
Martins Camiseiro. Durante anos e anos, eu cruzei frente ao casarão de esquina, na avenida Cristóvão Colombo com a rua Dr. Timóteo. Fazia parte da paisagem e da minha vida, embora nunca tivesse ali entrado, conhecido quem ali trabalhasse ou o que, na verdade, fazia Martins Camiseiro. Mas achava o nome poético.
Me levava a lembrar de tempos em que mulheres zelosas espanavam, com escovas pesadas, os ombros e as costas dos paletós dos maridos (onde andarão estas escovas?) para retirar poeira, caspa, fios de cabelo. Numa época em que não se lavava roupa todo o dia e em que lavanderia era luxo dos luxos.
Martins Camiseiro me lembrava, também, de camisas brancas, de tecido encorpado, imaculado, engomado, em homens alinhados e que, mesmo pobres ou remediados, cuidavam muito em manter o colarinho duro, pontudo, apoiando a gravata. Lembro de ouvir falar que se mandava virar colarinho puído, assim como punhos gastos destas camisas tão estimadas. Será que na Martins Camiseiro se fazia isso?
A vida correu. Eu vim morar perto da Cristóvão Colombo e da rua Nova Iorque onde uma casa de larga frente me chamava atenção em um dos lados da rua praticamente tomado por edifícios. É uma casa toda coberta de pastilhas em branco e azul, telhado de cumeeira, como eu gosto, com um jardim nem grande nem pequeno, poucas flores, alguns arbustos.
Ali eu sempre vi, ao longo dos anos, um velho homem, encurvado pelo tempo, calças em estilo social seguras por suspensórios, camisa e tênis confortáveis. Ele cuidava do jardim, e me intrigava ver que ele não tinha pressa nem de arrancar as ervas daninhas tampouco de plantar novas mudas. Ia no seu ritmo. Que era firme, apesar da idade.
Também o via atravessando em direção ao mercadinho, próximo, para comprar pão e leite. E, o que mais me encantava, o via passeando com a esposa, idosa como ele, os dois de braços dados, tão parceiros, tão unidos naquela velhice ainda produtiva e que sempre me pareceu feliz.
Anos depois de estar morando neste lugar eu soube que aquele era o seo Martins, ele mesmo, o dono da Martins Camiseiro. Que já tinha sido fechada, não sei dizer quando. E que ele era dono não só da casa branca e azul pastilhada mas também de uma velha casinha ao lado, que foi desmanchada e deu lugar a um prédio estreito, de altos e baixos, em que muitos escritórios abriram e fecharam. Agora, abriga uma chocolataria.
Como a terra e o tempo são circulares (quem duvida?), um dia, meu filho, que comprara seu primeiro carro, precisando de garagem foi avisado que a esposa do seo Martins estava alugando box nos fundos da casa. Feitos os devidos contatos, uma noite, toca o telefone, eu atendo e uma mulher disposta se parou a disparar perguntas sobre quem era aquele candidato à vaga no box. Conversamos muito. Mais de uma vez, porque ela era boa negociante, queria uma definição sobre o aluguel, fora todas as informações sobre o interessado.
O negócio não se concretizou. Continuei vendo o casal à distância. Ele a cada dia mais encurvado, lento. Ela tentando acompanhá-lo.
Como coincidências não costumam ter limites nem avisar que chegam, minha filha conhece, também, o neto do casal, arquiteto, que se especializou na arte do mosaico na Itália. E o casal voltou a ser assunto em nossas conversas familiares.
Até que, um dia, me disseram: seo Martins faleceu.
Fiquei pensando naquela senhora, sozinha no casarão – mais tarde eu saberia do filho solteiro que a acompanhava, e de uma zelosa empregada, amiga de muitos anos, que dela cuidava.
Há dois meses, precisei encontrar um novo lugar para deixar meu carro e o zelador do prédio colado à casa de azulejos brancos e azuis me indicou dona Naza. Sim, esse era o nome da viúva de seo Martins.
Tomei coragem, toquei a campainha, a sorridente empregada me atendeu, disse que falaria com a dona da casa sobre meu interesse em relação à vaga. Voltei 15 dias depois, de novo chamei e me atendeu à janela a própria dona Naza. Era noite. Mas ela não se intimidou. Me fez passar por uma bateria de perguntas, questionando ser eu mesma aquela que pedira para reservar o box. Até que se convenceu e me fez rir ao dizer: ah, então é a senhora mesma. É que minha empregada faz muita confusão!
Ato contínuo, abriu a garagem com o controle remoto e me fez entrar e guardar o carro na hora.
Entrei, ela se postou, sentada em uma cadeira recoberta com uma colcha, diante da porta da cozinha, no amplo pátio de fundos e passou a me comandar: quem sabe entra de ré? Mais pra direita. Agora tá bom.
Não resisti. Desci do carro, puxei o banquinho diante dela, e fiquei mais de uma hora conversando.
Me encantei com a inteligência, a lucidez, a graça da conversa daquela mulher decidida, que foi desfiando sua história, a morte do seu “velho” que tanta falta lhe fazia, tudo o que passara com as “cuidadoras”, os custos do “home care”, os problemas na coluna por ter dormido mal, durante semanas, acompanhando o marido no hospital.
Falamos de jornalismo, dos conhecidos em comum, dos filhos que tanto orgulho lhe davam, da irmã que ela tinha e que fazia crochê com perfeição, do quanto ela gostava de plantar temperos na horta, de tudo um pouco.
Me despedi prometendo voltar para outro papo. E para apresentar minha filha, amiga do neto querido e admirado por ela. E fiz isso, uma tarde, quando fui pagar os primeiros 15 dias de uso do box.
Dona Naza me fez entrar na ampla cozinha, elogiou minha filha e, veloz, sumiu por uma porta voltando com um lindo xale de crochê feito pela irmã, para me mostrar que o que me contara, na primeira conversa, era verdade.
Nunca mais consegui sentar e conversar com dona Naza.
No entra e sai da garagem, não mais a vi e achava que ela estava ali, naquele quarto, em cuja janela me atendera pela primeira vez.
Nesta sexta-feira, encontrei o filho, perguntei por ela e, surpresa, soube que estivera mal, na UTI, que sentira muito a falta do marido, que se desgastara nas longas noites de cuidados com ele, mas que estava bem, tinha se recuperado e breve voltaria para casa. Mas eu tive uma sensação estranha quando, à noite, lembrei que, na quinta pela manhã, havia descoberto quatro rosas imensas, cor de rosa, que haviam aberto no fundo do pátio.
Hoje, sábado, quando saía da garagem, vi uma movimentação estranha e uma moça que saía, cabisbaixa, pelo corredor lateral. Perguntei por dona Naza. “Ela acaba de falecer, me disse.Foi uma parada cardiorespiratória. E estava lúcida.”
Tão triste ouvir isso!
Tão triste saber que eu poderia ter tirado 15 minutos da minha correria para ouvir mais histórias de dona Naza e não o fiz.
Tão triste lembrar que ela disse, no dia em conversamos longamente e o filho chegou, que ela estava tão triste e que eu tinha chegado e conversando com ela, ela tinha ficado mais alegre.
E agora? Quem vai admirar aquelas rosas que estão lá, na chuva, no canto do jardim?