•Terça-feira, Setembro 30, 2008

Se alguém me dissesse que eu estaria, hoje, falando sobre meus 56 anos, eu diria: ah, pára com isso! Ainda tenho 15. Tenho 20. Tenho 30.
Chegaram. Estão chegando.
Há uns dois anos rompi a tradição iniciada aos 40 de comemorar o que nao comemorava tão prazerosamente nem aos 15.
Foi uma fase interessante, grandes grupos, lugares diferentes, um restaurante de frutos do mar em que levei um colchão de chocolate e champanhe e ainda dei discurso.
Outra vez, numa churrascaria, eu vestida de roupa estilo indiano chique, se é que existe isso, preta com flor colorida, crepe de algodão, depois dancei até amanhecer, comemorando 50 anos.
Teve uma especial, em Paris, no la Durée, triste, abatida, cheia de culpa por estar longe de pai, mãe, filhos, comendo macaron como quem engolia fel.
E a melhor: uma balonê, com uma apresentação especial da banda em que meu filho era guitar man, a Acqua Play, com direito a interpretação de Stars, do Simply Red, só pra mim.
Ih. Nem quero lembrar mais.
Nada disso importou. Ou quem sabe importou demais e nada mais vai igualar.
A falsidade de querer segurar o tempo é ridícula.
Hoje, cumpro burocracias.
E amigos me cobram jantar, chazinho, café ao menos.
Não quero.
Dia desses, minha filha me cobrou: saías de noite com aquele bando de 100 pessoas, juntando o aniversário da raquel sager, que comemora comigo, e depois, no findi, ainda tinha saúde pra arrumar a casa e dividir tortas, salgaddinhos, alegrias com tias, primas, filhos, amigos de filhos.
Aquela fui eu, uma vez.
Já não sou mais. Nem sei o que sou, o que sobrou daquela.
Tenho urgência em ir virando a folhinha.
Em caminhar para o cumprimento final deste monte de cláusulas, falsas alegrias, entusiasmos que se partem a uma crítica do tipo mãe, você tem de fazer terapia, você não tem amigos, briga com todo mundo.
Como dizia minha avó Zeca, chegou o tempo de os postes mijarem nos cachorros.
Já achei engraçado isso. Agora, me dói.
Não vejo mais lugar pra esta criatura naif que sou neste mundo.
Tenho pensado em fechar os blogs e em ir morar numa cidadezinha sem acesso de internet, sem celular, com um bangalôzinho encostado numa buganvília roxa, cerca com flor de cera, pé de manacá na janela de fundos, um varandão em volta da casa, cadeira de balanço com manta de lã por cima, estrela perto de se pegar com a mão.
E inventar lembranças. As que eu tenho, boas, não cabem numa mão.
Por isso, quinta-feira, dia 2, pensem em mim como uma resistente da vida.
Não me mandem abraços, não esperem nada simpático por aqui.
Só meu silêncio.
Só minha decepção comigo.
Ainda bem que existe rivotril.
Nosso mundo está ficando bem, mas bem pequenininho, mesmo.
Com exceção de algumas aldeias indígenas ainda não tornadas públicas (mais porque os habitantes não querem, já que o satélite pode tudo) e raríssimas exceções entre intelectuais, em especial jornalistas, que torcem o nariz para celular, a tal da aldeia global está cada vez mais interligada.
Me divirto vendo papeleiros conversando animadamente, ao telefone, empurrando as carrocinhas em meio ao trânsito assim como me encanto em ver gente de mais de 70 anos contatando amigos por MSN.
Chiem os saudosistas. Brindem os que ainda conseguem se entusiasmar com o que já se torna banal.
Pena que toda esta versatilidade, esse boom tecnológico não seja acompanhado de uma semelhante onda de integração humana. Nos afastamos. E não vamos culpar as maravilhas da computação, da nano isso e aquilo, dos Steve Jobs e dos Bill Gates da vida.
Exagero eu? Vejamos um teste rápido: pare agora mesmo, e pense, em quantas pessoas você amou de paixão, foram alvo de declarações de amizade eterna, aquela tia especial que fazia com que você risse sem parar e lhe enchia de puxões na bochecha com um tipo inesquecível de amor. Ou então aquele professor que foi o único que acreditou que você era capaz de se sair bem na prova final e não deixar mãe e pai de beiço caído de decepção porque teriam de explicar aos vizinhos que você “rodou”. Há quanto tempo você não procura estas pessoas? Ou pensa nelas?
