Author: maristela
•Sexta-feira, Junho 26, 2009

Fiquei até essa hora decidindo se postava ou não sobre a morte de Michael Jackson. Li tanta piada infame no twitter que me deu enjoo e achei que ia ser mais um texto sem a menor importância para nada. Mas vou deixar de ser orgulhosa, que de nada adianta, e vou sim falar do moço de quem lembro, acima de tudo, numa fase de minha vida em que tinha um filho de seis anos e uma filha de um aninho e acabara de perder minha casa própria, depois de perder o emprego pelo fechamento da Folha da Tarde onde eu tinha sido sub-chefe de reportagem geral quando chegou o tufão da falência, com seus pagamentos em vale e eu tive um princípio de aborto.
Enfim. Eu morava numa casa lindinha na beira do Guaíba, a vida, apesar de ser difícil, era levável mas quando eu e meu marido passamos a viver apenas daquele dinheirinho miserável da empresa, começou a piorar. Manu nasceu em meio a isso tudo e quando ela estava com um ano, a gente teve de vender, a troco de nada, a casa, para pagar prestações atrasadas.
Passamos a viver de aluguel, e assim ficaríamos por sete anos em que me paralisei, não tinha mais coragem de enfrentar dia a dia de jornal, tinha dois filhos para cuidar, o Lou entrando para colégio. E eu passei a fazer tricô, a maternar (o que foi bom demais) e a aprender a viver de um outro jeito, em casa, com pouco mas sem dramas.
Nessa época, Michael Jackson capitaneou um grande lance de marketing que tinha, como contrapartida, uma boa chamada de atenção para os problemas da África. De modo que, com meus inglês de tarzan, eu cantava a plenos pulmoes "we are the world, we are the children" cada vez que a música tocava numa fm ou aparecia num clipe de tevê. Até o dia em que meu senhorio, que trabalhava e morava na casa ao lado, chama-se sei lá o que Bonilha e nunca primou pela educação, debochou em alto e bom som de mim e meu refrão inspirado. Murchei e emudei minha cantoria.
Enfim. Bobagem.
Mas é só pra contar que este momento MJ é tão importante quanto ver o gurizinho de cabelo black power cantar Bean. Era 1985.
O que veio depois a furo, toda aquela baixaria de casamento de fachada com a filha de Elvis, seguido de separação e a fabricação de filhos com uma mulher estranhíssima, mais as aparições das crianças que pareciam todos noiva-cadáver com aqueles véus no rosto, tudo era um outro Michael louco-manso, perigoso pelo envolvimento com crianças. Ele e aquela patética chegada a um fórum usando pijamas. Depois a cena da sacada com o bebê com lenço na cara e pendurado como fantoche. Uma coisa inqualificável.
Por esta época eu colaborava com Osaiti do Paulo Acosta, que vai receber MJ com muito deboche, que eu sei, lá onde deve rir muito dos vivos daqui, e escrevi um texto comentando o caso do Chico Buarque com uma mulher casada e a panaquice geral, inclusive do maridão corneado e alegre, e as safadezas do Michael com garotinhos, fazendo questão de espinafrá-lo e lhe desejar cadeia eterna, assim como para as mães das crianças que lhe eram confiadas para brincar de médico naquele rancho bizarro que ele perderia depois.
Para quem quiser ler o texto e conhecer um pouco de Osaiti, este é o link.
PS: tenho recebido comentarios (OBVIAMENTE ANÔNIMOS, PORQUE QUEM OS ESCREVE, NÃO TEM CORAGEM PARA SE IDENTIFICAR, POR ISSO NÃO PUBLICO, DETESTO COVARDES) de gente pobre de espírito que fica chocada com a realidade.
Mas não tenho mais idade para hipocrisias. O fato de adorar muita coisa do que MJ criou não muda minha opinião de que ele foi, sim, abusador. Não me interessa aqui a sua infelicidade na infância, afinal, com a grana que ganhou, poderia ter feito uma boa terapia e tentado se livrar dos traumas (ái que saco!!!!) de infância em vez de meter a mão em garotinhos.
Não dou mole para abusador, só quem não quer enxergar não admite que o cara pagou milhões de dólares para calar a boca de pais tão ou mais sacanas que ele e que, artista genial, foi um desequilibrado que viveu até os 50 anos falando como menininho e agindo como um adult0 sem limites.
Se isso me entristece? Sim. Queria que meus ídolos fossem todos decentes. Infelizmente, não são. Mas não vou fechar os olhos para seus defeitos e encobrí-los.
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Author: maristela
•Segunda-feira, Junho 22, 2009


