Author: maristela
•Sexta-feira, Maio 22, 2009

Então, Zé Rodrix se foi, assim, de repente, sem um sinalzinho que colocasse a família, os amigos, os fãs de sobreaviso. Quem disse que a morte tem de avisar sua chegada? Quantas vezes ela até engana, faz que vem mas não aparece? Afinal, tem tanta gente vivendo seu tempo de bônus por aí, gente que se agradece aos céus por ter ficado, outras que se fica pensando sobre os mistérios do além e do aquém para merecerem estar vivas.

Andei passeando pelo youtube e fiquei triste por ver que tem muita coisa atual do Zé mas pouca memória da época em que ele marcou a vida de adolescentes num Brasil sem esperança, sem saber para onde ia. Como a gente vai esquecer aquele sujeito de voz rascante, cabelo crespo avoado, óculos, debochado e ao mesmo tempo romântico para parir algo como a eterna Casa do Campo? Envelheci ou foi ontem que vi este cara nos festivais de mpb? E aquele comprido e feio Guarabyra cantando Apareceu a Margarida. E Wilson Simonal, antes de ser desgraçado pela esquerda sempre afoita e dona da verdade cantando Sá Marina, Tributo a Martin Luther King e uma coisa linda chamada Silêncio, que nem a letra se acha na internet, ou ainda Correnteza, do Tibério Gaspar e Antônio Adolfo?

E aí me lembro de Marcos e Paulo Sérgio Valle, de Viola Enluarada, de gente lotando teatros para aplaudir e vaiar, brincando de levar a sério disputas que preenchiam a alma vazia de futuro, universitários que meteram a boca em Caetano Veloso, passando recibo de burrice aguda, de não entender o que viria, o novo, o desafiador. Faz tempo tudo isso.

Faz tempo que Elis, num lance de estupidez absoluta, misturou cocaína com birita e nos deixou na mão, tendo de nos contentar em ouvir velhos vinis, cds e espiar o youtube para suspirar com Atrás da Porta.

Viro e reviro as listas dos novos talentos, em especial dos compositores, em busca de espírito, de sopro vital, e só não fico mais triste porque existe um Marcelo Quintanilha lembrando que existe vida inteligente além dos solavancos de Ivete Sangalo e Cláudia Leite. Na verdade, acho que procuro o que se foi, o que não se perdeu mas que vai se esvaindo com a gente, que vai indo também, nesta semgracice da música pasteurizada e modinha que invade tudo e todos.

Nem vou falar mais, porque estou amarga da silva com esta partida de Zé Rodrix. Outras virão, a gente sabe. Há que ficar firme e ir cantando o que gente como ele deixou, passando adiante o que a pressa e o sem sabor deixa de lado.

(Publicado em Coletiva.net)
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Author: maristela
•Quinta-feira, Maio 21, 2009


Preguiça de escrever.
Canseira, na reta final de uma grande mudança na vida.
Aí, vejo a notícia do festival de balonismo na cidade de Santa Maria e lembrei da música Up, Up, and Away, do Fifth Dimension, de uma época cheia de promessas.
Fica aí o vídeo, com estes figurinos de quem a gente hoje ri bestamente, a dança com os braços abertos que a Elis adotaria e metade da torcida do Inter também, eu inclusive, a letra aparentemente tão bobinha mas tão otimista, a lembrança de bons tempos. Tempos em que se fazia pandorga, que outros chamam papagaio, de vareta afinada a faca,com papel gessado colorido, rabicho de tiras de camisa velha que a mãe dava, e esperança no vento e na habilidade em ir desenrolando o cordão que o pai amaciava com cera. 
Já é sexta-feira, outro fim de semana, vontade de voar num balão colorido.
Quem não tem?



