
Estava demorando, mas veio a crítica dos franceses ao jeito digamos descontraído e afoito demais com que as autoridades brasileiras estão regurgitando informações sobre o mistério do sumiço do vôo 447 da Air France. Eu sabia, eu sabia! Quando vi o anúncio de que Nelson Jobim ia assumir a explicação dos trabalhos investigativos, juro pela minha alma que pensei: ái, meus deuses, aí vem pavonice e conversa demais!
É impressionante como as assessorias de comunicação de caras como Jobim e parceiros com ou sem farda, nestas horas de absoluta necessidade de contenção e prudência deixam o chefe dizer o que quer e mandar ladeira abaixo toda uma possível coerência e lisura no trato com a opinião pública.
Certo, a gente que já vivenciou ou vivencia esta zona de perigo constante que é a assessoria de comunicação social chamada “oficial” sabe o quanto é difícil ser respeitado por alguém que, baseado num punhado de votos, acha que sabe tudo e que jornalista bom é jornalista obediente. Em minha curta (felizmente) experiência na área, assisti a coisas de arrepiar e quando me atrevia a comentar a posição de sabujice de muitos colegas, quase sempre era sutilmente aconselhada a me recolher à minha insignificância. Afinal, se fulano havia chegado ao “poder”, é porque ele sabia tudo, de cura da unha encravada a marquetíngue. Assessor de imprensa? Ah, só pra mandar uma notinha ou fazer uma fotinho, porque o chefe, afinal, tem linha direta com os que mandam meeeeeeesmo nas mídias.
Pois temos assistido a um desfile de absoluta falta de gestão de crise no que toca a esclarecer o distinto público sobre este vaivém de barco, avião e helicóptero em busca de vestígios do vôo, este vai tudo pra Fernando de Noronha, depois não vai, vai pra Recife. E a história da mancha de óleo no mar? Primeiro, era do avião sumido. Agora, não é mais. Também “explicaram” que primeiro os navios iam e voltavam sem parar nem recolher nada porque estavam procurando sobreviventes ou corpos. Depois, passou a valer fazer as duas coisas – procurar gente e restos da aeronave. Quanto aos destroço, também eram do 447, poucas horas depois não eram mais, porém estão sendo recolhidos igualmente. Para serem descartados, como foi “esclarecido”!
Em meio a toda esta desinformação, a gente vê jornalistas tatibitando nas coletivas, fazendo perguntas sem o menor saco, sem a menor pesquisa, a câmera flagrando gente se levantando rindo feliz da vida no final dos desesclarecimentos, sem a menor compostura, como se fosse o anúncio de um baile de debutantes. Quequiéisso, cumpanhêros?
E os especialistas de plantão na programação, respondendo besteiras à altura das perguntas idiotas? Pior: se antes a internet era o terreno que redimia a porcaria feita pelas mídias ditas tradicionais, com a vantagem do imediatismo de som e imagem, agora é uma pasmaceira de dar nojo! Fico com pena mesmo é dos familiares que estão sendo “acolhidos” para receber “todas” as informações e na verdade ficam apenas fuçando na rede e ouvindo as inconsistências que lhes trazem os porta-vozes das autoridades.
Por isso, não me surpreende que Monsieur Pierre Sparaco, expert da Academia do Ar e do Espaço e jornalista especializado em aeronáutica tenha descido a lenha, no Fígaro, nas autoridades brasileiras que, segundo ele, “estão gerindo mal a situação, o ministro da Defesa, em especial, faz declarações demais sobre o assunto, há uma tendência a querer explicar demais a situação, a comentá-la demais. “ Querem mais? Ele fala mais: “há um risco sério de confusão, sobretudo para as famílias das vítimas. Não é deste jeito que as autoridades deveriam agir”. Nos dedos, de régua, sem Celso Amorim que dê jeito – como se desse!
Então, a gente tem direito de perguntar: ministro Jobim e assessoria, leram o que disse messiê Sparacô? Gerir crise, nessa hora, não é só enfiar familiares em hotel fino injetando-lhes, de hora em hora, informação sem sentido, tampouco dar entrevistas para provar que o governo é transparente e nada esconde sem ter nada a dizer de real, que importe. Democracia de informação é divulgar coisa consistente, verdadeira, com credibilidade, sem dar esta sensação horrorosa de embromação que só aumenta a dor de quem não sabe e talvez jamais saiba o que aconteceu de fato com seu familiar ou seu amigo entre o Rio e Paris, naquele trecho que quem fez este trajeto sabe que dá pavor só de pensar que se está preso numa caixa de metal, solto acima das nuvens ou no meio delas e sobre um vazio que aquele mapinha nas costas do banco transforma num minifilme de terror.
Infelizmente, continuamos repetindo o samba do crioulo doido do jornalismo pós-moderno. Vivemos, mais uma vez, o desencontro das informações, a coreografia das vaidades e dos egos e o despreparo quando não preguiça e ou má vontade de grande parte dos jornalistas envolvidos numa cobertura deste porte que deveria conter, acima de tudo, senso de humanidade e desejo deser útil e correto.
Texto publicado em Coletiva.net
Ilustração do blog Encres et Plumes








9 comentários:
Maris.
Não me surpreende se a dona Dilma e o padrinho Lula, começarem a explicar o acidente. Afinal, eleição é eleição. Vale tudo!
Admiro o governo da França, deixar as investigações na mão do seu Jobim & Cia. Será que não conhecem o famoso jeitinho de explicar o que não sabem?
Aquele Beijo!!
maris!
Eu tava sentindo falta desta tua escrita indignada!
Sobre os jornalistas, são eles e o pessoal da Letras(que são "assim")! eu tive uma experiência péssima com o meu curso de Letras, também por abrir a minha boca!
É sempre assim: Quando uma tragédia dá notícia, fala-se à exaustão do assunto não importando a confusão e ou contradição das informações. Se nós ficamos indignados, imagine os familiares.
Beijos e bom fim de semana.
"[...] gente [se levantando] rindo feliz da vida" : o Chirac (o velho Chirac) estava feliz da vida depois da missa em Notre Dame, feliz de encontrar de novo esses velhos jornalistas franceses de conivência.
Maristela, essa falta de respeito não é uma especialidade brasileira. Está dentro do grande liquificador multimediatica de m*.
Ave Maria, Maris...abrir um site é de frente, dar de cara com tanta dor e sofrimento que nem dá mais apra ler.
Acho que precisa-se apurar, primeiro, para depois falar. Até por que a dor de quem perde um ente querido é incomensurável.bjs e dias felizes
Maris,
é impressionante como as pessoas curtem uma tragédia! Lançaram inlusive um site que atualiza ao vivo informações sobre o acidente!
O que tu achou do Lula? Tipo... Se achamos petróleo no mar, tb vamos achar o avião... É muita insensibilidade nesse momento!
Beijos menina
Ola dona Sumida, fazes muito que não vem me visitar...sinto sua falta. Beijinhos carinhosos carregados de energias positivas do outro lado do oceano
Ah não! Fiquei triste com o acidente mas não comento não. Desígnios Divinos, saca?
E jornalistas? Eu até amo uma, sabia?
Beijão.
Olá Maristela
Te vi no twitter atraves de Luis Bento amigo meu...vc esqueceu de mim e meu filhote que adoramos animais e escreveu sobre ele autista?
Abandonei o meu blog de seguida que vc deixou o seu...fiquei muito desanimada com muito que se passou e passa...vc me bloqueou no twitter não sei se porque não quer contacto comigo se porque não me conhece...
Espero que esteja tudo vem consigo e meu nome no twitter é clubeautista.
Beijinhos