Como saí meio despentelhada, da última vez, prometendo voltar quando desse e recebi um monte de mail de gente preocupada, venho cá dar notícias ao mesmo tempo que agradeço pelo carinho de todos.
Este é um fim de ano realmente atípico, para não usar outros termos menos nobres neste momento em que, afinal, estamos cobertos (ou seria tapados, soterrados, afogados em) de esperanças porque, ó, que belo, um novo ano desponta no horizonte da vida.
Ok. Chega de ironias, não quero desandar o lombo de porco de ninguém que deve estar já cheirando no forno. Então, peguemos nossas taças e brindemos.
Minha mãe está estável, quer dizer, a pressão fica ali por 16, 17, 14, 15 - mais ou menos como as bolsas de valores neste ano e nos que verão.
A tontura sumiu, porque tratamos de comprar um remedinho que deverá ser eleito por ela melhor que o Bispo Macedo e a Universal, que ela tanto ama, e chama-se vortix, é pra vertigem, foi a cardiologista da emergência do Instituto do Coração que receitou. Em quatro dias, já mais de uma dúzia me falou que toma este mi-la-gro-so remédio.
Sim. Já marquei o médico cardiologista para começarmos o acompanhamento que dona Luci, por saber mais que todos e ser unha e carne com Deus, a quem ela consulta toda hora e acha que vai descer dos céus para curá-la, acha desnecessário. Afinal, lesão cardíaca antiga, não dá em nada, diz ela.
Quanto a meu pai, que no mesmo dia em que voltei do Cardiololgia com a mãe resolveu enfiar um palito num molar que sustenta a sua ponte móvel e, claro, quebrou o dente, já tem também periodontista marcado. Digamos que este dente quebrado, a ida ao pronto dentário em que a moça cobrou mas só botou um "remedinho", por que eu não tinha (idiota que eu sou, né) o prontuário do meu pai com todo o histórico dos AVCs (imagina, sair correndo para curar um dente num sábado de final de ano e nao lembrar de levar a pasta com todo o histórico...). E quando corri para a Emergência da Santa Casa, com a recomendação da dentista solicitando que apenas imprimissem o prontuário (detalhe: o velho se trata na Santa Casa há 15 anos, e entra e sai daquela emergência do SUS como sócio-atleta), pois a médica com cara de nazista, óculos de fundo de garrafa, rabo de cavalo e vergada ao peso da má-vontade e desprezo pelos pobres que com certeza chefiava o plantão daquela emergência (vazia e calma, por sinal) ouviu o meu pedido, simplesmente me disse, com ar de nojo: "aqui não é lugar de pegar prontuário, aqui é emergência, tem de procurar o médico assistente dele". Nem discuti: médico-assistente? NO SUS? Num sábado pós natal? Hahahahha. Esta médica é comediante, não deve ter pai nem mãe, a infeliz.
Como se vê, foi um belo Natal e pós-Natal.
Mas, dona Luci e seo Waldemar estavam aqui em casa, eu cuidando dos dois, tudo andava bem. Até que, há duas noites, começou o cutuco: minha mãe querendo ir para casa, claro. E eu segurando. Pelas 11 da noite, ela que ama frutas, resolveu comer um pêssego (queria tomar café, mas se deu conta que para a pressão arterial não era uma boa), e entregou uma inocente frutinha para meu pai. Detalhe: andamos, eu e minha filha, cortando até carne para ele, porque ele não tem mais noção de tamanho, e engole uma garfada após a outra e a carne bota inteira na boca, se deixar. Só que minha mãe acha estes cuidados exagerados e entregou o pêssego inteiro para seo Waldemar.
Eu estava no computador, respondendo mails, ele do meu lado. Só ouvi quando ele disse ao Occhi, meu cachorro que está com lesão hepática, sob tratamento severo: "Olha, danado, tu não devia comer isso". Me virei, a tempo de ver Occhi lambendo os beiços.
Perguntei: "Pai, tu deste pêssego pro Occhi?"
E ele: "Tá louca, claro que não!"
Olhei para a mão dele: nem sinal do caroço do pêssego, só um pedaço de guardanapo de papel. Chamei minha mãe. Ela confirmou que entregara o pêssego inteiro.
Pensei: o velho engoliu o caroço. Mas então porque ele disse o que disse pro cachorro que, afinal, eu vi se lambendo?
Bom. Pandemônio formado. Ele negando tudo, a mãe se culpando por ter inventado de comer a fruta, ele furioso, gritando com todo mundo (anda hiperagressivo) e eu olhando o cachorro e pensando: deu pra ele! Imagine um caroço de pêssego no intestino de uma pessoa, quanto mais de um animalzinho.
Tomei um rivotril inteiro e resolvi apagar. No outro dia, minha mãe levantou dedidida a ir embora. O Occhi ameaçava vomitar e não conseguia.
Levei o casal-dureza para casa, varri, lavei casa inteira, varri e lavei calçada e, quando estava no fim da faxina, num banho de suor que assustava até carroceiro que passasse na rua, o celular tocou. Era meu filho, contando: Mãe, o Occhi vomitou um caroço de pêssego.
Pra encurtar o dramalhão: o Occhi está bem, passou o dia comendo papinha porque machucou o esôfago e acho que a sorte é que o caroço não desceu, ficou por ali mesmo.
Como ele dormiu com isso? Não sei. Ficou com o troço entalado até meio dia.
Seria cômico se não fosse trágico, né?
Agora, estamos assim.
Me recolhi aos costumes.
Falo por telefone. Dona Luci sabe que estou aqui se precisar, sabe o que tem e a gravidade. Está lúcida. Eu não tenho como amarrar alguém na minha perna e não sei fazer o gênero durona, que grita, sapateia, e faz o outro fazer o que quer.
Não sou Deus.
Não sei fazer milagres.
Se tiver de correr para emergência, corremos de novo.
E hoje lembrei de um filme que amo, que se chama Stanno tutti bene, do Giuseppe Tornatore, um dos últimos filmes que fez o maravilhoso Marcelo Mastroianni. Mostra a viagem de um viúvo de sua cidadezinha até a casa dos filhos, sua perplexidade com a vida que ele não conhece, e a volta para sua solidão.
Esta cena abaixo pode parecer triste demais para muitos.
Para mim ela é linda, de uma profunda e misteriosa alegria - a alegria dos velhos que se descobrem plenos, quites com a vida, com suas responsabilidades, sem ter de provar nada nem a eles nem a ninguém.
Queria que minha mãe e meu pai tivessem esta sensação. Mas, como já disse, não sou milagreira.
Já comprei meu Rescue, hoje, tomei mais uma dose única da minha homeopatia pra não perder a voz de estresse de novo e vou tocar minha vida.
Porque hoje é 30 de dezembro de 2008, mais uma folha do calendário está virando e eu tenho de cumprir minha sina.
Como todos vocês.
Então, beijo-os todos e até o ano que vem.
Porque, mais ou menos felizes, mais ou menos sãos, mais ou menos endinheirados, mais ou menos esperançosos, estamos todos bem.

