Would you like to ride in my beautiful balloon Would you like to ride in my beautiful balloon We could float among the stars together, you and I For we can fly we can fly Up, up and away My beautiful, my beautiful balloon The world's a nicer place in my beautiful balloon It wears a nicer face in my beautiful balloon We can sing a song and sail along the silver sky For we can fly we can fly Up, up and away My beautiful, my beautiful balloon Suspended under a twilight canopy We'll search the clouds for a star to guide us If by some chance you find yourself loving me We'll find a cloud to hide us We'll keep the moon beside us Love is waiting there in my beautiful balloon Way up in the air in my beautiful balloon If you'll hold my hand we'll chase your dream across the sky For we can fly we can fly Up, up and away My beautiful, my beautiful balloon Balloon... Up, up, and away....


foto: LA Times Travel
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Author: maristela
•Domingo, Maio 17, 2009
Eu não ia postar hoje, em geral domingo eu faço como o todo poderoso: descanso. Mas estava mandando um mail para parabenizar meu filho, Lourenço,  pelo seu aniversário, e me dei conta que, caramba, 30 anos de um filho primogênito e único filho homem (nesta encarnação hehehe) merece um reconhecimento público.
Afinal, são três décadas que eu virei mãe! Eu que nem sabia bem o que estava fazendo e no que estava me metendo, porque, afinal, a gente esquece das vidas anteriores...Só lembro que acordei às cinco da manhã com uma estranhíssima dor nos quarto, tipo Painho, e nem sabia direito o que era, porque até então não tinha tido contrações de verdade. E a criatura que estava pra chegar estava atrasada uns 15 dias!
Mas, com certeza por instinto, soube que era chegada a hora. Levantei quietinha, fui para o banho, fiz barba, cabelo e bigode por completo, voltei para o quarto, me vesti, chamei o pai que tomou um esperado cagaço e, abaixo de um frio atípico em maio, me fui para o Hospital Moinhos de Vento. 
Cumpridas as exigências de praxe (aquele humilhante laxante que se toma!), já com o modelito hospitalar bunda-de-fora, me levaram para a maca num corredor cheio de mulher em situação semelhante. Dia de muito nenê nascendo! E lembro que a dra. Mary Arpini chegou, me botou no soro aquele que acelera as contrações e ficou falando, falando, falando comigo, me contando uma história compriiiiiiiiida de um sobrinho, e eu ficando grogue e tentando acompanhar, levando a sério aquela artimanha pra ver a quantas eu andava.
De repente, a correria para a sala de parto, o teto passando, eu abobalhada sendo posta na cama, meio sentada, meio deitada, um monte de gente me dando ordens e, lá pelas tantas, alguém me fala que eu iria fazer uma cesariana, porque o coração do nenê havia entrado em sofrimento. Também lembro de ter reclamado, porque um colega de jornal, que era também médico, todos os dias fazia o favor de me azucrinar lembrando que criança nascida de cesária teria problemas respiratórios e tal, que eu tinha que ter filho em parto natural.
Apaguei e acordei num salão cheio de gente, uma menina gorda ao meu lado, gemendo, com a boca sangrando (depois soube que ela havia tirado os dentes sisos) e, quando tentei me erguer, veio uma dor inimaginável abaixo da barriga, do corte do bisturi.
Depois daquele dorme-acorda do pós-operatório, fui para o quarto onde, não mais que de repente, abre-se a porta e entra uma mulher de branco com um embrulhinho nos braços. Era Lourenço, modéstia à parte, um dos recém-nascidos mais lindos que já se viu neste mundo!
Mamou, foi visitado, voltou pro berçário (era assim, naquela época) e eu, mais tarde, chorei muiiiiiiiito, não de emoção, mas de tristeza por passar a mão na barriga e não encontrar mais nada ali, depois de nove meses naquela mistura de vida que nunca mais se repetiria, porque cada gravidez e cada filho são uma experiência bem diversa uma da outra.
Terminei de ler Germinal, do Émile Zola, nestas duas noites de hospital. E eu confesso que tinha uma vontade maluca de ficar ali pra sempre, não ter de ir para casa. Era tudo tão bom, tão caloroso, tão perfeito, mexer com este quadro pra quê?
Nem eu entendia esta incoerência, já que filho tem de ir para sua casa, seu berço, sua vida e hospital não é lugar para viver. Hoje eu sei que senti, naquela hora em que chorei porque não tinha mais nada dentro de mim, que eu começava a aprender a maior de todas as lições: que ser mãe é apenas ser veículo para fazer renascer outra alma que, assim que emite o primeiro choro longe do útero, já é do mundo.
Parabéns, Lourenço. Um aniversário luminoso pra ti, meu filho querido.