Historinha: no final dos anos 90, um recém-feito amigo (empresário bem-sucedido, de pensamento bem cartesiano como sói acontecer com engenheiros como ele) terminou a amizade comigo me acusando de corporativista insensível. Tudo porque, numa troca de mails, ele, interessadíssimo que estava em se tornar escritor e colaborador de veículos de comunicação, me contou que uma amiga publicitária lhe havia “passado” uma pauta que ela havia recebido “para ele aprender como se fazia matéria.” O que, obviamente, bateu na minha dignidade profissional, resultando num longo e ferino desabafo em que eu falava da falta de ética da moça e, por tabela, de quem aceitava tal “presente”. Anos após, o empresário editou seu primeiro livro, virou colaborador de alguns veículos e até pouco tempo chegamos a trocar algumas mensagens, na boa.

Sempre vou lembrar disso. Para mim, a moral da história que ficava implícita naquela revelação era “eu posso fazer o que qualquer jornalista pode e não preciso ralar em faculdades mais ou menos boas para estar numa revista, num jornal, em TV, rádio ou internet”. E é verdade. – para quem acha que jornalismo é tão somente “saber escrever” não há a menor necessidade de cursar uma faculdade que habilite legalmente para a área. E, usando a figura comparativa que um dos doutos ministros do STF citou para espinafrar ainda mais com a “catiguria”: para ser chef de cuisine o essencial é ter talento para cozinhar. O resto – saber como cortar legumes, qual faca é mais adequada para determinado ingrediente etc – pode ou não ser aprendido em cursos, superiores ou não.

O jornalista, este ser que, na maior parte das vezes, se acha acima dos demais mortais e que, amiúde, adora transmitir seu pobre e malfeito programa de televisão de restaurantes e bares para comer e beber de graça (ele e mais uma tropa que carrega junto), pois esta criatura em geral mal-paga (e aquela outra expressão a mais, que vem antes desta, também) consegue ser invejada a ponto de terminarem com seu amado diploma. Sim, eu sei que não é o diploma que se acabou, “apenas” a obrigatoriedade dele para o sujeito ficar de 10 a 12 horas numa redação fazendo pautas, de olho em 300 mails diários e fuçando em sites e blogs para não levar furo. O que, na minha época, era diferente: em vez de perder a visão na frente do computador, se ia ficando surdo de ouvir, de meia em meia hora, os noticiários das rádios de Rio e São Paulo em ondas curtas, com toda a chiadeira. E depois ainda degravar tudo, para resenhar.

Mas os prazeres do jornalismo não ficam só nisso. Há quem dedique sua vida a controlar um batalhão de repórteres, de todos os níveis de experiência e qualidade, na busca de cumprimento de suas quatro ou cinco pautas diárias, depois na conferência das informações que chegam da rua. Detalhe bom de lembrar sobre o glamour da profissão: em alguns veículos, ainda hoje repórter vai de ônibus atrás de notícia! E tem de voltar a tempo para a redação. De preferência, sem ranço, com humor estável.

Sem contar as pautas de fotos, de infográficos, a diagramação, a pentelhação dos telefonemas da direção para fazer as chamadas matérias 500, aquelas que interessam a amigos da casa, patrocinadores, futuros anunciantes ou algo do tipo. Sem contar as reuniões insuportáveis para analisar o que nunca é realmente analisado, mudar o que nunca vai ser de fato mudado, colocar na roda aquela reportagem sensacional que um simples mail do andar de cima derruba porque, sabe, fulano joga golfe com o namorado da filha “do homem” e estamos conversados.

