Recebi, faz pouco, de um amigo, um mail com a recomendação, “por favor, repassem, é filha do Natanael da Emater”, na linha de assunto. Abaixo, no corpo do mail, um jpg com a foto de um recém-nascido. Chama-se Natalie E aí já começa a trambicagem: a suposta mãe, Krista Marie, “assina” um drama: que a filhinha nasceu com câncer no cérebro e precisa de uma cirurgia que só será possível se cada um que enviar a foto para sua lista de mail doar 5 centavos via AOL para os infortunados pais. Nada mais: nem número de conta de banco, nem nomes completos. Nada. Fácil cair: afinal, “é a filha do Natanael da Emater”! Quem vai questionar?
Já falei, neste espaço, anteriormente, mais de uma vez, em hoax, o embuste virtual que é primo-irmão do golpe aquele do “bilhete premiado” na “realidade real” em que tantos caíram – e ainda caem! É só colocar no Uncle Google o nome Krista Marie: aparecem 5.500 e tantas páginas em português e 360 mil em inglês! Estejam certos que valem todos os pontos de exclamação redundantes deste texto. Me pergunto como ainda as pessoas repassam e, quiçá, tentam enviar dinheiro para quem nem sabem se existe nestes tempos que correm.
Claro que ali, no embuste de Krista Marie, estão os ingredientes ideais: um bebê frágil, recém-parido, uma doença cruel, a pobreza e humildade dos pais em pedir ajuda etc etc etc. No entanto, depreende-se que quem tem uma certa familiariedade no uso da internet, pelo menos na troca de mails, já recebeu no mínimo uma vez coisa parecida: ou sobre criancinha seqüestrada, doença grave ou coisas milagrosas que os sistemas de pega-spam deixam passar. Eu mesma, há uns dois anos, recebi um mail vindo da África me avisando sobre a morte de um parente de sobrenome Bairros (e toda a família) num horrível acidente e que deixara uma fortuna que, honestas, as autoridades locais queriam me entregar, já que haviam milagrosamente me localizado! Claro que eu deveria cumprir algumas tarefas antes de botar a mão na grana. É o tal golpe dos nigerianos.
Tentei levar adiante a conversa com o notaire (sim, era em francês) que tinha endereço e telefone localizáveis na lista acessada na internet. Mas não adiantou. Meu entusiasmo e falsa ingenuidade não o convenceram e o meu “benfeitor” sumiu. Uma lástima – tanto eu não ter realmente um parente que tenha feito fortuna além-mar e me tenha deixado como única herdeira quanto ter sido péssima investigadora e não haver conseguido mais detalhes da trama que esta conhecida quadrilha ainda propaga mundo afora.
Sempre sou durona e antipática com meus amigos que mandam mails como o de Krista Marie: didaticamente, envio links para provar que eles estão repassando uma mensagem mentirosa, comento que isso acontece mas é preciso estar atento que não é algo tão inocente assim e que, no mínimo, tira tempo útil de quem recebe. Tem gente, porém, que faz mais que isso: cria espaços para desmascarar os hoax. No quatrocantos.com há as lendas da internet que são devidamente esquadrinhadas e examinadas sob a visão da lógica. Vale a pena entrar e ler em especial sobre a carta de uma tal Patrícia, portadora de HIV endereçada aos jovens do Brasil que volta e meia, a exemplo de Krista Marie, vem nos assombrar. E tem o museu dos hoaxes, muito interessante também, que desmascara até aquelas propagandas de emagrecedores que usam photoshop pra engordar modelos e vender milhões de unidades de porcarias que deixam os gordinhos sempre gordinhos e frustados, sem ter como reclamar. Neste site há a história dos hoaxes, os sites especializados em enganação e até testes para ver o que é falso e o que é verdadeiro nesta rede.
Por tudo isso, fico pensando: é tanto recurso disponível na tecnologia de hoje e quase democraticamente na medida para todos que é uma lástima que, por sentimentalismo, preguiça ou ignorância, continuemos acreditando em mentiras e mentirosos. Não só na internet, mas na vida real em especial: nunca falta aquela criatura fraca de caráter disposta a auferir algum lucro, seja financeiro, seja simples reconhecimento pessoal, que adora conspirar. E mais triste é saber que não faltam naîves para cair neste tipo de hoax interpessoal.