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Author: maristela
•Sábado, Maio 16, 2009

Colégio interno, a solução para a garotada adicta de internet. Esta parece ser a solução que muitos pais franceses estão encontrando para tirar os filhos da frente do computador, em especial das redes de relacionamento. Um artigo publicado no Figaro online pergunta, inclusive, se o “Facebook é o fornecedor oficial dos internatos” atualmente.

Para mim, é uma coisa muito estranha que justamente os franceses, eternamente interpretando o quadro A Liberdade Guiando o Povo, do Delacroix, estejam optando por encarcerar os filhos por não saber como lidar com a liberdade de um e outro. Mais estranho ainda que, a estas alturas do campeonato, a multiplicação dos internatos “de excelência” seja programa prioritário do governo. Sarkozy chegou a justificar, há dois anos, que seria uma boa chance de dar estudos de qualidade aos jovens – hoje, 450 já podem provar desta novidade às avessas.

O comportamento vem se firmando há alguns meses e desafiando os educadores e os chamados pensionatos afirmam que não se passa uma semana sem que recebam um pedido de inscrição. “As crianças estão em crise, mas os pais também estão”, diz um conselheiro da instituição que regula o ensino privado francês. Sem falar num psicanalista que considera este retorno ao colégio interno um ato de desmame!

Nesta história toda, vejo como mais assustador a afirmação de que a gurizada, ela mesma, está pedindo para estudar confinada: o SOS Ado, que é uma espécie de CVV francês que ajuda pais que enfrentam problemas com os enfants nos colégios, dá subsídio para esta afirmação. Segundo uma integrante do serviço, crianças e jovens se refugiam no tele socorro buscando se preservar de conflitos familiares.

A turma da psicanálise, como sempre, cutuca a culpa paterna, falando em uma fuga dos pais de seu papel, transferindo sua autoridade para a escola em regime de internato. Corroborando esta visão, a unanimidade dos comentários feitos ao mesmo artigo do Figaro é de repúdio a esta nova moda. 

A matéria, que não vir repercutir em lugar algum (inclusive, um dos leitores comenta a respeito da prioridade que o próprio Figaro deu a ela)  me interessou mais porque, há duas semanas, resolvi começar a postar no twitter, este ser estranho, mais um filhote da internet, em que se escreve no máximo 140 caracteres por mensagem.

A ferramenta vem sendo incensada pelos que apontam sua instantaneidade jornalística acima de tudo, com base nas notícias que aparecem primeiro nos espaços dos tuiteiros para depois ocupar sites e, bem mais tarde, mídias “antigas”, como televisão, rádio e jornal. A exemplo dos blogs, as próprias mídias estão usando o twitter, o que retro alimenta esta samsara da vida virtual.

Confesso que até agora tuitar está sendo uma obrigação a mais de atualização na rede do que algo que dê retorno em termos de mais proximidade com leitores ou extensão da rede de relacionamento propriamente dita. Claro que é um prazer encontrar amigos novos e antigos nestes espaços sem sofá ou cafezinho. Mas até que ponto a gente está trocando até mesmo uma boa briga cara a cara por 140 toques de banalidade ou falsa cordialidade? Pior é que para nós, grandinhos, não há mais como ir para o internato e se enquadrar num velho jeito de viver. Falo daqueles tempos em que, mesmo a contragosto, se acompanhava pai e mãe nas visitas à casa dos avós em final de semana sem saber que se iam amealhando lembranças insubstituíveis para a maturidade e, mais que isso, moldando a própria vida.