Tanta coisa vai se acumulando em nossa vida, com valor real e sem moeda de troca, mas só notamos sua importância quando a curva da longevidade começa a descer em direção ao marco zero.
Tudo isso conto porque, nesta quinta-feira, deixei o medo da violência nas ruas do Centro à noite e fui até a Casa de Cultura Mario Quintana para a comemoração de seus 18 anos. E, meio xucra depois de ficar muito tempo sem sair e contatar gentes, custei a me acomodar, a enxergar rostos queridos em meio aos desconhecidos.
Enquanto tentava me recolocar no grupo, fui relembrando a primeira vez em que lá entrei, em meio às obras, ciceroneada pelos arquitetos que formatavam o lugar. Pisando em táboas soltas que, depois, seriam o piso do teatro Bruno Kiefer, me senti perdida e , ao mesmo tempo, deliciosamente assombrada com o tamanho da iniciativa e da beleza do que estava por vir a partir da beleza do que já era: o edifício do Majestic.
Ontem, vendo os tapumes que pretensamente envolvem obras de reformas, e vendo o esforço dos integrantes da Associação de Amigos da Casa de Cultura, que tocam o barco tirando água de balde para que ele não afunde, fiquei triste. Não acredito que a iniciativa privada, uma Vale, uma Braskem, uma Gerdau, uma Aracruz, não enxerguem a grandeza do gesto e o retorno em imagem e, claro, dividendos, caso invistam uma parcela mínima de seus lucros na reforma daquela casa linda e tão importante para nossa memória e nossa cultura.
Do governo, não espero nada. Vi de perto este filme do cobertor curto da grana e da falta de vontade política para resolver situações do patinho feio que é a cultura. Hoje, minha esperança está nos capitalistas que estão crescendo tanto e tão bem, felizmente, com este governo que um dia se apresentou como socialista.
Estamos, agora, prontos para exibir nossos iPhones comprados em casa. Tecnologicamente, chegamos ao topo. Quem está trazendo a engenhoca lindinha para cá está no topo. Teriam estes poderosos, bons do marketing, criativos, estruturados, quem sabe, sensibilidade para lançar uma olhada para a Casa de Cultura Mario Quintana, entrar em contato com a Associação de Amigos e fazer daquele local o real e merecido cartão-postal cultural desta cidade?]
(postado originalmente em Coletiva.net)

Sem querer melar o fim de semana de ninguém, muito menos o meu, estou aqui, me perguntando, a razão pela qual algumas pessoas se dão superbem na vida sem terem nada a oferecer a não ser a capacidade de ascender socialmente como parasitas, aprendendo rápido a fazer caras e bocas, a ser "apresentadora", "atriz" e outras profissões tão dignas que não merecem estas coisas grudentas.
Falo isso porque leio na Folhaonline sobre o atual estado de espírito deplorável desta mulher, que, a exemplo das marias-chuteira que grudam em jogador de futebol (e ela faria isso mais tarde), Adriane Galisteu era das que grudavam em pilotos de corrida. E entrou no vácuo de Ayrton Senna que conseguiu sugar até depois de morto, quando cometeu um livro em vingança ao fato de não ter sido "convidada" para aparecer como primeira-viúva (em seu lugar, foi Xuxa, outra espertinha que colou em Pelé também) no enterro do piloto.
Dentuça, com cara de várzea, Galisteu emagreceu, fez lipos e plásticas, ajeitou aquele cabelo horroroso e os dentes que pareciam uma cerca caída(com muito dinheiro, o que não se arruma?) e casou com Roberto Justus, o que, convenhamos, já é algo que supera toda e qualquer linha de possível bom senso em quem é alpinista de fim de linha.
Depois, apareceu sem calcinha, com peito (murcho) de fora, cara de louca, faturando até em cima do irmão que morreu de Aids.
Agora, ela chora porque Silvio Santos não gosta dela!Que coisa!
Mas o pior não é isso: ela chora porque pode ficar na geladeira ganhando só QUINHENTOS MIL REAIS POR MÊS!
O que, reconhece, não é problema, porque FATURA MUITO MAIS COM COMERCIAIS.
Ó, Senhor! Até quando a injustiça no mundo??????