E ainda teve a cara de pau (desculpem, não é trocadilho) de dizer que se inspirou no célebre Cerne Abbas Giant de Dorset.
A tal modernidade anda produzindo seus malucos não faz pouco.
Por um lado, ok, vamos desmistificar os órgãos genitais, já está na hora.
Aliás, um pinto desenhado num telhado é algo tão deserotizado que dá vontade de rir, no mínimo sorrir.
O que me impressiona é a alegria do papai do garoto com o feito do Boby Filho, preocupado com a questão de saudar a fertilidade. Olhem a cara de felicidade dele mostrando a foto ao The Sun! É Bibo Pai em pessoa!
Ano que vem, deve desenhar a perereca de mamãe no telhado.
Tudo para aparecer!
E ainda tem quem pague para espiar shows de televisão que se passam em ambientes fechados reproduzindo a vida real! Rory é mais democrático: deixa que se veja do céu o pintão que ele desenhou em cima de sua casinha e que pode ter-se inspirado em pápi, quem sabe!

Este cursor piscando pra mim faz mais de duas horas, está me tonteando.
Já saí e entrei aqui, neste arquivo branco de word, dezenas de vezes, intercalando cada saída e entrada com o mesmo roteiro em blogs e sites do mundo inteiro, além, é claro, de espiar sem parar a minha caixa de correio eletrônico em que, às vezes, pintam assuntos interessantes para tornar públicos. Como sempre, fui ao site do Francis Pisani, minha referência eterna em notícias da web e li seus comentários sobre o lançamento do iPhone 3.0.
Lembrei, de imediato, que conversei com Pisani, por mail, logo que Steve Jobs abriu o jogo sobre o câncer que o tirou da linha de frente da Apple.
Diante de meus questionamentos sobre o que representaria para Jobs esta dramática saída de cena, o jornalista do Transnets me respondeu: “Acho que a situação é duplamente insustentável para ele. Por um lado, sua vida está em perigo e não é fácil para ninguém enfrentar isso. Por outro, ele é tão importante para sua empresa (mais que os chefes em geral) que seu afastamento coloca até sua criação
Pisani tem razão. Mesmo que Jobs tenha criado uma equipe azeitada, que funcione praticamente com a sua cabeça e seu médoto, a saída do líder sempre abala toda a estrutura circundante, em especial se este líder é genial. Claro que ninguém é eterno: chega um dia em que todo chefe, patrão, dono, criador de uma marca, de uma empresa, se aposenta e morre. Porém o baque vem. E fico eu aqui pensando que gente assim, com liderança, inteligência acima da média para criar coisas novas e boas, não deveria jamais adoecer e deveria ter uma vida mais longa e produtiva que a maioria.
Imagino este cara de temperamento anunciadamente insuportável no convívio diário tendo de liberar a outros o anúncio do iPhone 3.0, sem sua presença física. Fico imaginando Jobs em casa, ou num hospital: rico, cercado do que há de melhor em atendimento médico, sem ter de penar em filas de SUS e em hospitais que nem mesmo um cartaz exibem com o endereço da Ouvidoria para que os pacientes possam reclamar das coisas mal-feitas.
Vejo Jobs juntando forças para se manter plugado no império que criou e me dá uma tristeza! A mesma tristeza que me bate quando, carregando meu pai doente, fico em meio a tantas pessoas abatidas, cansadas por longas esperas e viagens, sem iniciativa até para protestar por serem tratadas pior do que gado, mesmo que as explicações oficiais digam que são tratados com cortesia e que não há reclamações.
Alguém pode dizer: dinheiro e poder não bastam para trazer a cura, olhe só o próprio Jobs! De fato. Mas carinho, atenção, respeito, independem de dinheiro.
Na quarta-feira desta semana, levei meu pai para fazer a injeção que a cada três meses ele recebe no Hospital Santa Rita do Complexo Hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre. Enquanto esperava que disponibilizassem as fichas amarelas para marcar a reconsulta para daqui a 90 dias, conversei com uma senhora de seus 40 anos, acompanhada de um menino que parecia ter 10 anos. Ele dizia estar com fome e ela lhe disse que ele teria que esperar que a Liga abrisse, às 14h. A Liga a que ela se referia é a Liga Feminina de Combate ao Câncer, braço da criação nacional de dona Carmen Prudente, faz décadas e que, aqui em Porto Alegre, tem uma sala no Santa Rita. Pois é na Liga que esta senhora e se filho conseguem dinheiro para a passagem e para ela comprar alimentação e suplemento alimentar que possibilite ao filho ganhar peso e se fortalecer. Sim: não era ela a doente que esperava para marcar nova consulta. É o filho.