Coisa simples, isso de ser jornalista. Está aí a razão para todo mundo achar que pode e quer ser um. Afinal, escrever não é privilégio de jornalista. Ponto.

Lembrei agora de outra historinha bobinha, bobinha: trabalhava eu no Correio do Povo e o diagramador resolveu fazer um título desafiador que exigia oito linhas de no máximo seis toques cada uma. E a gente fez! Em menos de 15 minutos, porque o fechamento já estava estourando, diagramador e paginador cobrando, as rotativas esperando para botar na rua mais uma edição brilhante que teria de chegar ao assinante mais remoto até às 5 da manhã. Tudo para, ao meio-dia, como dizia meu querido Tuio Becker, nossas manchetes, as fotos escolhidas a capricho, o texto revisado (sempre deixando escapar um maldito erro) estar embrulhando peixe no mercado público. Ah, mas isso foi no tempo em que se embrulhava peixe em jornal. Agora, estamos livres. Ninguém mais tem de se preocupar com mais nada.

Se pode até lançar um slogan: “Jornalista! Toda família, um dia vai ter o seu”. E como diz o brilhante André Barrionuevo em seu deboche bem-vindo: “agora, pra ser burro, não é preciso estudar”.

Texto feito originalmente para Coletiva.net e para o Boletim.

PS: como recebi um mail de uma amável professora paulista dizendo não ter entendido minha posição, acho que errei a mão e a ironia saiu pela culatra.

Coloco aqui a resposta que dei a ela:

Oi, Helena

tudo bem?
na verdade, eu já me havia manifestado, de forma bem enfática e indignada, em meu blog clinica da palavra. Havia até mesmo decidido não retornar ao tema, pois sempre vou de peito aberto e, obviamente, me arrebento.
No entanto, como todas as sextas escrevo para o Coletiva.net, que é voltado especificamente para profissionais da área de comunicação, tive de voltar a falar no mesmo assunto, tentando inclusive mostrar que jornalismo não é tão somente escrever. Aliás, as áreas profissionais, como a sua, têm especificidades que somente um ensino especializado pode dar.
Sou radicalmente contra a decisão do stf, acho um desrespeito com toda uma história de luta para pequenos porém significativos avanços.
Lamento que minha ironia tenha levado a uma interpretação distorcida de minha posição e até te agradeço, pois estou pedindo, neste mail, ao Valter, que acrescente esta resposta ao texto.
Como vês, não me bastaram 35 anos de redação: incorri no gravíssimo erro da falta de clareza.
Um grande abraço
maristela