 (publicado em Coletiva.net)

(foto do site The Journal of Computer-Mediated Communication's)

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Author: maristela
•Quarta-feira, Maio 13, 2009


Cannes começou nesta quarta-feira, 13. E começou com o novo filme da Disney-Pixar chamado UP, que mostra um velhinho viajando em sua casa pelo espaço amarrado a balões. Tragicômica coincidência com roteiro da vida real, porque lembra a história do padre de Santa Catarina que sumiu tentando repetir a proeza que já havia realizado antes. 
O cartaz do festival deste ano se inspira (nas costas de Monica Vitti) em Antonioni, é bem bonito mesmo. Sã0 62 anos de festival, então, respeite-se a cara. Cá entre nós, eu acho muiiiiiito mais interessante Cannes que a festa do Oscar, guardadas as diferenças.
Esta ano, pas de cinemá brasilerrô na mostra competitiva. Só na seleção enfaixada sob o nome Um Certo Olhar, tem o À Deriva, casualmente, que conta com um casal de atores franceses no elenco. Enfim.
Como o festival vai até final do mês, muito vai ser faladosobre ele, muita besteira acima de tudo pelo povo que acha que é crítico de cinema há várias gerações.
Então, prefiro mostrar este link da Life, que recebi por mail na newsletter da publicação, com fotos babáveis de antigas edições da mostra.
Esta foto aí de cima é hilária. Quem clicar no link vai ver que há outras, lindas, significativas, de atrizes como Sophia Loren, Gina Lollobrigida, Jane Maynsfield, Brigitte Bardot em duas ocasiões diferentes e em ambas uma gracinha como diria tia Hebe. Mas esta "moça" que aparece com o eterno cara de sonso Robert Mitchum é algo para se pensar sobre o que são as pessoas e como é o mundo.
Ela se chamava Simone Silva, não era brasileira, era filha de pais greco-franceses (née Bouillard) que viviam no Cairo, mas foi estrela de filmes B em Londres, onde morreu com 29 anos de idade, em 1957. Por qual razão trocou o sobrenome chique por Silva, nem Chico Xavier deve saber lá do outro lado da vida. Ela foi encontrada morta, aparentemente por um AVC resultante de uma dieta severa para entrar em forma e tentar voltar a filmar. Como se vê, a loucura pela magreza não é de hoje.
O flagrante armado aí na foto acima é de 1954. Impressionante como a criatura parece mais velha, inclusive pelos seios flácidos que ela passa trabalho pra segurar, coitada. O quase topless da Miss Festival custou um convite bem francês para que ela se retirasse de Cannes, embora tenha feito a alegria dos paparazzi d'antanho. Na época em que coxa grossa, cintura fina e peito imenso era o charme, ela teve seus 15 minutos e meio de fama. Segundo a Life, foi tanta correria para ver esta criatura esdrúxula, com esta fantasia meio de havaiana, que um fotógrafo quebrou o braço e outro a perna tentando captar a pose muito natural dos dois.
Mais louco ainda é que ela tem um biógrafo apaixonado, que fez o perfil para o IMDB, um tal Yuri Suassuna de Medeiros!!!!!
Nas imagens do uncle google, tem mais imagens risíveis da dupla, como esta,  ela gordota e ele com aquelas calças com cintura quase no pescoço como era moda! E esta, ele bancando o malandro, com o dedinho de quem ia pegar nas opulências da moça. Já nesta outra aqui, Mitchum parece que quer fugir do abraço da fofa.  Simone aparece magrinha nesta foto de 1951, com um maiô "ousadíssimo", no Festival de Veneza. Como se vê, ela adorava festivais! 
Coitada. Repouse em paz, Simone Silva.