Tanta mulher legal, por aí, estudando e trabalhando pra fazer uma carreira decente e quem anda por aí, em outras carreiras, ainda reclama que não vai ter vitrine para exibir sua falta de talento e sua cara de pau imbatível para se dizer, ainda, "profissional".
Bom, profissional ela é mesmo! De outras coisas que, na maioria dos casos, cobre mal e mal as despesas com quarto e a parte do "agenciador". Só que estas profissionais conhecem seu papel no mundo. Dona Galisteu ainda não acordou.

Era fim de 1978, ou começo de 1979, não lembro mais com clareza. Só sei que eu estava barriguda pela primeira vez e que ainda não sabia se teria menino ou menina. Mas intuía que seria um guri. Nomes, para o primeiro filho, tinha muitos. Decisão, nenhuma. Fabrício. Bernardo. Thales. Devia haver outros, mas se foram, no tempo.
Um dia, caminhando em direção à redação da Folha da Manhã, ia eu, para minhas lides de variedades, quando, no chão, vi um pedaço de jornal, voando. E um nome: Lourenço Diaféria.
Eu já era jornalista desde 72. Já andava pela tal área cultural este tempo todo. Sabia que aquelas receitas que o Estadão publicava assim como as poesias de Camões não tinham a ver com estilo, eram deboche com a censura. Mas não sabia de Lourenço Diaféria.
Não. Não havia internet na época. A gente fazia pesquisa, no jornal, em recortes de jornal, laudas antigas preenchidas com biografias, artigos, fotos amareladas, tudo guardado em pastas de papelão, cheias de códigos, identificadas, guardadas em gavetas de arquivos de aço, barulhentos.
Entrei no jornal e pedi a pasta de Lourenço Diaféria. Não tinha muita coisa. Mas tinha lá algo sobre uma crônica que ele escrevera e que terminara lhe enfiando na cadeia. Na hora, nem entendi muito, porque era uma crônica elogiando um militar e os militares o tacaram no xilindró! Ok! Eu era mais lenta! E estava grávida, sabem como é, os hormônios e tal.
Mas o nome dele me entrou alma adentro. Lourenço seria o nome do meu filho. Estava decidido!
E assim foi feito!
Hoje, o dia ficou cinza de triste porque o homem que emprestou seu nome para meu filho que não se tornou escritor mas é um músico maravilhoso, morreu.
Não faz muito, reli seu livro A Morte sem Colete, já dos anos oitenta, crônicas curtas sobre as feridas da nossa sociedade, que sempre o preocuparam. Mas tudo tão simples, tão a gente, tão próximo, triste mas ao mesmo tempo engraçado. Assim era o escrito de Lourenço Diaféria.
Lourenço Carlos. Ou, como ele mesmo se apresentava: "vulgo Juquinha".
Tinha só 75 anos. E um coração fraquinho. Que merda!
Só ficam os medíocres que se acham escritores, enchendo páginas e páginas de jornal, todas as semanas, com suas idéias de jerico, tendo orgasmos múltiplos quando aparecem na lista da Veja.
Argh! Não vamos conspurcar a memória de um CRONISTA com letras maiúsculas com toda esta gentalha.
Lourenço Diaféria morreu. Viva para sempre Lourenço Diaféria. Que sempre vai viver também através do nome que dei a meu filho.

Essa menina da foto acima vê o mundo a partir de uma cama, quase sempre na horizontal, quando muito de uma cadeira especial em que a mãe, Odele, a coloca para pentear os cabelos de princesa, acariciar a pele doce, olhar os olhos que fitam sem conseguir expressar o que sentem.
Essa menina está há dez anos no limbo da entrevida. Porque o carinho, o amor, a dedicação de uma mãe vergastada pela injustiça de toda uma situação, desde um maldito ralo mal dimensionado de piscina que sugou seus cabelos até a indiferença malsã dos detentores do poder, continua sustentando, com seu sopro vital, a vida de Flávia.
Você, aí, que está sentado frente ao computador, fazendo muxoxo porque o final de semana terminou e tem de começar aquela tarefa desinteressante, vigiado por chefia medíocre e cobradora.
Você, que se debruça diante de um closet entediada porque não sabe o que vestir ou calçar.
Você que se rói de inveja porque a mulher do colega do seu marido acaba de ganhar de presente uma Maseratti enquanto você mal atingiu o estágio da Mercedes esporte.