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Author: maristela
•Quarta-feira, Junho 17, 2009
Estou aqui, vendo de novo Os 12 Macacos, e resolvo dar uma olhada na internet e dou de cara com a decisão do STF de derrubar a obrigatoriedade de diploma para jornalista.
Diante do deboche de um dos ministros, que comparou jornalistas com chefes de cozinha (sem querer ofender ninguem, aliás quem me dera gostar de cozinhar e ter talento de alguns chefes de verdade) proponho que se extingam todas as faculdades de jornalismo.
De agora em diante, considero simplesmente que quem se sujeita a esquentar a bunda anos a fio nas aulas das faculdades de comunicação social é um palhaço apenas.
Afinal, a troco de quê investir numa profissão que pode ser exercida por qualquer um que "escreva bem"?
Não sou tão bobinha quanto pode aparentar. Calma lá. Sei que não é um diploma que transforma alguém em bom profissional e de médicos a advogados, está cheio de gente merda com pós-doutorado.
Antes de se exigir diploma, quantas pesssoas se formaram na dureza do dia a dia das redações, em outras épocas, sem por isso deixar de ser bons jornalistas.
Quantos "provisionados" abriram caminho para que se montassem cursos de ensino teórico precioso, embora muitas vezes precariamente ensinado, a fim de que se qualificasse a profissão vista, em épocas não muito distantes, como de gente boêmia ou, pior, destruidora de reputações, caçadora de sensacionalismo etc etc etc.
Mas regredir em conquistas é triste. Mesmo que as redcações estejam infestadas de vaidosos ridículos, iletrados ganhando prêmios, egos inflados e formação moral zerada.
Como é triste a atitude de derrotismo do presidente da Fenaj.
Assim como a calhordice clara da Associação Nacional de Jornais, que adorou a medida.
E dizer que, em 1971, eu me achei vitoriosa por vencer tantas vicissitudes para conquistar uma vaga em universidade púb lica e obter minha diplomação em jornalismo!
Quanto sonho! Que orgulho encontrar meu nome naquela lista, num domingo pela manhã, casualmente na escola localizada diante do prédio do jornal que hoje é considerado o líder do RS.
Na minha modéstia, apenas voltei para o fuquinha vermelho de meu pai (ou seria ainda o DKW branco?) e continuamos em direção a uma das praias do Guaíba, para mais um churrasquinho com tios e primas à beira do rio.
Durante 4 anos, estudei, trabalhei, me dediquei para honrar o canudo que iria receber numa cerimônia xoxa de gabinete, porque afinal era ditadura e a turma optou por não fazer nada festivo! Disso me arrependo - ainda hoje me faz falta o ritual da formatura!
Nunca usufrui de meu diploma e de meus trabalhos em diferentes veículos e áreas jornalísticas para obter poder e grana. Burra!!! Burra!!!BURRA!!!
Jamais soube ser esperta para negociar aumentos de salário ou mesmo galgar postos e obter cargos mais importantes. Sempre fui exercendo meu trabalho, com dedicação, brigando muitas vezes e queimando o filme por defender o que me parecia direito.
Hoje vejo que mereço nariz de palhaço e orelhas de burro mesmo.
Estou mortificada.
Por mim.
Pelos alunos de comunicação social.
POr meus amigos e amigas que lecionaram, como Helena Lemos, ou lecionam, como Sean Hagen, recém titulado como doutor, e orientam futuros mestres, como Christa Berger.
Essas pessoas da maior qualidade não merecem a safadeza dos cínicos a serviço de trustes de comunicação.
Ainda bem que nem um de meus filhos quis seguir meus passos e ser jornalista diplomado.
Uma data a não ser esquecida, de fato, esta desta quarta-feira.
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Author: maristela
•Sexta-feira, Junho 12, 2009

Pois muito bem. Estou em novo endereço há duas semanas. Subi o morro! Agora moro mais pertinho do céu e, possivelmente, do buraco da camada de ozônio e das nuvens de gás carbônico também. Acho salutar este movimento de deixar a tal zona de conforto e procurar uma nova zona de conforto, é claro, porque não vou querer, a estas alturas da vida, experimentar a vida de monge. Até tenho uma colega que deixou o filho único (ok, já criado) e até computador para trás e foi viver numa prainha da Bahia. Dizem que está felicíssima. Bronzeada, ao menos, sei que está. E pelo menos pode tomar seus pilequinhos sossegada, sem se preocupar com degraus de bar e os conhecidos em volta, cobrando e rindo, como acontecia por aqui.

Porém, todavia, contudo, o que eu queria contar é da minha nova vida numa área que conheci quando era menina e que, naqueles tempos dantanho, não contava, na maioria das ruas, nem mesmo com calçamento. Lembro de tardes de domingo em que, enquanto minha mãe colocava as conversas em dia ou na casa de minha avó Zeca ou na de minha tia Eda, na baixada deste mesmo morro, eu e minhas primas Maria José, Maria, às vezes Salete, empreendíamos nossa caminhada lomba acima para visitar amigas delas. De uma até lembro o nome: Gedy. Onde andará? Era loira, tinha um nariz grande, uma gargalhada inimitável e imensas unhas vermelhas que me enchiam os olhos.