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Author: maristela
•Domingo, Maio 10, 2009
Sei que vais ficar furiosa com a foto aqui.
Azar. A gente bate boca por tudo, teremos mais um bommmm motivo pra isso.
O que seria de mim sem nossas discussões?
O que seria de ti se eu não te desse corda? Já pensou, que tédio?
Com a gente não tem mãezinha pra cá, filhinha prá lá. É na porrada, mas funciona.
Vais continuar a vida toda me mandando comer verdura e eu vou continuar a vida toda dizendo que como o que eu quiser.
Vais menosprezar minhas piadas e eu vou sempre me irritar com tua fleugma e faz de conta que não entendeu que eu sei.
Sempre vais querer que a gente coma TUDO, literalmente, que fazes a cada almoço de domingo e reclamar, sempre, mesmo que ninguém consiga se mexer de tanto entulho, que "a gente faz comida e ninguém come". 
E eu vou responder sempre que fazes comida para um batalhão.
Também vais continuar contando que não dormiste nada na noite passada, eu vou dizer que não dormes porque não queres porque o cardiologista te deu remédio pra isso, vais responder que Deus te livre de te viciar em remédio pra dormir e vamos sempre bater boca sem chegar a lugar nenhum.
Vou continuar te telefonando todos os dias e todos os dias vais me dizer alguma coisa que vai me fazer me arrepender de ter te contado alguma coisa que serve de gancho para uma censura.
Vais continuar subindo naquele maldito banquinho para estender roupa na corda sem aceitar que eu coloque um secador que sobe e desce.
Eu ficarei puta da cara com medo que tu caias e ao mesmo tempo orgulhosa de tua agilidade.
Pois é. Acostumei contigo do jeito que tu és.
Sinto falta das cantorias comuns, sem ser da Igreja.
Sinto falta das horas em que eu fazia lição de casa na cozinha enquanto tu lavavas louça e ouvias novelas no rádio.
Sinto falta de te ver botando café no bule de louça ágata verde, embrulhando meio pão de quarto de quilo com manteiga e mandando eu levar para o pai, na Sapataria, junto com o Lobo, que corria na minha frente enquanto eu me distraía pegando coquinhos no chão.
Sinto falta da tua ironia quando chegavas de mansinho na sapataria, o olho crítico, uma fina senhoura em meio à poeira e cheiro de cola.
Sinto falta de muita coisa.
Mas aceito tudo como está, porque estás presente.
O resto, é conversa fiada.

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Author: maristela
•Quinta-feira, Maio 07, 2009


Pois foi a Yvonne que me mandou, por mail, este vídeo do karaokê coletivo que a T Mobile realizou em Londres no fim de abril. Eu não havia visto ainda e me desbundei (ih, termo dos anos 60!), queria ter estado lá naquela hora.
Imaginei se fosse feito aqui, quantos microfones sem fio seriam devolvidos? (maldosa, eu?)
Claro que o único lugar em que não poderia ser feito, pela falta de entusiasmo e cintura do povo participante é o Rio Grande do Sul, em que macho não dança pra não parecer bicha, tchê! E moça decente não vai pressas coisarada de massa, não!
Que inveja da gente do Rio, do Nordeste, do Norte do País, que adora uma festa e não fica olhando pros lados prá ver se tem alguém regulando como aqui.
Acham que estou exagerando? Já viram show ao ar livre em Porto Alegre? Eu já. Muitos.
A gauchada, em sua grande maioria, não só não se mexe como ainda fica olhando com cara de deboche pra quem se arrisca a mover os ombros que seja. Juro em cruz!
Então, vou de carona no Hey Jude gravado em Trafalgar Square.
Reparem na cara de satisfação de uns, na de emoção de outros, na alegria do homem de cabelo branco, dos desafinados, que coisa mais democrática.
Nem tô que foi prum comercial. Para mim, o que fica evidente, neste vídeo, é o prazer que a música traz. Prazer puro, de estar cantando junto, totalmente envolvido pela magia da música.
John Lennon deve estar sorrindo em algum lugar, malandramente, já que esta música foi feita por Paul McCartney (era Hey Jules) e creditada aos dois. Ah, que importa isso?
Ela é linda!!!! Seguem vídeo e letra.
VAMOS CANTAR, GENTE! FAZ DE CONTA QUE ESTAMOS EM LONDRES!

Hey, Jude, don't make it bad,
take a sad song and make it better
Remember, to let her into your heart,
then you can start, to make it better.

Hey, Jude, don't be afraid,
you were made to go out and get her,
the minute you let her under your skin,
then you begin to make it better.

And anytime you feel the pain,
Hey, Jude, refrain,
don't carry the world upon your shoulders.

For well you know that it's a fool,
who plays it cool,
by making his world a little colder.
Da da da da da da da da...

Hey, Jude, don't let me down,
you have found her now go and get her,
remember (Hey Jude) to let her into your heart,
then you can start to make it better.

So let it out and let it in,
Hey, Jude, begin,
you're waiting for someone to perform with.
And don't you know that is just you?
Hey, Jude, you'll do,
the movement you need is on your shoulder.
Da da da da da da da da...

