•Quinta-feira, Julho 31, 2008
Eu adoro Gilberto Gil, o músico, o criador, o enrolado em suas frases "quânticas", o homem sensível que vi chorar mais de uma vez, quando acompanhei suas viagens ao Rio Grande do Sul, entre 2003 e 2006. Tive chance de estar com ele mais de uma vez, quando eu atuava como coordenadora de comunicação da Secretaria de Estado da Cultura. São momentos inesquecíveis e não me preocupo de ser tachada de tiete por causa disso.
A primeira visita, um périplo que envolveu Rio Grande, onde inaugurou uma linda e antiga casa restaurada que a falta total de harmonia e compreensão entre quem de direito deveria permitir a ela o acesso da cultura e da população mantém ainda hoje no limbo.
Envolveu, ainda, Pelotas, em outras visitas a prédios históricos que culminaram numa apresentação numa praça em que Gil, sem a maior cerimônia, deixou o protocolo de lado e saiu dançando.
Finalizou em Porto Alegre.
Depois, veio uma Feira do Livro em que o autor de Lunik 9, ao discursar no pórtico do cais do porto, chorou, lembrando seus ascendentes afros pisando aquelas (ou outras) pedras, a ferro, e nos fez chorar, por se mostrar sincero e absolutamente desprovido de liturgias de cargo.
Também nos encontramos em Foz do Iguaçu, num encontro do Fórum dos Secretários de Cultura de todo o País, numa ocasião linda, em que a presença de Gil, sempre serena, me fazia pensar que ali estava um homem sem vaidades, mesmo dentro de sua posição de ministro e de mito da poesia, da música e da cultura, enfim.
Numa ocasião tragicômica, ele veio para uma Bienal e fomos, todos, para um jantar na cobertura do presidente do evento, num prédio chiquérrimo do bairro Moinhos de Vento. Eis que sobem no elevador o dono da casa, Gil e uma penca de autoridades. E o elevador, em vez de subir, desabou para o subsolo, deixando todos presos e exigindo a presença de bombeiros. Tendo de usar o elevador de serviço, a comitiva adentrou à cozinha do anfitrião. Contando, claro, com aquela cara zen-debochada do baiano. E o susto da dona da casa e suas empregadas!
Mas o que vai ficar, pra mim, destes encontros dos quais ele, com certeza, não tem mais a menor lembrança, é o que ocorreu num almoço, no Mercado Público de Porto Alegre. Eu tinha vindo de uma viagem à cidade de Planalto, onde visitara reservas indígenas, uma delas de guaranis, numa pobreza infinita.
Encontramos um homem magérrimo, sentando diante da maloca, as pernas tapadas de moscas.
Era o cacique, ou o que a civilização deixou que ficasse de um cacique.
Nos atendeu fumando seu cigarrinho, nem triste nem alegre. Indiferente.
De imediato, surgiram suas companheiras, com as crianças em volta. Traziam em mãos, para aquele terreiro em que se misturavam cães, galinhas e gatos, muitos colares feitos de sementes de frutas. Comprei dois.
No dia do almoço com Gil, me enchi de coragem, cheguei perto dele e lhe ofereci o presente, explicando a origem. Imediatamente, ele colocou o colar no pescoço.
Tive chance de rever o ministro em outras ocasiões, inclusive em seu gabinete, em Brasília. Mas nenhuma vez foi tão próxima como essa.
Se ele ainda tem o colar? Não sei mesmo.
Agora, ele deixa o governo.
Sábia decisão. Me incomodava muito esta sua divisão de artista-ministro que não conseguia ficar integralmente nem em uma nem em outra função. E o critiquei muito, em vários sites, por causa disso.
E, então, agora, o aplaudo.
E, mesmo achando um horror a frase de Lula, sempre um maladroite, desajeitado, tenho de reconhecer que ele tem razão quando diz: "O Gil teve vai priorizar o que é importante ".
Importante, sem dúvida, para Gil. E para nós, caro presidente Lula.
Porque o lugar de Gil é no palco.






12 comentários:
Maristela,
estava na hora do Gil voltar ao seu real habitat.
Meu marido admira e tem todos os discos dele. Mesmo que a criatura nao entenda certaas expressões de meu país.
Parabéns parati.
Maristela, adoro de verdade o Gil cantor e compositor. Já o Gil ministro não sei avaliar.
O fato é que agora eu sei, com certeza, que ele estará metido com coisas que realmente domina, e muito!
Abraços
Denis
Maristela,
Muito lindo seu texto, seu post.Parabéns!!! Gostei imensamente.Beijinhos.
Belas lenbranças, Maris!
Bjooooooooo!!!!!!!
Ele contribuiu muito para o direito autoral,entre outras coisas.
O negócio é uns "quase calos" nas cordas vocais...ou fazia discursos ou cantava!
Prefiro ele cantando.
bjs su
Maristela, eu confesso que por gostar muito do Gil artista, me sentia desconfortavel com o Gil ministro. Lendo seu texto tão lindo fiquei emocionado. Que bom que temos o nosso velho baiano de volta. Bom domingo. Beijo.
http://quasepoema.zip.net
Eu conheço o grande compositor e intérprete Gilberto Gil. Quanto ao ministro... lamentável...
Beijinho
Estou com saudades de vc!!! Apareça viu??? Gosto muito de vc!!!!
TÊM um lindo selinho de presente para vc lá no meu Blog.!!!!!!
achei estranho quando Lula chamou Gil pra ser ministro..
achava que o lugar mesmo dele era no palco
mas, acho que por toda a bagagem e sensibilidade que ele tinha com artista, tenha ajudado a valorizar mais a questão cultural no nosso país, alem de que, era sempre divertido ter uma figura poética engravatada feito ele no Planalto Central!
Achei graça do comentário da Grace; "...Mesmo que a criatura nao entenda certas expressões de meu país."
Também eu Maris estou contente com a volta de Gil aos palcos. Garanto que ele também estava morrendo de saudades. Que bom que ele voltou a fazer o que mais sabe : Cantar.
Beijos querida e um boa semana.
Maris, faço minhas as palavras da Betty. Amo de paixão o artista, mas como ministro do governo molusco não foi muito bom. O que importa é que agora ele está no seu ninho como você bem disse.
Beijocas