O garoto tinha 13 anos quando descobriram que o tombo que levara não gerara clavícula fraturada: era um câncer ósseo. Vencida a ameaça de amputação do braço, sobreveio o enxerto de osso retirado da perna, depois as sessões de quimio e radioterapia. “Ele estava com 35 quilos, agora já está com
São estas notícias que fazem a gente menos triste. Assim como a atenção de colegas que trabalham na Comunicação Social e instituições de saúde, como Paulo Burd, que encaminhou ao secretário da Saúde Osmar Terra o mail que lhe enviei com os links do que escrevi aqui, semana passada e também os complementos relatados em meu blog Clínica da Palavra. Atitudes como esta dão esperança pra gente prosseguir bronqueando pelos próximos e, por tabela, por aqueles que não sabem sequer a quem reclamar.
A propósito: a Comunicação do Ministério da Saúde é um blefe. Todas as mensagens que mandei, tanto para a Ouvidoria como para o Contato do Fale Conosco, voltaram por não encontrar destinatário. Que vergonha!
Lamentável que a grande maioria das mídias não saiba quem é Clodovil, sua importância como polemista, anárquico e exagerado em suas atitudes pessoais mas, acima de tudo, um grande criador.
Entende-se a má vontade geral em torno deste sujeito briguento, que foi fechando portas por onde passava, em especial nas toda poderosa televisão nacional. Era mulatinho, beiçudo, não tinha quem sabe tipo físico nem para ser costureiro no entender de muitas madamas e seus bichos muito loucos.
Mas venceu. Ficou famoso. Foi grato aos pais adotivos até o final da vida.
Era recalcado? Possivelmente. Não é fácil ter seu biotipo, ser homossexual e ao mesmo tempo inteligente e destacado. A inveja mata.
Fosse aqui a França, e ele teria sido um Yves Saint Laurent mulatinho, adorado e respeitado. Ficou aqui, danou-se.
Os únicos textos que vale a pena a gente ler são os do Ricardo Feltrin, editor da Folha.
Aproveito o falecimento de um dos nossos, um dos 513 que eu não conhecia. Nunca tive um abraço dele, nunca tive um cumprimento, porque é muita gente. E as pessoas passam umas pelas outras, com as suas pressas e tal.
E eu costumo dizer sempre... Na verdade, eu vou conversar com a senhora dele, dona Cleusa. Eu procurei saber, ela é a segunda esposa dele. Quem deve estar mais magoada a essa altura é a própria esposa dele, porque é a pessoa que ficava com ele na horizontal.
(O Sr. Presidente faz soar as campainhas.)
E na horizontal é como o Deputado está colocado neste momento, mas para o seu final, para o seu enterro. A matéria foi embora.
Queria que a dona Cleusa sentisse o seguinte: o que importa é o que a gente faz em vida, que é o que eu tento fazer aqui, até com essa minha implicância com outros companheiros, porque falta aqui um convívio de afeto, que ela deve ter tido com o marido. Essas coisas, quando acontecem, as pessoas reclamam muito, ficam muito consternadas e tudo. No entanto, é uma coisa que vai acontecer com todos nós. Todos nós que estamos aqui, um dia iremos para esse mesmo lugar.
Eu costumo dizer que sou Deputado aqui dentro. Lá fora, da porta para fora, eu sou uma pessoa que costuma pagar os mesmos preços que todo mundo, porque tudo que acontece aqui reflete em mim também lá fora.
Então, eu gostaria de implantar aquilo que eu tenho procurado aqui, através da dona Cleusa: o amor pelas pessoas. Esse senhor tinha 6 ou 9 filhos, uma quantidade enorme de filhos. Então, que essas pessoas pensem única e exclusivamente...
(O Sr. Presidente faz soar as campainhas.)
