Author: maristela
•Sexta-feira, Novembro 07, 2008


A revista Trip número 171 traz sete matérias especiais sobre o tema longevidade. Elas ocupam 44 páginas, e os entrevistados e temas são todos maiores de 65 anos. Exceção feita a Ronaldo, o chamado Fenômeno, capa da publicação, que teve um belo bate-papo com Daniel Piza, com direito a dizer que fez merda no episódio com os travestis.
O cardápio oferecido sobre a velhice, desta vez, foge daquele ranço de enfoque de consultório geriátrico, que me irrita profundamente, abordando o trio exercício-alimentação-carinho, que é só o que médico e jornalista e terapeuta, claro, sabem indicar para quem se encaminha para o fim, e também não deita aquele olhar meloso sobre o “idoso”, este coitadinho, a quem tudo se perdoa porque, afinal, está quase morrendo mesmo.
A última página da Trip, inclusive, exibe um artigo de Ricardo Guimarães, que é das melhores coisas já escritas não só sobre envelhecer, mas sobre a confusão em que vive o mundo desde que passamos a viver mais. “O que é ter 60 em 2008?”, pergunta o presidente da Thymus Branding. Vale a pena ler, reler, imprimir e guardar. Até os que ainda nem cruzaram os 30, que é para já ir tendo contato com o inevitável (a menos que morram antes, óbvio) e tenham um parâmetro sobre lucidez e clareza de se mostrar honesto diante do que todos nós, maiores de 50, sentimos: estar meio perdido.
Por exemplo: a mesma Trip traz um ensaio fotográfico e uma entrevista com Vera Barreto Leite, 72 anos, que foi modelo de Chanel e não teve o menor constrangimento em exibir a murchura de seu corpo em várias páginas da revista. Na edição online, há um vídeo com o making of da sessão de fotos, que contradiz, pelo tom de voz e pela tristeza evidente da entrevistada, o texto meio otimista demais de Kátia Lessa.
Ouço, sempre, que nós, ocidentais, temos dificuldade de entender a velhice, que os japoneses, por exemplo, veneram seus idosos, etc e tal. Não sei se é ou não é. Sei apenas que estou mergulhada nesta realidade, de uns tempos para cá, sem muito tempo para pensar nas filosofias que envolvem a decadência física e mental que não tem creme, remedinho ou spa que resolvam. Meus pais têm 80 anos e não é fácil vê-los velhos.
Minha geração toda está aí, enrugada, uns mais gordos, outros mais magros, uns com cabelos mais brancos que outros, a maioria das mulheres tingindo os fios. Mas todos nós que cruzamos o portão dos 50 e que usamos espelho sabemos que não é bom nem bonito nem romântico envelhecer. Um mínimo de dignidade e de senso de boa vontade é necessário. Já ter bom humor sempre é exigir demais.
Mas dá para ir segurando algumas coisas, como a tendência para o over, para criticar demais os mais novos, para enfiar o dedo na cara de filhos ou netos e dizer “eu avisei” ou, pior “no meu tempo, era diferente”. Jogue a primeira pílula contra reumatismo que nunca fez isso. Tem, também, a vertente do velhinho paranóico, aquele que fala com o interlocutor no celular dizendo “não posso falar agora, vai para o restaurante, me espera lá que te dou sinal na hora de entrar” e, na hora da saída, pega a comanda e sai correndo, para o caixa, “para não dar na vista” que está acompanhado. Mesmo que seja tão somente uma reunião profissional.
E ainda tem a outra faceta deste diamante que se chama idade e que é a daqueles que chegam aos 60 fazendo charme para as garotinhas e garotinhos, certos de que de Elba Ramalho, Marília Gabriela e Woody Allen todo mundo tem um pouco. Aí, é ruim mesmo.
A mídia, por sua vez, escorrega ao tratar do assunto: ou idolatra ou choraminga os velhinhos. O velho ou é exemplo ou é motivo de piedade. Por isso, gostei desta Trip e a recomendo. Em especial, uma frase do artigo de Ricardo: “Porém, mais triste que negar o tempo é se conformar ou elogiar a velhice”.


Originalmente escrito para Coletiva.net
This entry was posted on Sexta-feira, Novembro 07, 2008 and is filed under , , , , , . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

3 comentários:

On Sábado, 8 de Novembro de 2008 07h47min00s BRST , Bill Falcão disse...

Comprei a Trip por causa da entrevista com Miéle. Mas a que eu tinha ouvido na Rádio Oi foi bem melhor! No entanto, o restante da publicação tem coisas boas, como você disse.
Bjooooooooooooo!!!!!!!

 
On Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008 10h42min00s BRST , Yvonne disse...

Querida, vou comprar a revista. Eu tenho 54 aninhos e já estou vendo que tenho que começar a pensar nesse assunto. Ainda assim, acredite se quiser, eu faço tudo que tenha vontade e não estou ligando nada para o que dizem ser o certo. Beijcas

 
On Terça-feira, 11 de Novembro de 2008 23h46min00s BRST , Marco disse...

Curioso, ontem eu falava com minha cunhada sobre isso (era aniversário dela). Antigamente, as mulheres de 50 eram doces avozinhas. Hoje, tem cada mulherão com as tais cinco décadas... Carpe Diem.