Hey, Jude, don't make it bad,
take a sad song and make it better,
remember to let her under your skin,
then you'll begin to make it better (better, better, better,better, better!)
Da, da, da, da da da, da da da, Hey Jude...
Da, da, da, da da da, da da da, Hey Jude...

(tradução aqui)
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Author: maristela
•Quarta-feira, Maio 06, 2009


Eu estava pesquisando sobre Pierre Cardin, que está com 86 e que eu considero um humanista e viajei uma barbaridade em fotos fantásticas feitas para a Life sobre moda por um cara chamado Mark Shaw . Algumas destas fotos, são mais que obras de arte - são vivas. 
Quando voltei à Folha Online para pegar o link do tombo do Cardin, vi a notícia do linfoma da Glória Perez.  Ela própria contou no seu blog De Tudo um Pouco.
Inevitável comparar os casos de Dilma Rousseff e de Glória. Quem me conhece, sabe da minha total antipatia pelo PT e seus próceres, em especial uma certa turminha da guerrilha que hoje chora lágrimas de crocodilo com vistas às urnas das próximas eleições.
Não estou sendo cruel com Dilma, mas a durona da vez, a Margareth Tatcher desta gauche caviar que um dia já sequestrou e matou em nome de um ideal vago, esta mulher em quem Lula aposta todas as fichas para seu continuismo virar lenda neste país abriu também seu caso de câncer. Mas tenho certeza de que, se pudesse, não abriria - não é seu estilo.
Já entrevistei Dilma, há alguns anos, quando ela era a chefona da CEEE (Companhia de Energia Elétrica, então a única no RS) e poucas vezes fiquei tão insegura na minha vida. A criatura era um muro - sentada em sua mesa de trabalho como se estivesse numa trincheira, falava sem ao menos me olhar. Nem um sorriso, nem um gesto de simpatia, parecia muito mais um daqueles milicos que ela combateu,  só que um milico mais ou menos disfarçado de mulher. E digo mais ou menos porque o tom de voz, o gestual, o modo de olhar de Dilma são absolutamente masculinos. E, por favor, não estou sendo detratora nem com ela nem com as Ellen de Generis, cada um escolhe seu caminho! Não critico gênero algum! 
Aliás, acho que nem a plástica, nem as lentes de contato, nem o choro ao ouvir o sotaque dos mineiros, nada consegue dar leveza e feminilidade a esta senhora. Até a Dama de Ferro dos ingleses consegue ser mais feminina que ela.
Então, o fato de Dilma convocar coletiva para falar da doença e do tratamento em absoluto me comoveu. Ao contrário: pareceu a mim só uma peça na grande campanha de marketing petista para 2010. Já Glória Perez e sua franqueza me doem, porque a história da novelista tem este imenso buraco negro que é o assassinato da filha, Daniella,  por um casal de amaldiçoados em 1992. Que o Todo Poderoso me perdôe, mas um câncer linfático para Glória Perez é demais!
Com tanto canalha que não fica nem com unha encravada, qual a razão de mais esta prova para Glória?
Quando saí do site de Glória, porque estava travando o computador de tanta gente acessando (acho eu), abri o gmail e vi um que a Luci me mandou. Baixei e agora divido com vocês.
Meu pai está com Alzheimer, demência ainda que em grau digamos suave, além de outras doenças. Mais que ficar sem paciência, fico doída de vê-lo nos perguntando dezenas de vezes,  em espaço de minutos, a mesma coisa. É outra das coisas que queria saber do Criador: para que serve uma merda como Alzheimer, outra merda como demência, que a gente chamava, antigamente, de caduquice?
Esta semana sonhei com meu ex-colega e amigo Tuio Becker, que foi embora com Alzheimer e demência precoces - nem tinha entrado nos 60 anos quando foi atacado violentamente por esta praga. Tuio era um gênio, um crítico de cinema fantástico, falava várias línguas, tinha um humor especial, e de uma hora para outra, não sabia mais colocar o telefone no gancho e ia de manhã para as sessões de cinema que eram à tarde.
Deixo aqui o  vídeo. Não sei se fico com mais pena do pai ou do filho, neste filme. Acho que ambos merecem nossa compreensão. 