Coisas que não estão na nossa vontade, nos nossos desejos, são coisas que estão sempre nos planos de Deus. E os planos de Deus são muito mais importantes que os nossos, porque Ele nos colocou aqui, o universo nos colocou aqui. A vida é uma dádiva. E é o que eu tenho tentado fazer aqui.
Eu queria, com este meu depoimento para a dona Cleusa - é para ela que eu estou falando -, que ela se sentisse não sozinha, mas amparada por alguma coisa muito maior que está a nossa volta. Isso acontece muito nesta Câmara. Sinto energias muito boas, muito, muito boas. Isso me foi dito por outro Deputado que aqui esteve, e é verdade.
De modo que, quanto melhor o carinho na Casa, quanto mais afeto as pessoas tiverem, melhor será a vida, porque nós todos iremos para o mesmo lugar.
Obrigado, Inocêncio. Tenho muito carinho por você, muito carinho por muitas pessoas aqui dentro. E que aqui a gente represente mesmo o País; que nós tenhamos essa chance de não sermos nada, mas simplesmente de representar as pessoas brasileiras, porque nós somos brasileiros todos.
A dor e o sentimento vale para todos.
Muito obrigado.
Fiquem com Deus.

São quase 11 e meia da manhã desta quarta-feira, 11 de março, e a atendente do balcão do ambulatório do SUS do Hospital Santa Rita do chamado Complexo Hospitalar da Santa Casa de Misericórdia, guichê 1, me diz: os médicos começam a atender a partir de 13h30min. Todas são moças educadas, estas atendentes. E sobrecarregadas. Eu havia tentado confirmar a consulta por telefone: SUS não tem perdão! Por telefone, paciente do Sistema Único de Saúde não marca nem confirma consulta. Ponto final. Tem de ir ao hospital, ao vivo e
O mais curioso é que o cartão de identificação do paciente diz, com todas as letras: “o atendimento é realizado pelo horário agendado e não pelo horário de chegada”. Certo? Errado! A medida que se confirma a consulta, a atendente apanha a pasta do paciente e a coloca numa pilha que eu achava estar em uma ordem a ser obedecida para a chamada. Não é.
Quando o médico chega, pega as pastas e, com certeza, embaralha tudo.
Detalhe: o mesmo cartão diz “Chegar 20 minutos antes do HORÁRIO AGENDADO para a consulta. Atrasando mais de 30 minutos, a consulta será remarcada. Não podendo comparecer, avisar com antecedência”.
Ok. Vamos nós. Eu e meu velho. Chegamos cedo. Estamos esperando. Meu pai: 80 anos, 8 AVCs, cardiopata, portador de Parkinson, de Alzheimer e, claro, câncer de próstata - doença esta que, diga-se de passagem, vem sendo controlado a contento não só pela medicação, mas pela disciplina que temos em não deixar de ir às torturas, quer dizer, às consultas trimestrais.
O salão de espera ainda está circulável. Eu não sabia, porque não li em lugar algum, nem vi em qualquer veículo, uma notícia a respeito que seja sobre o fato de que, agora, agora pacientes do SUS com problemas de câncer podem voltar à consulta confirmando esta consulta já a partir de 9h, ali, na boca do balcão. Antes, se chegava ao meio-dia, pegava-se a ficha e aguardava-se a entrada das equipes das diferentes especialidades oncológicas. Teoricamente, essa mudança faria tudo andar mais rapidamente. Não acontece, no entanto.
Então, sentamos, eu e meu pai. Pego um bloquinho, caneta, e vou anotando o que vejo, observando as pessoas
Um jovem homem, magro de dar dó, com os gânglios do pescoço que parecem bolas de golfe, volta do balcão e senta ao lado da esposa, uma jovem grávida.
Uma e meia da tarde. Nada das equipes médicas. O salão fervilha de gente. A atendente pede que todos aguardem sentados, mas não há lugar para todo mundo. Vejo gente dormindo nas cadeiras, cabeça apoiada na parede, o sol já entrando salão adentro, os ventiladores não dando conta de espantar o calor. Um homem, com um olho cego, reclama, coloca a cabeça entre as mãos, cabelos totalmente brancos, magérrimo. Reclama. Levanta várias vezes.
Num espaço acima do guichê de número 1, vejo uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, com seu manto negro bordado de dourado. Na parede interna, um crucifixo.
