segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Um comentário enviado para Reinaldo Azevedo
Reinaldo. Sou uma "conviva" do câncer, faz anos, não na própria pele, mas como se fosse, já que meu pai, hoje com 83 anos, é portador de um tumor maligno de próstata. Ou seja: o velho, conhecido e temido câncer, que minha avó, de tanto medo, não nos permitia dizer o nome - chamava de "coisa ruim". Faz 15 dias, meu velho, que tem ainda cardiopatia, hipertensão, alzheimer e parkinson, além de sequelas de 7 ou 8 AVCs (perdemos a conta!), precisou fazer uma orquiectomia, nome bonito para castração, já que a quimio que ele vinha fazendo há anos, de três em três meses, já não conseguia vencer a alta do PSA. Como ele é um (dos 11) filho de um tropeiro do interior gaúcho, adora usar expressões hiperbólicas como "não tá morto quem peleia", embora, todos os dias, chore como criança quando não consegue se erguer da cama ou quando acontece de não segurar a vontade de ir ao banheiro.
Pois meu pai é paciente SUS. Sapateiro desde menino, descontou de seu parco dinheiro com a disciplina do pobre persistente e, claro, nunca teve sobra para ter um plano de saúde particular. Volta e meia, a pressão dispara, o coração idem, a dor aperta e lá vamos nós, para a emergência do SUS da Santa Casa, hospital hoje riquíssimo, que já foi hospital "da Misericórdia" e que hoje, depois das 19h, não tem mais nem faxineira para limpar vômito, urina ou fezes de quem, por alguma destas desgraças do organismo debilitado, se desaperta no corredor, na maca, diante de todos. Pelo SUS, é claro, porque nos setores de convênio/particular, tudo é limpíssimo, bem decorado, confortável.
Meu pai é um velho humilde. Tanto que, cada vez que voltamos da emergência ou das consultas muitas vezes com médicos grosseiros, que nem levantam os olhos para ver quem está diante deles, o seo Waldemar, meu pai, diz: "então, vamos embora. bacana, este doutor, né?". Grato, sim, pela migalha jogada às vezes com nojo pelos que são a comissão de frente do nosso sistema único de saúde, que, obviamente, quem tem grana e poder, não vai usar.
Não creio que meu pai tenha câncer por uma maldade de Deus, uma vingança do Todo Poderoso por algum deslize que ele tenha cometido, um olho por olho executado pelo Pai de todas as coisas vivas. E acredito que, mesmo quem comete as piores maldades, tem sim o direito da ajuda, do sentimento mínimo de piedade. Nem sempre, claro, dá para ter simpatia ou genuíno sentimento de solidariedade a um Kadafi, a Hitler, a Nero, a quem violenta uma criança, a um traficante que queima um inocente numa pilha de pneus. Nem Jesus teria complacência com estes - não esqueçamos de que ele expulsou a chicotadas os chamados vendilhões do templo.
Pois digo tudo isso, num texto em que nem paro para pensar se está tudo certinho, das ideias à pontuação, movida pelo sentimento, para tentar mais que explicar (quem sou eu para tal?) a reação de milhões diante do câncer de Lula dizendo que é a hora de ele procurar o SUS.
Maldade? Ideologia? Falta de humanidade? Talvez tudo isso e mais. Ou talvez, como no meu caso, pura indignaçao diante da mitificação absurda de um homem mortal, falível e, acima de tudo, desesperado por poder, que se colocou no alto de um pedestal que outros milhões seguram e que, agora, se viu confrontado com aquilo que realmente todos somos: iguais perante a saúde e perante a doença.
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