Você que não quer ir para a faculdade porque saiu uma espinha na testa.
Você que bebeu todas durante todo o fim de semana e agora se lamenta de tontura e falta de coragem de concluir o projeto a ser entregue no final da tarde.
Você que sofreu mais uma desilusão com o namorado que parecia ser o príncipe encantado e se revelou uma barata.
Todos nós, que fazemos da lamúria uma razão para ir vivendo e ainda temos a cara de pau de alegar que Deus dá nozes para quem não tem dentes e outros quetais.
Mire-se no exemplo daquela mulher que não deixou que cínicos e desinteressados lhe quebrassem a coluna e continua lutando pela justiça que ela e Flavia merecem.
Voltemos todos nossa atenção para Odele e Flavia, hoje. E, pelo menos hoje, vamos acreditar que a força de muitos pensamentos pode, sim, mudar uma situação tão vexatória quanto esta da justiça brasileira.
Foco em Brasília, naquele palácio feito para teoricamente, eliminar a injustiça do Brasil.
Foco nos senhores juízes, em suas equipes.
Foco, até, neste homem que chegou ao trono do poder maior deste país e que teve na palavra justiça sua bandeira de luta a ponto de convencer tantos sobre seu valor.
Vamos acreditar!
Bendita e santa internet, Batman. Foi o que escrevi num mail para uma pessoa querida que há muito não vejo e que eu tinha encontrado, en passant, numa das ocasiões em que fiz parte da tribo do orkut. Pois esta pessoa me reencontrou novamente, por aqui, pelo Coletiva, e me mandou uma longa mensagem. Claro que me comovi. Esta criatura faz parte de uma fase muito especial da minha vida, lá dos primeiros anos da década de setenta, quando eu começava no jornalismo, e era tão, mas tão magra, que o Celestino Valenzuela, que fazia parte do Sala de Redação (que eu ajudava a produzir) me apelidou de Desenho - eu não devia ter nem perfil, imagino!
Pois a internet tem disso: nem que a gente fuja dos tais sites de relacionamento, se postar um comentário em algum lugar e deixar lá o nome completo, ou se tiver um blog ou escrever para um site, com certeza, vai ser encontrada. Quanto aos chatos, se deleta ou bloqueia. Tudo tem solução.
A única coisa que é insolúvel, em especial na correspondência eletrônica, é a síndrome do envio sem pensar duas vezes. E como tem gente que faz isso! E, claro, depois se arrepende.
Antes, era mais seguro: se escrevia um bilhete ou uma carta e se ia reler linha por linha o conteúdo. Uma. Duas. Três. Dez vezes. Deixava-se tudo aquilo repousar, de preferência dentro de um livro bem grosso, para depois envelopar. Mais tarde, tinha de comprar selo. E – passo mais xarope do processo – precisava ir até o Correio. Então, dava tempo de evitar fazer uma besteira devidamente documentada, quem sabe para sempre, uma confissão, uma babaquice ou uma briga que passaria de mãe para filho, de filho para neto e terminaria sendo motivo de riso ou crítica décadas depois. Agora, tem o mail. É escrever e meter o dedão na tecla enviar. Assim, ao sabor da emoção.
Já fui vítima deste impulso várias vezes. Numa destas, fui vitimada pessoal e profissionalmente: eu estava publicando uma coluna semanal no Jornal do Comércio, graças ao apoio da Maria Wagner, minha amiga e parceira de tantos trabalhos. O tema, que eu propusera, era radiografar lugares e pessoas de Porto Alegre, com humor e humanidade. Na terceira colaboração, falei da fauna do Bar do Beto, das paqueras, daquele universo peculiar. Alguém, escondida atrás de um nickname, se ofendeu, escreveu uma crítica feroz e encharcada de preconceitos e de maldade à minha história e mandou direto para Pedro Maciel, diretor de redação, que a encaminhou para Maria, a editora, que me encaminhou para eu dar uma resposta. E eu, furiosa, dei, à altura da missivista misteriosa. Que, por sua vez, encaminhou o que escrevi de novo para Maciel, ameaçando cancelar sua assinatura do jornal. E adivinhem quem dançou?
Claro que eu poderia ter evitado este fato desagradável se tivesse sido uma moça bem comportada e não respondido com tanta franqueza para a tal criatura acobertada pelas sombras e sabe-se lá a serviço de quem. Mas fui no impulso. Burrice minha, eu sei.