Ao meio dia e 35 minutos e a moça chamara a ficha 135. Vai a mais de 200 nesta tarde.
Por volta de 14h, começam a chegar os médicos.
Uma moça simples, de Camaquã, que acompanha a mãe, paciente de cirurgia oncológica, me pergunta como se faz para comprar café na máquina. Conta que o ônibus delas sai às 3h da tarde e que elas vão ter de dormir ali, porque não têm onde ficar, se se atrasarem. Serão das últimas as serem atendidas, perto das 16h.
O salão vai-se esvaziando. Vejo gente que chegou depois de meu pai ser chamado para a consulta. Falo com uma funcionária e ela me diz:os médicos estão com as pastas e estão atendendo. Ou seja: ela não tem o que fazer.
Meu pai está impaciente. Almoçou às dez da manhã e há pouco lhe servi um café com leite. É um privilegiado. Tem gente que está
Quase quatro da tarde, chamam seu nome. O salão já está quase vazio. Somos dos últimos. Junto, chamam o nome de um outro portador da mesma doença, um homem do interior, que chegou às 9 da manhã para pegar a tal ficha para ser atendido cedo e está irado.
Entramos. O jovem médico, um residente, pergunta pelo resultado do exame de sangue que exibe o nível de PSA, rotina de todo portador de câncer de próstata. Respondo-lhe que está no sistema, ou seja, no sistema de informática do hospital, ali ao toque de um dedo. Meu Deus: o resultado está diante dele, no computador, é só acessar o nome do meu pai, mas ele se irrita e me diz que eu deveria trazer o resultado em mãos.
Pergunto se é porque é SUS e ele se enfurece. Me chama de tu, me olha como se fosse me botar porta afora, diz que não, que o procedimento vale para todos há mais de um ano. Argumento que há anos trago meu pai à consulta e que nem há um ano nem há menos tempo me disseram que os médicos não poderiam acessar o sistema para ver o resultado do exame. Reclamo da má comunicação da Santa Casa, que não tornou esta decisão pública. Ele me responde, atrevido, que o negócio dele é cuidar do paciente.
Lembro que, faz pouco, eu estava diante da porta da informática, que dá para o salão de espera. Penso: intranet prá quê?
O residente, já aparentemente mais contido, atende meu pai nos dois minutos habituais da consulta de SUS e, na saída, como de hábito, recomenda a volta em três meses e eu acrescento: “então, continua fazendo a quimio?” E ele, rápido: “Não é quimio, é CASTRAÇÃO QUÍMICA, para evitar que o câncer progrida”.
Fico muda. Meu pai, ali, na sua humildade de pobre, uma vida de sacrifícios consertando sapatos, faz de conta que não entende aquela expressão que sempre ouço aplicada para estupradores em tudo que é filme ou enquete de internet: castração química! Que sensibilidade! Estou diante de um garoto humanista!
O jovem doutor nem espera meu pai levantar-se da cadeira e já chama o próximo. Saímos ambos da sala como cachorros sarnentos.
Obviamente, enviei mail para a Ouvidoria da Santa Casa, Sindicato Médico, Cremers e até para meu colega Ivo Stigger (que não me deu resposta, mais uma vez), jornalista responsável pela revista da Santa Casa que em recente edição estampou matéria sobre a equipe de urologia e a importância dos exames preventivos e dos tratamentos.
A Ouvidoria, dia seguinte me respondeu. Parabéns a Dalva Menezes Neto por sua imediata atuação: na mesma data, recebi telefonema da enfermeira Teresa, responsável pelo ambulatório SUS do Santa Rita. Gentil, eficiente, articulada, ela me falou sobre as dificuldades do trabalho, o elevado número de pacientes, a lentidão, as equipes nem sempre completas. Correta, se desculpou pela atitude absurda do médico residente, garantindo que ela seria levada ao conhecimento da chefia e que o moço seria devidamente chamado à atenção.
E mais: me confirmou que este jovem de avental branco, tão cheio de si em sua pose de semideus, não falou a verdade quando disse que há um ano não podia acessar o sistema para ver o resultado do exame de PSA. Ele pode E DEVE buscar os resultados no computador que ali está para isso e para exibir a ficha do paciente, me disse Teresa.
