendeu-lhe os pulsos e deixou-se inclinar de modo a facilitar a entrada do seu sexo. Iniciando um vaivém ritmado, sincopado cada vez mais ávido e célere. Atingiram o clímax em uníssono, conjugado de forma activa a duas vozes. Ela deixou-se cair sobre o seu corpo, aninhando-se sobre o seu peito de respiração ofegante enquanto ele brincava com os seus cabelos longos…

Ela saía do banho e ele, docemente estático, apareceu-lhe à frente, de toalha estendida, abraçando-a com carinho. Ficaram assim uns minutos alheados do mundo que lá fora girava nos compêndios de geografia. Afastou-se dele, antecipando despedidas ou dificuldades numa autoestrada que se lhes atravessava no caminho. Sabendo que morava em Lisboa, quis saber as linhas com que se iria coser aquele fato novo, mantendo a esperança num amor sem interrupções. Num tom grave e inquisidor perguntou-lhe:
- E tu…Voltas?
Deixando-se cair exausto e feliz sobre a cama e de olhos brilhantes fitos nos seus, respondeu-lhe com paixão:
- Não… Fico!!

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Author: maristela
•Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Há alguns dias, nestes papos de twitter e facebook, fiz um convite ao Luis Bento, do Bento Vai Pra Dentro. Ele havia escrito, na maior farra e provocação, um texto erótico, incentivado por alguns amigos, em especial da web. Tudo por causa da insensibilidade das editoras: ou vende porque é sacanagem ou não vende. Enfim.
Pois eu propus ao Luis Bento que desse continuidade ao texto. Ele disse que tinha de pensar. Eu então, na farra, propus uma brincadeira: eu escreveria o seguimento e ele o seguimento da minha continuação. Ele topou. E anunciou no blog.
Algumas internautas, absolutamente desconhecidas para mim, incluindo uma pretendente a jornalista, se incomodaram. Uma até insinou que ela tinha começado os "desafios", como se desafios tivessem dono e autor. Coitada.
Mas já limei as pentelhas e, depois de ficar bem aborrecida e comunicar a meu amigo luso que havia desistido, instada por ele, resolvi sim apresentar minha primeira criação sobre o tema erotismo, com base no que ele criou.
Então, vai aqui o link para o texto de Luis Bento e o convite, a quem interessar possa, para ver, lá na casa dele, na querida Lisboa, o que imaginei, timidamente, para continuar o tórrido encontro do casal d além mar.

Letra M... Como M... de Mais
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Author: maristela
•Sexta-feira, Outubro 16, 2009


