Estou cercada de edifícios, como a maioria dos moradores das
chamadas grandes cidades. Minha sorte é que todos os grandes que me cercam,
estão longe de minha janela da sala, o que me dá uma certa vantagem na vida:
tenho meu pedação de céu e árvores velhas, inclusive frutíferas, que sobraram
da sanha imobiliária neste alto do morro.
Há pouco, coloquei meu computador na sala, para fugir do
calor absurdo do meu pequeno escritório, cuja minúscula janela pega todo o
calorão da parede de sustentação de encosta embora até divise algumas plantas e
um imenso figueirão que mais ameaça do que faz sombra no edifício. Então, curto
o vento abençoado que bate na minha cara enquanto teclo estas linhas em que
busco ver coisas boas e bonitas que sirvam como um possível contraponto a meus
sentimentos destes últimos dias.
Tenho sorte nesta encarnação, com amigos novos e antigos que
não me esquecem, apesar de minhas retiradas para meu mundo interior, colegas
generosos que me estendem a mão, filhos (e nora) extraordinários que seguram
meus efeitos montanha-russa e pai e mãe que me mostram, diariamente, que fui
premiada em nascer deles. Mas, ultimamente, a coisa anda braba no quesito saúde
deles. E eu, que chuto o balde com tanta facilidade em tantos outros quesitos
da vida, ando grudada nas paredes, me segurando no ar, tamanho o medo de que se
quebre esta frágil linha que separa a vida daquele mistério que a sucede, cedo
ou tarde.
Tenho amigas valentes, que enfrentam doenças com uma
galhardia, uma dignidade tão grandes, que me envergonho de minha covardia e de
meus mimimis cada vez que meu pai parece cruzar a tal linha, para retornar em
seguida. Me detesto por ficar assim, parecendo uma folha amarela e seca indo ao
sabor da brisa mais forreca, quase imobilizada, assustada como cachorro em
caíque, em vez de encarar as coisas como ela são. A finitude de tudo, inclusive
– até mesmo do plástico mais resistente que, um dia, vai se misturar à terra,
como nossos ancestrais milenares que hoje são petróleo.
Pior é ainda tentar fazer graça, numa hora dessas, em que me
falta foco e direção. A televisão ligada joga notícias novas e antigas, imagens
de João Goulart em preto e branco, de carnaval avacalhado por bagunceiros, de
indicados ao Oscar, da menina loirinha e risonha que adultos e jovens sem
limites assassinaram numa beira de praia. Do meu mirante, vejo gente fechando
as janelas, encerrando o dia. Aquele carro que ficou quatro dias azucrinando,
no estacionamento ao lado, com o alarme disparado, sumiu. A vida de final de
fevereiro vai andando, a reunião pela manhã me recolocou na rotina do trabalho,
minha mãe amou os bem-casados novinhos que levei no almoço, e meu pai pediu
mais suco de uva, elogiando: “mas tá bom, isso aqui”. Ele tem dito muito esta
frase, para comida, bebida, qualquer imagem que o agrade. Torço tanto para que
ele fique presente, dizendo que gosta da vida. Mas, em seguida, ele vai embora,
pra esse território miserável da mente que teima em se alargar. E eu fico aqui,
tentando escrever e achar meu jeito de continuar vivendo sem desespero.