Que vergonha, hem doutor! Mentir com convicção! E me pergunto a razão. Para não perder 30 segundos? Me pergunto por quê alguém enfrenta toda a tortura de um vestibular difícil como este para Medicina, teoricamente para se tornar um profissional voltado a salvar vidas, e termina se mostrando um ser insensível, grosseiro, incapaz de entender sua função.
Como pode ser tão cego e não enxergar o que há em volta: aqueles milhares de doentes, a maioria idosos, pobres, frágeis, implorando atenção e, se possível, na impossibilidade da cura, que minorem seu sofrimento?
Acho que está na hora de as seleções para médicos levarem em conta, além da capacidade de entender de doenças, medicamentos, exames, etc, a humanidade do candidato.
Esta crônica foi publicada originalmente no site Coletiva.net nesta sexta, 13 de março (mais uma sexta-feira 13, seguida, hem, como foi em fevereiro! ). No meio tempo em que a crônica aguardava entrar no ar, recebi um esclarecimento do setor de Laboratório Central, que foi motivo de reclamação simultânea que fiz à Ouvidoria da Santa Casa.
Meu pai, como paciente oncológico da instituição Santa Casa, pode passar direto para a antesala de coleta (eles chamam "colheita") de sangue sem esperar entre os 350 que por dia vão até o Hospital Santa Clara para este fim. Só que, diferentemente do que acontecia antes, após esperar pouco tempo pela chamada nominal, os pacientes aguardam diante das salas com os recipientes em mãos, devidamente identificados e tal.
Contrapus que gente idosa, com recipiente na mão, em geral dá confusão. Mas isso não é o pior: acontece que não há fila, ou melhor, até há, misturada com gente que senta nas poucas cadeiras disponíveis. Tudo parece funcionar bem, até que uma atendente chama O PRÓXIMO. Não diz o nome. Diz apenas O PRÓXIMO. E claro que quem está mais perto de quem chamou levanta e vai. Não está certo.
Ao mesmo tempo, a moça que falou em nome do Laboratório Central diz que oferecem senha de internet para que o paciente acesse e imprima o resultado de seu exame de sangue em casa. Nunca tinha ouvido falar nisso.
E isso contraria o que a enfermeira Teresa me falou, sobre a determinação de os médicos mesmo acessarem o resultado diante do paciente.
Enfim. Tudo esclarecido, mas nada claro. Dias depois, pegando a pasta volumosa em que está organizada toda a vida hospitalar do meu pai desde os primeiros AVCs, emergência, etc, encontrei, revirando a folha que me foi entregue pra apanhar o resultado do exame de sangue, o seguinte: "Chave de acesso: xxxxxxx
Senha:xxxxxx.
OU seja: nem eu, que sou jornalista, prestei atenção nisso porque ninguém me informou. Imagina o sujeito que tem mais de 70 anos, é semianalfabeto, veio na noite anterior de 500 quilômetros riogrande adentro, como é que alguém vai saber o que é chave de acesso e para que serve a tal senha? PELO AMOR DE DEUS? Cadê a comunicação social, cadê os RPs, jornalistas, cartazes, campanhas publicitárias de esclarecimento?
Segue a correspondência que recebi, ou melhor, foi encaminhada à Ouvidoria e a gentil Dalva.
Sra. Dalva
Encaminho a seguir informações relativas à reclamação de familiar do Sr. Waldemar Bairros. Ofereço o Laboratório Central para ser visitado pela reclamante para fornecimento de informações suplementares, eventualmente úteis e ou necessárias.
Atenciosamente,
Carlos Voegeli
Dr. Carlos
Após encaminhamento da referida reclamação, realizei investigação de dados e repasso fatos para seu conhecimento, como segue:
- O paciente Waldemar Bairros realizou seu último procedimento de colheitas de sangue para determinação de PSA no Posto de Colheitas 1-SUS em 05/03/2009, tendo sido cadastrada sua amostra às 09:52h e colhida às 10:13h.
- O procedimento para atendimento de pacientes de quimioterapia, como o caso registrado, envolve atendimento prioritário diferenciado em que o paciente não necessita retirada de ficha de atendimento. Este direciona-se a uma Recepcionista responsável por este atendimento diferenciado, portando seu documento de identificação e sua requisição médica e, então, aguarda em uma sala da Recepção interna, especial, garantindo-se maior maior conforto e agilidade.
