Total de visualizações de página

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Tuio Becker, morando agora num filme


Me aposso desta foto que a Rosane colocou em seu blog, hoje, porque ela significa muito pra mim e pro Tuio. O companheiro de quatro patas, todo exibido, nesta foto, também já foi.
Chamava-se Negro. Mas, por pura bouttade, Tuio o apelidou de Noir. E assim ele passou a atender.
O cachorro na vida de Tuio Becker foi uma concessão de meia-idade. Quando trabalhamos, nos anos 70, na extinta Folha da Manhã, ele era um tipo durão com toda e qualquer demonstração de afeto com bicho, criança e velho. Claro que era provocação. Mas ele dizia que detestava ambos.
De repente, já no Correio do Povo trazido das cinzas, ele botou Noir na vida dele e de Lino, seu companheiro de décadas. E era o assunto preferido, além, claro, de cinema.
Nao quero falar aqui do crítico de cinema. Quem leu, leu. Quem não leu, azar.
Quem conviveu com ele, conhecia o quanto era implacável com os erros alheios, porque era um perfeccionista. Quando se tornou editor, já no Correinho, tinha uma agenda onde anotava tudo, cada matéria, acho que já vinha com as páginas planejadas de casa.
Era rápido, disciplinado, exigente com ele e, claro, com os outros que com ele trabalhavam.
Assim como nos fazia rir muito, em especial do ridículo de tudo, dos apelidos que nos dava, das besteiras que ouvia e via, era de fechar a cara e com poucas palavras demonstrar o que sentia e o que queria.
Em 1997, setembro, viajei com minha amiga Vicky Kauffmann para Paris. Nossa estréia na Europa na cidade que adoramos. Eu estava como se diz "fora de mercado", sem emprego, não via Tuio havia tempo. Uma tarde, eu e Vicky, como boas turistas deslumbradas, subíamos a Mouffetard, minha rua preferida, e sentamos numa droga de cafetaria, daquelas com mesas grudadas e garçons grosseiros, típico de Paris.
Olhamos para o lado e quem estava a algumas mesas de distância? Tuio e Lino. Uma destas absolutas boas surpresas. Ficamos de desbravar os canais do Senna, mas, cada qual tinha seus roteiros e não mais nos vimos por lá.
Tempos depois, o encontrei num aniversário de criança, outra surpresa - ele jurava que detestava crianças. Mas estava derretido pelos pequenos, falando do cachorro, um Tuio que eu desconhecia. Soube, assim que ele foi embora, que já estava sob vigilância até para andar na rua - logo ele, que caminhava quilômetros de casa para os cinemas, o trabalho, as casas dos amigos. Não se sabia ainda se era Alzheimer ou algum problema sério no cérebro.
A partir dali, foi tudo rápido demais. E o único lugar seguro passou a ser a clínica na Zona Sul, em que ele recebia as visitas alterando instantes de lucidez com total confusão, falando línguas estranhas, entrando e saindo de mundos diferentes.
Ano retrasado, sonhei que o encontrara num cinema e ele me dizia, debochado como sempre foi, que estava ali só para dar um tchau, que ia indo.
Liguei para Lino, que me disse que ele, realmente, estava piorando, mas bem cuidado, ia levando.
Soube até que, um dia, levaram Noir para visitá-lo, a fim de tentar, quem sabe, reavivar a memória. Não foi só Tuio que não reconheceu seu cachorro querido: Noir passou por ele sem dar a menor bola. Com a sabedoria dos cães, ele viu que o Tuio, seu dono, amigo, nosso amigo, não estava mais ali, naquele corpo debilitado.
Hoje, foi a despedida. Tão pouca gente.
Tuio nunca recebeu uma homenagem da Câmara, como tantos que ganharam e não merecem até, como cidadão de Porto Alegre, já que deixou sua Santa Cruz para viver aqui.
Nunca foi lembrado num seminário. Foi defenestrado da memória desta cidade futil.
Apenas os amigos de verdade continuaram procurando por ele, saber dele. Estes, em sua maior parte, estavam lá hoje.
As homenagens são todas supérfluas, Tuio.
Mas eu, a Raquel Sager, que tu chamavas de Comprida (por ser alta), a Tatiana Sager (com quem tu diagramavas nossas páginas, rindo do riso frouxo desta amiga e colega) nós prometemos que vamos nos encontrar e tomar um clericot. Como a gente fazia, naqueles anos em que, depois de fechar a edição, saíamos do Correio e seguíamos pela Rua da Praia até a Casa de Cultura, para uma happy hour como nunca mais teremos.

5 comentários:

Emanuel disse...

Maristela,
soube agora, aqui.
fiquei sem palavras...
Vai com Deus, Tuio Becker.
Espero o Coletiva.net.
Bjo.

Cássia disse...

O Tuio era uma pessoa incrível. Tive sorte de poder conhecê-lo...

Betty disse...

Maris

Lendo sobre seu amigo, lembrei dessas palavras de Mario Quintana, no Caderno H:

Biografia
Era um grande nome – ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua... E continuaram a pisar em cima dele.

Beijinho

Ana disse...

Apesar da tristeza, o carinho fala mais alto neste teu post...
Amigos de verdade são raros...

Marta Bellini disse...

Lindo texto. Aproxima a gente do Tuio!
abraços para vc!

Marta Bellini