•Domingo, Junho 29, 2008
Eu queria começar a semana com um post legal, positivo. Cheguei a pesquisar a história do pai que concorre, há anos, em triatlo, carregando o filho de hoje quarenta e tantos anos portador de paralisia cerebral. Este é um exemplo absolutamente maravilhoso de amor paternal e de superação. Vi no Fantástico e fiquei me sentindo a pulga do cocô do cavalo do bandido com minhas choromelas.No entanto, à tarde eu havia visto, num programa da Record, um concurso para meninas de "comunidades" destinado a "descobrir" novos corpos para as passarelas e para o tal mundo fashion. Contra o qual nada tenho - a não ser o fato de colocar ninfetas se expondo, mundo afora, tudo em nome do sucesso, da "beleza" e desta coisa etérea e cada vez mais indefinível que se chama talento.
A intenção pode ser boa - dar oportunidade para uma pobre garota de favela e, por conseqüência, para toda sua família. Mas me deu mal-estar ver aqueles bandos de meninas (na faixa dos 13, 14, 15 anos - apenas uma disse ter 20) produzidas da melhor maneira possível com aquele olhar entre medo e esperança de ser "a escolhida".
Meu Deus! Vamos ser honestos e realistas! Quantas, destas que andam por aí ganhando zilhões em troca de algumas horas de "sacrifício" em estúdios ou ao ar livre saíram da pobreza absoluta e "chegaram lá?" Quem falar Luiza Brunet, que adora relembrar que foi empregada doméstica, me perdoe, mas está enganado: ela não saiu da cozinha para os flashes. Foram muitas e muitas "relações" até ser como se adora dizer descoberta.
Há exatos 11 anos, época em que eu era colaborada freqüente da revista Cláudia, eu via aquelas matérias ditas "humanas", feitas por jornalistas free lancers como e que eram do tipo "minha cirurgia plástica" e outras quetais. Pois resolvi oferecer uma pauta diferente: eu faria, sem revelar que era para uma reportagem, um curso de modelo e mostraria os bastidores desta procura pelo lugar ao sol, algo que no final dos anos 90 estava começando a virar mais que moda no Brasil. Eu tinha 44 anos.
Durante duas semanas, freqüentei, como uma candidata qualquer, o curso de uma moça que já tinha tido sua breve fase de sucesso nas passarelas e estava já entrando na curva do sumiço. Mas era o único curso disponível então.
Eu ainda resolvi participar das duas turmas - a da noite e a da tarde, para ver como era cada uma e como cada uma delas reagiria à presença de uma senhora baixinhae gorducha querendo aprender a ser modelo.
A "realizadora" deu o ar da graça apenas duas vezes: na primeira aula, com seu show exibicionista, diante de papais e mamães ansiosos, e ao final, quando "júris" avaliaram nosso desempenho, diante de mil promessas de contrato até com uma emissora de tv.
Tive "aulas" de maquilagem, de passarela, de comercial (interpretei, com brilho, aquele texto que dizia dois "hamburguer", alface, queijo e um molho especial....e um pão com gergelim, lembram???) e nem sei mais o quê e, para surpresa geral, ao final fui uma das selecionadas.
Claro! O mercado precisa de senhoras de meia-idade, afinal.
Como não era esse meu objetivo (como fui burra!poderia hoje estar com um bom reforço na aposentadoria), me revelei como repórter para a moça-dona-do-curso que não gostou muito, mas ficou firme, e passei à fase final: montar um book, levá-lo em agências e participar de um desfile, para complementar a matéria.
As fotos para o famoso book foram feitas por uma colega, em estilo sóbrio-chique, em branco e preto, muito bonitas. Fui a duas agências, uma delas a Ford, onde a moça primeiro levou a coisa a sério e me disse que as fotos eram boas mas tinham um senão: em nenhuma delas eu mostrava... os dentes! Então, seria muiiito difícil um booker ou um produtor de comercial avaliar meu material! Tive de me segurar para não rir!
O desfile foi a fase final: eu, naquela confusão de bastidores, tudo registrado para a edição. A matéria saiu com o título Modelo aos 44, em quatro páginas, com meu diário da experiência.
Hoje, passado tanto tempo, me divirto relendo e revendo o que fiz.
Do que mais lembro é que, naquela tensão toda de primeiro dia de aula, enquanto esperávamos a entrada em cena da promotora do curso, um garoto (sim, havia meninos!!!) me perguntou: "A senhora é a instrutora?"
Por isso, quando vejo programas de tv que tentam descobrir uma cinderela em meio a barracos, como assisti esta tarde, me dá uma vontade de virar ditador e dizer: chega, vão fazer concurso de conhecimento geral, de legislação, de ecologia, de ética! Peloamor de Deus: com tanta arte para ensinar (dança, teatro, música, olhem o exemplo de Heliópolis), vão logo pelo lado da maldita vaidade que mais bota garotada a perder do que a ganhar?
Por que este sonho que é para tão poucos e dura tão pouco?
Pois é. Não deu pra começar a semana com bom humor como eu queria.
Quer dizer: dá pra rir, sim. Da minha experiência de "modelo aos 44".

