Após o cadastro de dados do paciente, o mesmo é chamado por seu nome completo, fornecendo-se seus frascos de colheita identificados com nome completo, código de barras e determinações laboratoriais solicitadas e, só então, é orientado a posicionar-se em uma fila para chamada na primeira sala disponível de nossas 8 salas de colheitas.
Ressalto, ainda, que um novo processo de identificação é realizado na sala de colheitas, quando verifica-se a identidade entre o paciente e seu documento, são revisados os itens de exames solicitados e grafia correta do nome do paciente.
O processo assim descrito foi adotado para assegurar agilidade e qualidade no atendimento, possibilitando atender às normas técnicas e necessidades do grande número de clientes que utilizam os serviços deste Posto de Colheitas ( em média 350 atendimentos por dia). Este processo não sofreu modificação recente e, até então, não tivemos registro de reclamações de outros pacientes.
No que refere-se a disponibilidade de laudos laboratoriais, informo que o sistema adotado para entrega de laudos laboratoriais disponibiliza ao paciente a retirada dos mesmos em nosso Posto de Colheitas, de forma impressa , orientando-se seja a retirada realizada antes da consulta médica, ou, por outra opção, por disponibilidade de senha própria, que oferecemos ao paciente para acesso de seu laudo via internet.
Os procedimentos acima descritos tem-se revelado seguros, eficazes e não tem gerado reclamações dos clientes, naturalmente sempre tratados com cortesia e respeito.
Disponível para esclarecimentos,
Cristiani Gomes de Marques
Supervisora Administrativa
Era o ano de 2000. Depois do textinho de estréia em Osaiti, eu resolvi implicar com a animação, que era uma formiga cortadeira que andava sem parar em cima de minha foto. E escrevi isso:
Tira essa marabunta daí!
Eu ia escrever sobre o olho desconfiado das pessoas, desde que anunciei que estaria atenta aos movimentos da redação para cometer minhas crônicas. Mas não consigo desgrudar dessa formiguinha que caminha na direção da minha foto e, bom, acho que tô ficando um tanto quanto paranóica. Ô, Acosta: tem certeza de que é só coincidência? Quando eu era criança, vi, no cinema Rey, lá na Volta do Guerino(tudo bem, não tem mais o cinema há décadas, mas a Volta do Guerino, que não tem nada a ver com o nosso querido Guê, da diagramação, era o dono de uma churrascaria que tinha li, existe. Mas chega de explicação!), um filme que, se não me falha a memória, se chamava "O Ataque das Marabuntas".
Foi um pioneiro deste tal cinema catástrofe. Uma coisa mal feita mas que, pra mim, guria de subúrbio, impressionou pra chuchu. Nem sei mais da história, mas era alguma coisa que se passava na selva, e as pessoas tinham mexido com as tais marabuntas, umas formiguinhas enormes(pelo menos para quem tinha menos de 10 anos, eram imensas!), de bunda grande, que eram carnívoras e tal. E todo mundo fugia delas e resolveram inundar um lugar para afogar as tipas. Ai me lembro do susto: deram um close na margem do tal riacho e o que as espertinhas estavam fazendo? Subindo nas folhas e fazendo de barco para atravessar a água e ir do outro lado, atacar o povo.
Saí do cinema Rey apavorada. Passei a ver cada formiga que fazia estradinha na parede da cozinha lá de casa como uma inimiga
E agora me vem o Acosta com essa maldita formiga andando em direção ao meu pescoço? Ora, tenha a santa paciência! Se é pressão para eu parar de escrever pro saiti, eu me rendo.
Mas... peraí: olhando bem, parece uma aranha esse bicho! Ih, Acosta, qual é a tua, hem?
Anos depois, recebi um mail de uma moça de São Paulo falando do mesmo filme.
Enquanto não decido o que fazer com este espaço, que, afinal, é parte importante da minha vida, vou trazer para cá meus escritos publicados, durante alguns anos, em um espaço fantástico criado por alguém que, infelizmente, já se foi, e que se chamava Osaiti. O criador é o Paulo Acosta, jornalista que, em 2005, foi arrancado desta vida porque seu humor e sua criatividade faziam falta em outra dimensão que, com certeza, o valoriza muito mais que nesta nossa Terra e neste nosso mesquinhérrimo meio jornalístico.