Eu me sentia muito importante, sendo novinha em meio a mocinhas cheias de suspiros e segredos, naqueles encontros em que o assunto principal, claro, era namoros, ilusões, desilusões, muito riso, algum choro. O cenário era, em sua grande parte, formado por chalés simples de madeira, pintados de cores alegres, pátios com muita margarida, copo de leite, saudade, cravo e cravina e aquelas lindas e cheirosas violetas comuns, que a gente colhia para fazer buquê e levar para a professora.

Hoje, o Mont Serrat virou bairro muito chique, com prédios imponentes em seus bizarros estilos neoclássicos, tudo muito igual, com piscinas, quadras de basquete, parquinho e toda esta parafernália para quem pode pagar e em geral nem sabe onde fica a churrasqueira porque, claro, almoça fora em bons restaurantes. Não. Não é má vontade nem com dinheiro muito menos com status. Sem grana, quem move a máquina da existência?

Em que pese o incômodo que me dá o mau gosto da maior parte destas construções com garagens para 3 carros, 4 dormitórios etc e tal, me dói mais é ver, em meio a dois megaprédios sobre pilotis uma velha casinha de madeira cuja terra do pátio parece lambida de tão limpa e alisada. Esta casinha é simbólica para mim e minhas lembranças. Perguntei a um vizinho quem ali morava. Me contou que era de uma velha senhora que há muitas décadas é empregada doméstica que mora no emprego e que, diariamente, vem cedinho até aquela que foi sua morada para varrer, tirar todas as folhices, e limpar as paredes e janelas de madeira de uma dignidade que muito prédio de vidro blindado não tem. Me encanta passar, diariamente, diante desta pequena casa que me parece ter vários cômodos, pois tem mais de uma porta em sua lateral. Diante de suas duas janelas que se abrem em par, há quatro pés de bananeira que, juro por Deus, parecem ser lustrados diariamente. No caminho que leva até os fundos do terreno, o jardim é delimitado por várias garrafas pet fincadas na terra que, à noite, brilham como luminárias no escuro do lugar.

Engraçado é que, antes de encontrar este apartamento, eu vinha, intuitivamente, talvez por saudades de minha meninice com as primas e suas amigas, caminhar por estas ruas bonitas, neste alto de morro. E ficava olhando as casas de madeira que ainda resistem, algumas com verdadeiras favelas, seis casas enfileiradas uma atrás da outra, com roupas estendidas em varal erguido com taquara, pátio embarrado, sempre um ou outro encostado na porta, fumando, pensando na vida encostado em soleiras mal cuidadas.

De modo que fico tentando aprender com estes contrastes entre dinheiro sobrando e quase total falta dele, entre pomposos prédios com gente de nariz em pé e chalés velhos cuidados por mãos cheias de afeto. Está sendo um bom aprendizado esta mudança. Principalmente por buscar coisas do baú e permitir vê-las à luz do dia, de uma nova vivência.

Não consegui ainda fotografar o chalezinho caprichado. Por enquanto, fica esta foto linda que peguei neste site

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Author: maristela
•Sexta-feira, Junho 05, 2009

Estava demorando, mas veio a crítica dos franceses ao jeito digamos descontraído e afoito demais com que as autoridades brasileiras estão regurgitando informações sobre o mistério do sumiço do vôo 447 da Air France. Eu sabia, eu sabia! Quando vi o anúncio de que Nelson Jobim ia assumir a explicação dos trabalhos investigativos, juro pela minha alma que pensei: ái, meus deuses, aí vem pavonice e conversa demais!

É impressionante como as assessorias de comunicação de caras como Jobim e parceiros com ou sem farda, nestas horas de absoluta necessidade de contenção e prudência deixam o chefe dizer o que quer e mandar ladeira abaixo toda uma possível coerência e lisura no trato com a opinião pública.

Certo, a gente que já vivenciou ou vivencia esta zona de perigo constante que é a assessoria de comunicação social chamada “oficial” sabe o quanto é difícil ser respeitado por alguém que, baseado num punhado de votos, acha que sabe tudo e que jornalista bom é jornalista obediente. Em minha curta (felizmente) experiência na área, assisti a coisas de arrepiar e quando me atrevia a comentar a posição de sabujice de muitos colegas, quase sempre era sutilmente aconselhada a me recolher à minha insignificância. Afinal, se fulano havia chegado ao “poder”, é porque ele sabia tudo, de cura da unha encravada a marquetíngue. Assessor de imprensa? Ah, só pra mandar uma notinha ou fazer uma fotinho, porque o chefe, afinal, tem linha direta com os que mandam meeeeeeesmo nas mídias.