Acabo de dizer a esta senhora de óculos na ponta do nariz cujo rosto me olha da tela do notebook que ou ela aprende a lidar com a frustração ou é melhor pedir as contas de uma vez. Impressionante que uma pessoa como ela, que se acha tão ligada, que se orgulha de pouco se surpreender com o que a rodeia, ainda fique chocada com as adversidades que se impõem quando tudo parecia caminhar bem.
Esta senhora, afinal, cresceu em meio a uma realidade em que havia mais espinhos que rosa e, a bem da verdade, nunca se deixou levar por aquela conversinha de que “quando casar sara”. Aliás, nem casar queria, se achava destinada a alguma missão espiritual profunda que não incluía, claro, ser igual às demais mulheres, envolvidas em seus mundinhos de paixões terrenas e serviços de cama, mesa e banho.
Acontece que a vida leva, independente do pagodinho barato que pede que deixem que ela nos leve. E as noções de valoração, um dia, são colocadas em cheque. O que perturba esta senhora, criada sob um rígido código de conduta em especial pela mãe, aquela descendente de portugueses que nunca permitiria um deslize na rotinha familiar, em especial da filha.
Hoje, porém, nossa personagem de cabelos grisalhos, quase sessentona, descobriu que, além de precisar bater cabeça para se integrar ao mundo da nova tecnologia igualmente precisa gastar o que lhe resta de energia aparando golpes que teoricamente jamais receberia. Como o fato de ser considerada suspeita por ter confiado cegamente em alguém a quem pagou para encaminhar um mais que necessário processo de aposentadoria. Ah, sim, muitos observarão: uma profissional de comunicação social ser pega num golpe deste tipo! Mal sabem eles que ela foi tão, mas tão desleixada com seus direitos trabalhistas que jamais pediu um aumento salarial na vida e nunca viu que a primeira empresa que assinou sua carteira de trabalho, a hoje RBS, jamais registrou sua saída. Nem ela reparou. Nem reclamou.
Pois é. Agora, uma toda poderosa burocrata do INSS, que cavou sua segurança e certamente uma aposentadoria polpuda depois de deixar um rastro de concursos Brasil afora, pois esta mesma pessoa julgou irregular o processo que foi devidamente aprovado e que vinha dando suporte financeiro através de um minguado benefício a esta agora arrasada senhora que continua a me olhar da tela do computador.
Não dá para discordar dela quando esbraveja contra tanta canalhice, em todos os poderes constituídos, enquanto seu meio de subsistênca, a que fez jus por tantos anos de trabalho sem direito a feriados, aniversários, etc, tantas vezes sob as patas de chefias asquerosas e proprietários de empresas que nem mereceriam ser chamados de humanos, tudo o que batalhou virou pó. E uma dúvida quanto à sua honestidade, seu caráter, seu merecimento.
Sim. Esta senhora vai partir para outra, vai baixar a cabeça e aceitar o julgamento de uma burocrata ensinada a, como qualquer burro, não tirar as viseiras para tentar ver mais além do que o caminho que percorre puxando a carroça, e vai começar de novo, já que papelada tem de sobra para provar o quanto trabalhou e descontou para a farra do boi dos safados dos três poderes.
Não sem manter o travo da raiva e da tristeza na boca. Não sem manter a indignação que a leva a espalhar a todos os ventos o que a maioria, em nome da elegância (leia-se hipocrisia) esconde.
A senhora, hoje, tem de reunir forças para levantar da cama e enfrentar o dia.
Busca esta força nos pais velhinhos e doentes que precisa amparar e nos filhos impecáveis que a amparam, bem como em poucos e extraordinários familiares e amigos que se importam. Ela tem, porém, muito o que aprender. De porrada em porrada, um dia chega lá. O que já é uma boa notícia.
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Author: maristela
•Quinta-feira, Outubro 15, 2009
Oito da noite, toca o telefone. Minha mãe. Segunda vez no dia - a primeira foi para me lembrar que é hora da compra mensal dos 7 medicamentos do meu pai, fora os 3 dela, que estão rendendo porque o dr. Rui Peixoto nos deu um bom lote de amostras. "Maristela. Hoje é aniversário da Salete!". Bendita e santa mãe, melhor que qualquer agenda do google.
Com uma vergonha inútil, mando mail. Mas, como os aniversários de meus afetos, nestas alturas da vida, me jogam num escorregador de emoções, laáááááááá vouuuuuuu euuuuu caindo na caixa de areia das lembranças, dos fatos e fotos.
Fatos. Salete foi a prima que eu tentei, em vão, imitar, na entrada da adolescência. Não que não amasse as outras duas mais velhas: Maria, porque tocava piano e Maria José porque me mostrara como não correr como louca para entrar em aula quando soava a campainha no ginásio. Mas Salete usava o cabelo chanel que eu queria usar: bicudo, quase pegando na boca, franja farta e aquele embaraçado no alto da cabeça que era tudo! Além disso, usava unhas compridas e sempre bem feitas e tinha pés que a família toda elogiava, dedos regulares (o meu pé era e é igual ao do meu pai, uma lancha) e pele impecável.
Além do mais, tinha um humor que me atemorizava mas, acima de tudo, me abria portas para um outro mundo - o das observações que faziam rir mesmo quando o assunto era sério ou, pior, trágico.
Fotos: nos meus 15 anos, como o apartamento era e é um ovo, dividimos as comemorações em vespertinas e noturnas. Convidei, para a tarde marcante, amigas de colégio e algumas primas mais chegadas, que conviviam mais comigo. Como Maria José e Salete e com certeza Maria, que fez meu bolo de aniversário, uma cesta de onde saía uma rosa natural, vermelha. Mas Maria, acho que foi à noite, porque nao está em nenhuma das fotos em que lá estou, de olheiras que acomodam dois ovos, cabelo preso em coque cheio de laquê, vestido reglan de côco ralado, um tecido lindo, que a mãe comprou e levou para Donana fazer.
Numa das fotos, Salete está com um sorriso prá lá de malandro, e com certeza alguém lhe segura as mãos, porque ela adorava botar os dedos em "v" acima da cabeça dos incautos. Pois ali, ela está com seu belo cabelo chanel, um vestido estampado chique, rindo daquele jeito que ela fazia, se sacudindo, quase sem fazer barulho, falando entre dentes, dizendo coisas para ninguém ficar sério.
A vida, claro, passou. Nos afastamos, e se consegui ainda manter uma certa proximidade com Maria e Zezé, que ficaram aqui, com Salete a distância ficou maior. Nunca mais os passeios rua abaixo, as primas de mãos dadas, eu toda besta porque era uma pirralha mas as "grandes" me aceitavam. E toleravam a severidade de minha mãe que achava que eu era muito criança para ouvir conversas de namoros, como ela justificava.
Salete se formou advogada, depois juíza e foi embora para Mato Grosso. Levou a mãe, tia Neuza, uma das muitas mulheres fortes da família de minha mãe. Lá casou, descasou, e aumentou a família com uma morenaça chamada Brida que, lá pelas tantas, como toda criança, nos assustou pra valer, com uma daquelas doenças com que o Senhor nos brinda sabe Ele lá por qual razão.
Um dia, Salete voltou para Porto Alegre, tornamos a nos rever em algumas comemorações de aniversários, raras vezes, aliás.
Faz pouco, retomamos uma ligação aparentemente enfraquecida e descobrimos como isso é bom.
Agora, ela está indo embora de novo.
Ela, tia Neuza, Brida. Assim é a vida.
Eu podia aqui ficar me lamentando, choramingando pelo tempo que a gente perde ao deixar sair por entre os dedos velhos e marcantes afetos. Mas sei que nada se perde, quando é verdadeiro. Acredito, mesmo, que as relações familiares são escolhas, sim, feitas antes de se voltar a esta samsara. Tudo para que se aprenda, enfim, a ser melhor.
Tô tentando, Sal.
Todos estamos.
Um beijo grande prá ti.
Seja feliz. Onde quer que vá. A gente não se perde, não.
Meu presente é este vídeo, com a música que, um dia, ouvi tocar no teu toca-discos, no apartamento com sacada em que tu moravas, numa tarde de domingo, de visitas familiares, tu curtindo uma paixão, adolescente que ria e chorava. E eu ali, olhando e aprendendo.



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Author: maristela
•Sexta-feira, Outubro 09, 2009

Obrigada a meu amigo Evandro.
Bom fim de semana!
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