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Author: maristela
•Segunda-feira, Maio 04, 2009


Olhem bem para esta foto acima. Esta lady mais reflexiva que o pensador de Rodin poderia ser, tranquilamente, uma portuguesa de uma quinta retirada, em seu descanso após as lidas caseiras. Ou, quem sabe, uma italiana da Toscana, à espera da hora do sono, após um dia entre os vinhedos.
Mas graças a Deus não é. Ela é minha tia Eda. Que muitos chamam de Éda, assim, com acento no E. Na verdade, ela se chama Edy e, como em alguns casos na família de minha mãe, teve o nome mudado por causas sempre de diferentes versões: Maria Luiza virou Lila, Doly virou Neuza, Heroni virou Neno. Coisas da infância, em que  os irmãos pequenos vão renomeando os mais velhos, muitas vezes por não saber pronunciar o nome como ele é.
Tia Eda é presença constante na minha vida, assim como minha prima, Maria, com quem tenho uma foto de praia inacreditável, eu aos seis anos, com pernas de saracura, tão magra que o maiô sobra para todo lado, olhos fechados por causa de areia e cabelos crespos revirados, bochechas imensas e cara de choro. Na casa da Tia Eda, que para mim, na infância, era um casarão, passei as melhores festas de São João da minha vida, com direito à fogueira enorme no meio da rua, uma lombona que mal se vencia, noite afora, depois de tanto pinhão, quentão e comida gostosa, eu, meu pai e minha mãe, voltando para casa.
Ali, onde ela vive há décadas, lembro da sala da frente, que abrigava as máquinas de costura em que ela e tio Jango faziam as pesadas jaquetas de militares e que, depois, abrigou o piano em que Maria tocava Le Lac de Come e eu ficava besta, deliciada, quietinha num canto, ouvindo. Lembro da escada que levava aos quartos, no andar de cima, e que era fechada por uma porta que ficava na horizontal, como um tampão que isolava quem ia dormir. E do pátio nos fundos, com um varandão de assoalho de táboas que fazia barulho quando a gente corria e das plantas que subiam pela encosta do terreno, lugar de tanta brincadeira, tombos, risos e choros.
Minha tia sempre teve uma voz baixinha, nunca a vi cantando ou assobiando, a não ser para os cachorros que toda a vida ela teve, como Fiel, depois Jerry, agora Feijão, Branca Lua e Chiquita, e gatos, como este que Maria chama, não sem razão, de o Rei Sol. Sem falar em Morena Vitória que partiu faz pouco.
Quando vejo tia Eda, sempre lembro de uma nuvem branca. Não porque os cabelos dela estejam nevados, mas porque ela parece estar flutuando, com sua figura esguia, as saias longas, os casacos de malha compridos. Tia Eda é macia, suave e mesmo em suas horas de brabeza nunca a vi erguer a voz. 
Os cães da sua rua e arredores devem muito a esta lady da quietude - não são um nem dois que ela acolheu e acarinhou com pratos de comida levados à calçada, curando feridas, junto com Maria. Para os de casa, ela cozinha - imagina se vai confiar só em ração! E se eles não comem, ela vai atrás, pratinho na mão, pacienciosamente, insistente, preocupada. 
Maria me enviou fotos das crianças de casa e postei no blog de Dodo. Mas esta foto de tia Eda me carregou pelo tempo e eu a trouxe para cá, meu repositório de memórias.
Mais que os cachorros da rua, eu devo a ela pelas lições exemplares de perdão ao próximo, acima de tudo. Dona Eda, minha lady de voz baixa e andar suave.
E quase esqueço de contar que na casa da tia Eda, beija-flor toma água na janela. Em bando. E sabiás e pardais tomam banho nas bacias que ficam no pátio. 
PS: Pior é que esqueci do aniversário da minha tia Eda: é hoje, terça-feira, dia 5 de maio. 
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Author: maristela
•Sexta-feira, Maio 01, 2009

Quando eu era criança, se falava em Dia do Trabalho. Era um feriado aguardado, na casa de um operário de fábrica de calçados que, um dia, resolveu botar sua própria sapataria. Ainda esta semana, em mostrava à minha filha, quase formada em Arquitetura, a divisão interna do apartamento em que meus pais moram há 55 anos, na vila do IAPI e que teve modificado seu interior, faz muitos anos, para ampliar as pequenas peças e dar lugar a uma cozinha maior, com espaço especialmente para o refrigerador que, no começo, ficava na sala.