Pois temos assistido a um desfile de absoluta falta de gestão de crise no que toca a esclarecer o distinto público sobre este vaivém de barco, avião e helicóptero em busca de vestígios do vôo, este vai tudo pra Fernando de Noronha, depois não vai, vai pra Recife. E a história da mancha de óleo no mar? Primeiro, era do avião sumido. Agora, não é mais. Também “explicaram” que primeiro os navios iam e voltavam sem parar nem recolher nada porque estavam procurando sobreviventes ou corpos. Depois, passou a valer fazer as duas coisas – procurar gente e restos da aeronave. Quanto aos destroço, também eram do 447, poucas horas depois não eram mais, porém estão sendo recolhidos igualmente. Para serem descartados, como foi “esclarecido”!

Em meio a toda esta desinformação, a gente vê jornalistas tatibitando nas coletivas, fazendo perguntas sem o menor saco, sem a menor pesquisa, a câmera flagrando gente se levantando rindo feliz da vida no final dos desesclarecimentos, sem a menor compostura, como se fosse o anúncio de um baile de debutantes. Quequiéisso, cumpanhêros?

E os especialistas de plantão na programação, respondendo besteiras à altura das perguntas idiotas? Pior: se antes a internet era o terreno que redimia a porcaria feita pelas mídias ditas tradicionais, com a vantagem do imediatismo de som e imagem, agora é uma pasmaceira de dar nojo! Fico com pena mesmo é dos familiares que estão sendo “acolhidos” para receber “todas” as informações e na verdade ficam apenas fuçando na rede e ouvindo as inconsistências que lhes trazem os porta-vozes das autoridades.

Por isso, não me surpreende que Monsieur Pierre Sparaco, expert da Academia do Ar e do Espaço e jornalista especializado em aeronáutica tenha descido a lenha, no Fígaro, nas autoridades brasileiras que, segundo ele, “estão gerindo mal a situação, o ministro da Defesa, em especial, faz declarações demais sobre o assunto, há uma tendência a querer explicar demais a situação, a comentá-la demais. “ Querem mais? Ele fala mais: “há um risco sério de confusão, sobretudo para as famílias das vítimas. Não é deste jeito que as autoridades deveriam agir”. Nos dedos, de régua, sem Celso Amorim que dê jeito – como se desse!

Então, a gente tem direito de perguntar: ministro Jobim e assessoria, leram o que disse messiê Sparacô? Gerir crise, nessa hora, não é só enfiar familiares em hotel fino injetando-lhes, de hora em hora, informação sem sentido, tampouco dar entrevistas para provar que o governo é transparente e nada esconde sem ter nada a dizer de real, que importe. Democracia de informação é divulgar coisa consistente, verdadeira, com credibilidade, sem dar esta sensação horrorosa de embromação que só aumenta a dor de quem não sabe e talvez jamais saiba o que aconteceu de fato com seu familiar ou seu amigo entre o Rio e Paris, naquele trecho que quem fez este trajeto sabe que dá pavor só de pensar que se está preso numa caixa de metal, solto acima das nuvens ou no meio delas e sobre um vazio que aquele mapinha nas costas do banco transforma num minifilme de terror.

Infelizmente, continuamos repetindo o samba do crioulo doido do jornalismo pós-moderno. Vivemos, mais uma vez, o desencontro das informações, a coreografia das vaidades e dos egos e o despreparo quando não preguiça e ou má vontade de grande parte dos jornalistas envolvidos numa cobertura deste porte que deveria conter, acima de tudo, senso de humanidade e desejo deser útil e correto.

Texto publicado em Coletiva.net

Ilustração do blog Encres et Plumes

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