A crônica que se segue foi escrita em dezembro de 2005, quando eu tomei a força férias que me eram devidas pela Secretaria de Estado da Cultura onde eu trabalhava como Assessora de Comunicação e nunca tinha tempo nem para ...férias. Ela vai como primeira desta série retomada porque eu estava procurando o nome de um colega jornalista que é nela citado. Não encontro as datas para algumas crônicas. Só para as que ele mesmo, Acosta, passou para o blogspot em 2002, antes de eu me ligar em blogs.
Rumo a Paris.
Tô indo. De novo, pro lugar em que devem ter enterrado meus ossinhos em outras encarnações porque de lá não consigo levantar âncora, mesmo pobre de marré marré e, pior, sem ser metida a besta nem a nada. Estou me bandeando pra Paris, tirar o atraso de 3 anos sem férias depois de fazer o circuito Correio do Povo-O Sul-Secretaria da Cultura sem parar pra respirar. Então, nada mais justo que me encher de dívidas e ir para lá, onde ainda hei de habitar numa daquelas águas-furtadas perto do Louvre. Só pra chatear.
Desta vez o motivo da ida é nobilérrimo: ver um show que perdi em Porto Alegre porque estava cumprindo meu dever profissional e, mesmo com ingresso comprado religiosamente antecipado, não pude ver. Vou atrás do Simply Red, no Zenith, um lugar para 6 mil pessoas numa das portas de Paris. Enfim, tem gente que acha loucura, outros besteira, outros nem acham nada. Me importa que eu ache e acima de tudo que esta loucura sirva de incentivo (olha só a pretensão da moça!!) para outros filhos de Deus que, como eu, passaram a vida contanto moedas e, de repente, se dão conta de que podem arriscar e ir buscar o chamado impossível. Pra uns, pode ser um carro importado, pra outros um jantar, uma roupa de grife, um emprego extraordinário, uma antiguidade, uma jóia cara, sei lá. Pra mim, é atravessar o mar em busca de um sonho que pode parecer absurdo de distante e volátil. Mas de que é feito o sonho, afinal? E a gente não paga por ele, diuturnamente? Seja ele qual for, quando se vai em busca de alguma coisa, já se está bancando o preço. Importante é se jogar. E acreditar.
Nao sou boa em materialidades, em consquista de grandes carreiras, salários, etc. Mas acho que em matéria de sonho, posso ensinar um pouquinho, sem modéstia nenhuma. As coisas vão aconrtecendo sem roteirização e a gente ainda pensa que pode definir o que vai rolar: bobice nossa pensar que se planeja o que anda em torno. A vida ainda é mágica, podem acreditar.
Esta semana, a Liana Milanez, nossa eterna Baiana, me entregou textos mimeografados do tempo em fazíamos a Fabico juntas. Estão ali crônicas românticas, bem humoradas, com preocupação com o "social" (e não estou falando em qualidade, mas em temas!). Há pouco, conheci o Severo, jornalista que me intimidava só de ler os livros dele no tempo da Redentora e depois e fiquei faceira de ver que ele é só gente, sem ranços e pentelhações. O Evilázio me escreveu, ele que eu não vejo há uns 20 anos. Fora pessoas que tinham ´saído do meu convívio, como o Lula, o Ari Teixeira, a Núbia Silveira, o Bastos, o Porcello, o Afonso Licks, a Léa Aragon, ih, o Mola, meu Deus, gente que tinha entrado em algum lugar escondido do meu tempo e que agora está perto de mim outra vez. Saudosismo? Com certeza absoluta!
Nesta fase de meio século de vida, em que as lembranças e nomes do passado batem à porta (melhor dizendo, à caixa de correio do mail), em que vejo tanto cabelo prateado em minha volta enquanto trato de colorir o meu ainda numa homenagem aos tempos de paz&amor, em que alguns amigos já são lembrança e nome riscado na agenda e outros retornam, é hora de antecipar Natal e Ano Novo e celebrar o fato de se estar vivo.
Por isso, ademã que vou em frente. E vou mandar crônicas de lá. É só sobrar uns pilas pro cybercafé.