 Este eletrodoméstico, então imenso e barulhento, se chamava frigider  mesmo não sendo da marca Frigidaire, e antes herdara o nome de geladeira (minha mãe até pouco tempo usava este nome), porque seu antecessor era apenas um depósito fechado de barras de gelo que um carroceiro trazia, semanalmente, e entregava, depois de fisgar – com um gancho de ferro -  cada barra que vinha pingando água, mesmo enrolada numa estopa que protegia seus ombros do frio.

Mas eu falava das peças que não existem mais na casa dos meus velhos e que tem por testemunha, além das lembranças de quem ali morou e mora, as vigas no teto. Numa destas pecinhas de nada, existia a despensa para colocar mantimentos e, após, a tal geladeira horizontal. Pois ali, naquele cubículo, por muito tempo minha mãe, que deixara o emprego na fábrica de calçados para cuidar de mim em casa, como devia fazer toda boa mãe, trançava e trançava tiras de couro em volta de moldes de madeira, chamadas formas, compondo o corpo de futuros calçados de trecê, ou tricê como a gente dizia.

Lembro dela com o bico da forma fincado no estômago, pregos delimitando o desenho a seguir, e as mãos maltratadas pelo manuseio do couro, o cheiro mesmo deste material, com toda a química que trazia, enchendo a casa. Um dia, minha mãe não suportou mais a dor no estômago e desistiu do trabalho que acrescentava uns trocos a mais na renda doméstica. Meu pai, ainda por anos, todos os dias, cinco e meia da manhã ainda escura, pegava a marmita que acomodava no bagageiro da velha bicicleta comprada de terceira mão, abria a porta, saía para o leito da rua, se abaixava, colocava, em cada canela, uma espécie de meio anel de aço que segurava as pernas das calças para evitar que o pano enrolasse no pedal ou na correia, e seguia, rua abaixo, assobiando uma música sem ritmo. De tardezinha, voltava, cansado, empurrando a biclicleta rua acima.

Trabalhador. A vida toda. Meu pai de 80 anos foi isso: trabalhador. Esta semana, me contou minha mãe, ele entrou na garagem onde, depois de todos seus AVCs instalamos todas as ferramentas da sapataria que nos sustentou por quase meio século, ligou a lixadeira, ficou olhando para ela, desligou, suspirou e perguntou: “será que eu nunca mais vou trabalhar?”  

Aí, me dá uma revolta quando fico sabendo que um jovem de 20 anos, irmão de um colega de minha filha na faculdade, morreu esta madrugada porque não quis entregar o carro para um desgraçado qualquer que jamais vai merecer um feriado, homenagem ou ser honrado com o nome de trabalhador. Fernando Sauer se foi. Deixou o futuro na Faculdade de Engenharia, deixou a família, foi desembarcado da vida. O infeliz que o matou está por aí, espreitando outros trabalhadores como Fernando, que morava com o irmão num pequeno apartamento e trabalhava para sustentar seus estudos.

Num país governado por alguém que se fez em nome do trabalhador e terá ficado oito anos no trono dos podres poderes de Brasília e numa capital que ficou quase 20 anos nas mãos deste mesmo partido, é repugnante saber que o nome de quem trabalha foi usado (é e será) politiqueiramente. E que se continue perdendo gente decente por causa de bastardos que preferem o caminho das drogas, do roubo e do assassinato enquanto este mesmo partido e seu líder se preocupam em indenizar gente que faz charme dizendo ter defendido o Brasil da ditadura.

Por isso, tanto faz mudar o nome de Dia do Trabalho para Dia do Trabalhador. Para mim, hoje, este é o dia das vítimas do mal e dos poderosos que dele se beneficiam, lamentavelmente.

 (ilustração do site Vieux Métiers)

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