Ainda vou neste embalo do momento. Mas já consigo reler mais de uma vez o que vou mandar via mail assim como o que vou postar nesta bendita e santa internet! Este texto está com cara de auto-ajuda? Podem criticar: não vou responder no impulso. Acho que não!
(Em Coletiva.net)
A cena ficaria melhor se enquadrada por uma câmera. Mas vou tentar descrevê-la, assim como o impacto que me causou. Era a porta da sacada lateral da parte de cima de uma casa antiga, dessas casas com parquê de motivos geométricos, onde funciona uma plotadora. O dia era de chumbo, de frio repentino, embora anunciado, que se seguiu ao calorão desta semana. A visão que se tem da porta da tal sacada é destas coisas deprimentes: a parede de um edifício construído quase junto, com a área de serviço sórdida, exibindo uma tábua de passar roupas com pano queimado, parecendo sujo, a vassoura encostada num canto, uma plantinha semimorta na janela basculante.
Mas o que vi me deixou parada, viajando na cena.
Ao lado da área de serviço manchada de mofo, havia uma janela. Ampla. Com venezianas, coisa que eu acho fundamental em qualquer janela – abomino estas persianas de plástico que sobem e descem e fazem as aberturas parecerem boca banguela, sem graça, sem moldura.
Então, havia a janela com venezianas que um dia foram cor de gelo, agora são encardidas, e estão caídas para o lado. As venezianas estavam totalmente abertas e as vidraças, de guilhotina, fechadas. Uns três adesivos estavam colados pelo lado de dentro das vidraças que deixavam ver, de forma muito nebulosa, que, na parede de fundo do apartamento, havia quadros.
Um lustre de vime, de cor natural, com lâmpada amarelada e fraca, iluminava o ambiente. Mais para dentro, meio no escuro, havia uma mulher, de seus 50 anos, sentada, de frente para a janela, eventualmente conversando. E, bem junto à janela, quase de costas para a rua, havia uma mulher de cabelos prateados.
Ela segurava, com as duas mãos, que revelavam dedos nodosos mas pele lisa e boa, um livro.
Um livro quase de bolso, com letras miúdas, páginas de papel branco.
A mulher que lia usava óculos presos a um cordão preto, que descia pelo pescoço até onde se via do colo.
Ela virava o livro para a luz que vinha da rua e, do lugar de onde eu a via, parecia que ela adorava o livro como se adora uma divindade, um amuleto que se ergue para melhor admirar ou obsequiar.
Ela lia e eu me encantava com o quadro que via naquela manhã cinzenta. Várias teorias me visitaram: a mulher seria uma antiga professora aposentada, talvez de português, morando com a filha. Seria amante da literatura que, mesmo com os olhos cansados e a pouca luz da sala, não abandonava.
Ou, quem sabe, seria uma solteirona romântica que vivia suas fantasias através de edições açucaradas, histórias de princesas, de romances medievais.
Ou seria então...
De repente, a minha musa de idade avançada larga o livro e eis que ergue, com a mesma determinação que empunhava o misterioso livro, em direção à luz do dia, um exemplar da revista Caras! Que ela passou a folhear com interesse!
Não sei se me choquei mais com a quebra do clima de sonho e com a decepção por este ecletismo de leitura ou com a minha própria reação cheia de preconceitos: afinal, quem não gosta de ler uma fofoquinha sobre a vida das celebridades? Qual a razão para a velhinha da minha manhã não gostar desta leitura de entretenimento?
Mas, o melhor estava por vir: ela simplesmente, naqueles 30 minutos em que esperei por uma plotagem, alternou, mais de uma vez, os dois objetos de leitura, com um ar de total indiferença, como se o livro fosse continuidade da revista e vice-versa.
Nunca vou saber quem era aquela mulher, qual o nome do livro que lia, do que tratava a leitura, se ela gosta de ficção ou de biografias, tampouco o que fez ou faz na vida. A pessoa real, aliás, não me interessa.
Fico com a pessoa de sonho que me ajudou a passar, mais rapidamente, minutos de uma manhã de chumbo, triste, sem graça, me obrigando a tirar o pé do real e a exercitar minha imaginação, de há muito desbotada como as venezianas que a emolduravam.
(também em Coletiva.net)












