Dia 20 de março, agora, sai, na França,
"Os Sonhos de meu Pai", livro (originalmente lançado em 1995, depois reeditado em 2004, com o título original de
"Dreams from My Father: A Story of Race and Inheritance") em que Barack Obama conta a história de sua família e de sua ascensão. O
Figaro está publicando excertos da obra, em primeira mão (para os franceses, claro) e eu me atrevi a traduzir e passar a meus parcos e fiéis leitores também em primeira mão.
Não me cobrem tradução sem erro - nem me passa pela cabeça ser tradutor juramentado.
Segue a primeira parte do material do site. Quem quiser ler tudo em francês, é só clicar
aqui."A promessa do sonho americanoEu soube que meu pai era africano, queniano, da tribo dos Luos, nascido junto às margens do lago Victoria numa localidade chamada Alego. Ele cuidava das cabras de seu pai e freqüentava a escola construída pela administração colonial britância, onde se revelou superdotado. Ele obteve uma bolsa para estudar em Nairobi. Foi lá que, na véspera da independência do Quênia, ele foi selecionado pelos chefes quenianos e pelos patrocinadores americanos para estudar em uma universidade americana, unindo-se à grande massa de africanos enviados ao estrangeiro para aprender a tecnologia ocidental e aplicá-la em seu país a fim de forjar uma nova África moderna.
Em 1959, à idade de 23 anos, ele chegou à Universidade do Hawai. Era o primeiro estudante africano acolhido por aquela instituição. [...]
Durante um curso de russo, ele encontrou uma jovem americana tímida, modesta, com apenas 18 anos e os dois se apaixonaram. Os dois jovens se casaram e tiveram um filho, a quem Barack transmitiu seu prenome.
Ele obteve uma nova bolsa, desta vez para fazer seu Ph.D, seu doutorado, em Harvard, mas não os recursos necessários para levar sua nova família com ele. Houve, então, a separação, a que se seguiu seu retorno a África para cumprir sua promessa de manter sua ligação com o continente. Ele deixou para trás sua mulher e seu filho, mas a ligação de amor perdurou, apesar da distância.
Meu pai não se parecia em nada com as pessoas que cercavam, ele era negro como alcatrão enquanto minha mãe era branca como leite. Na verdade, eu não me lembro de uma única história explícita envolvendo questão racial. Esta história conta que, uma noite, depois de haver passado horas trabalhando, meu pai encontrara meu avô e vários outros amigos em um bar de Waikiki. O ambiente era de alegria, comia-se e bebia-se ao som de um violão havaiano quando um branco, em alto e bom som, se queixou ao proprietário de ser obrigado a beber junto com um negro. O silêncio se instalou na sala e as pessoas se viraram para meu pai, esperando um estouro. Mas meu pai se levantou, foi em direção ao homem, lhe sorriu e começou a lhe passar um sermão sobre a loucura da intolerância, sobre a promessa do sonho americnao e a Declaração Universal dos Direitos do Homem. "Quando Barack se calou, o camarada se sentiu tão envergonhado que lhe deu uma nota de cem dólares, contou Gramps. Este dinheiro cobriu todas as nossas consumações pelo resto da noite ... e o aluguel do teu pai até o fim do mês".
Ele se passou por brancoMinha mãe me deixava em uma biblioteca quando voltava para o trabalho. Eu terminava minhas histórias em quadrinhos e os deveres que ela me passava, depois eu saía para andar pelas seções. Num canto, eu descobri uma coleção de Life. [...] Numa página, eu vi uma foto que ilustrava um artigo e tentei adivinhar o tema antes de ler a legenda. Uma foto de francesinhos que corriam em ruas de pedra: era uma cena alegre, um jogo de esconde-esconde após um dia de escola e de deveres e seus risos evocavam a liberdade. A foto de uma japonesa segurando delicadamente a filhinha nua numa banheira cheia: isso, era triste. A menininha estava doente, suas pernas estavam tortas, sua cabeça caía para trás encostada no peito de sua mãe. Então, eu cheguei à foto de um velho que usava óculos escuros e impermeável. Ele caminhava por uma estrada deserta. Eu não podia adivinhar sobre o que falava essa foto, o assunto não tinha nada de extraordinário. Na página seguinte, havia outra, um zoom sobre as mãos deste mesmo homem. Elas mostravam uma estranha palidez, uma palidez que não era natural. Eu voltei à primeira foto e observei os cabelos crespos do homem, seus lábios grossos e grandes, seu nariz carnudo e tudo tinha o mesmo tom estranho, espectral.
Ele deveria estar gravemente doente, pensei. Vítima de uma radição, quem sabe, ou ser albino. Eu tinha visto um albino na rua, dias antes, e minha mãe tinha me dado explicações a respeito. Mas assim que eu li as palavras que acompanhavam a foto, vi que não era nada disso. O homem havia feito um tratamento químico para clarear a pele, dizia o artigo.
Ele dizia estar arrependido por haver tentado se passar por um branco e se lamentava pela figura catastrófica que a experiência o tinha tornado. Mas os resultados eram irreversíveis. Existiam milhares de pessoas como ele na América, negros, homens e mulheres, que se tinham submetido ao mesmo tratamento acreditando em propagandas que lhes haviam prometido a felicidade uma vez transformados em brancos.
Eu senti um calorão subindo pelo pescoço e rosto. Meu estômago se apertou, as letras se anuviaram. Será que minha mãe sabia disso? E seu chefe? Porque ele parecia tão calmo, lendo seus documentos, alguns metros além, no fim do corredor.
Eu senti a necessidade urgente de me esconder embaixo da minha cadeira, de lhe mostrar o que eu tinha acabado de aprender, de lhe pedir explicações ou confirmações. Mas alguma coisa me reteve. Como nos sonhos, eu fiquei sem voz, incapaz de articular palavras que traduzissem aquele medo novo para mim.
Quando minha mãe veio me procurar para me levar para casa, eu estava sorrindo, e as revistas ficaram lá, em seu lugar. A peça, a atmosfera, tudo era tão tranqüilo quanto antes."
PS: Eu havia postado este texto, estava na rua, e o Emanuel Mattos me telefonou para me alertar que eu havia escrito ascensão com ç, aquelas cochiladas que a gente a-d-o-r-a reparar nos outros e - bem feito - faz igual.
Arrumei e aproveito para sugerir uma passada no
blog do Emanuel para ler a carta que o comitê do Obama lhe mandou. Coisa de primeiro mundo, não adianta. Aqui, é só maquilagem, do tipo " a economia do mundo tá mal, mas o Brasil do milagre petista está imune". Vão lá. Tem muita coisa boa pra ler.